“Agora eu durmo a noite toda e não tenho mais aqueles pesadelos, graças a Deus!” É assim que dona Oracy resume o efeito do tratamento que passou a fazer há alguns anos. Aos 93 anos, ela convive com o Alzheimer, mas ainda consegue traduzir com clareza aquilo que sente.
Não fala sobre princípios ativos, não conhece nomes técnicos e nem sabe explicar exatamente como funciona a Cannabis medicinal. O que ela sabe é que aquelas gotinhas, tomadas todos os dias, fizeram sua cabeça descansar. “Melhorou quase tudo! Minha cabeça está muito melhor e durmo tranquila”, diz.
Cannabis x Alzheimer
A história dela, no entanto, não pode ser contada apenas por ela. O Alzheimer embaralha lembranças, apaga datas e mistura acontecimentos. Por isso, a narrativa ganha outras duas vozes fundamentais: a da filha, Zenobia, que acompanhou a evolução da doença desde os primeiros sinais, e a da neta, Camila, responsável por apresentar à família a possibilidade da Cannabis medicinal.
Os primeiros esquecimentos apareceram quando dona Oracy ainda morava sozinha. A família percebeu que algo não estava bem, mas, como acontece com tantas pessoas idosas, demorou algum tempo até que os sintomas fossem associados ao Alzheimer.
“O diagnóstico veio quando ela tinha por volta dos 80 anos”, lembra Zenobia. “Ela já estava esquecendo algumas coisas, mas ainda insistia em morar sozinha.” Durante alguns anos, a família tentou respeitar esse desejo. Até que a situação deixou de ser segura. “Ela não queria sair da casa dela de jeito nenhum, mas chegou uma hora em que tivemos que levá-la para morar conosco. Ela já não tinha condições de continuar sozinha”, completa a filha.
Foi nesse período que Camila começou a buscar alternativas que pudessem oferecer mais qualidade de vida para a avó. “Quem levou a Cannabis para dentro da nossa família fui eu”, conta. “Eu já conhecia o tratamento com o óleo, acompanhava relatos de pacientes e entendia o potencial da medicina canabinoide. Mas o que mais me incomodava era ver minha avó tomando tantos medicamentos.”
O óleo ajuda a retardar a evolução da doença
Além do tratamento convencional para o Alzheimer, dona Oracy utilizava remédios para diabetes, hipertensão, proteção gástrica e controle do humor. Um grande número de remédios fazia parte da rotina. “Minha intenção nunca foi substituir o tratamento da doença. Ela continua usando os medicamentos convencionais para o Alzheimer. O objetivo era retardar a evolução da doença e proporcionar uma vida melhor”, diz a neta.
A introdução da Cannabis aconteceu sob acompanhamento médico. Logo nas primeiras avaliações, alguns medicamentos de farmácia já puderam ser retirados. “O remédio para diabetes deixou de ser necessário. O anti-hipertensivo também foi suspenso, porque a pressão dela estava adequada para a idade. Depois conseguimos retirar também o remédio para o estômago. A redução da quantidade de medicamentos foi um ganho muito importante”, diz a família.
E foi dentro de casa que as maiores mudanças apareceram. Antes do óleo da Cannabis, as noites eram motivo de preocupação constante. “Ela tinha muitos pesadelos”, lembra a filha. “Acordava assustada, gritava pedindo ajuda e dizia que a cabeça não parava.” Zenóbia revive uma dessas cenas. “Eu nunca esqueço de uma noite em que ela acordou desesperada, chorando, repetindo: ‘Minha cabeça, minha cabeça’. Parecia que havia uma agitação muito grande acontecendo dentro dela.”
Quando perguntam sobre esse período, dona Oracy também se recorda. “Eu gritava: ‘Alguém me ajuda’. Minha cabeça parecia que rodava.” Hoje, a lembrança parece distante. “Agora eu durmo a noite toda e não sinto mais nada!”, diz a idosa.
Alívio dos sintomas e uma vida bem mais tranquila!
O sono tranquilo foi apenas uma das mudanças percebidas pela família. “Ela ficou mais calma”, observa Camila. “Existia uma ansiedade muito grande e momentos de muita tristeza. Hoje eu vejo uma pessoa muito mais leve.”
Na percepção da neta, o humor da avó também mudou. “Ela não apresenta mais aqueles quadros depressivos que nos preocupavam. Está bem, sorri mais, conversa mais. É claro que o Alzheimer continua fazendo parte da vida dela, mas eu sinceramente não vejo a doença evoluindo da forma como imaginávamos.”
Para Camila, esse talvez seja o maior resultado do tratamento. “A gente sabe que o Alzheimer é uma doença neurodegenerativa e que não existe cura. Mas quando você olha para uma senhora dessa idade, vivendo com qualidade de vida, dormindo bem, tranquila e cercada pela família, percebe que esse era exatamente o nosso objetivo.”
Ela faz questão de tomar suas gotinhas!
A neta recorda do início do tratamento, quando existiu resistência dentro da própria família. Mas era uma resistência baseada na falta de informação. “Quando as pessoas passaram a entender que estávamos falando de um tratamento médico, esse preconceito foi desaparecendo”, reforça.
Hoje, dona Oracy é quem mais faz questão de tomar o óleo. Ela pede pelas gotinhas e diz que aquele é o remédio que faz bem para sua cabeça. Quando perguntam qual conselho ela daria para outras pessoas da idade dela, a resposta é bem simples e direta: “tomem esse remédio, ele é muito bom!” Para a família, essa frase resume tudo o que viveram nos últimos anos. Mais do que uma opinião sobre um tratamento, ela traduz a tranquilidade, a qualidade de vida e a autonomia que dona Oracy recuperou.
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