O sistema endocanabinoide pode representar um novo alvo terapêutico contra o câncer de mama em cachorros. É o que sugere um estudo publicado na revista científica Veterinary Record Open, que também investigou os efeitos do canabidiol (CBD) em células de carcinoma mamário canino, um dos tumores mais frequentes em cadelas.
Em laboratório, os pesquisadores observaram que o CBD foi capaz de reduzir sinais inflamatórios associados ao câncer e também diminuir a multiplicação das células tumorais.
Além de reforçar o potencial terapêutico dos canabinoides na oncologia veterinária, os resultados podem ajudar a compreender melhor o funcionamento do sistema endocanabinoide em cães.
Tumores apresentam maior atividade de receptores ligados à Cannabis
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Messina, na Itália, que analisaram células obtidas de tumores mamários removidos cirurgicamente de três cadelas diagnosticadas com câncer de mama.
O primeiro passo foi investigar o comportamento do sistema endocanabinoide nessas células. Esse sistema é uma rede de receptores, moléculas de comunicação celular e enzimas presente em humanos e animais. Ele ajuda a regular funções como dor, inflamação, resposta imunológica, apetite e equilíbrio celular.
As análises mostraram que diversos componentes desse sistema estavam mais ativos nas células cancerígenas do que em tecidos saudáveis. Entre eles estavam os receptores CB1 e CB2, conhecidos por interagir com compostos da Cannabis.
Também foram identificados outros receptores envolvidos em processos inflamatórios e metabólicos, como TRPV1, GPR55 e PPAR-alfa.
Segundo os autores, essa atividade aumentada sugere que as células tumorais utilizam mecanismos biológicos do sistema endocanabinoide para sustentar um ambiente favorável ao crescimento do câncer.
Inflamação intensa nas células cancerígenas
Uma das principais características observadas pelos pesquisadores foi a presença de um forte estado inflamatório nas células tumorais.
Embora a inflamação seja uma resposta natural de defesa do organismo, quando se torna persistente ela pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de diversos tipos de câncer.
No estudo, os cientistas encontraram níveis elevados de enzimas e moléculas inflamatórias associadas ao comportamento mais agressivo do tumor, incluindo COX-1, COX-2, IL-6, TNF-alfa, IL-4 e IL-33.
Essas substâncias ajudam a criar um ambiente ao redor do tumor favorável ao crescimento da doença, à invasão de tecidos e até à formação de metástases.

CBD reduziu sinais inflamatórios do tumor
Após identificar esse perfil inflamatório, os pesquisadores avaliaram os efeitos do CBD nas células tumorais.
Os resultados mostraram que o canabidiol conseguiu reduzir a atividade de genes relacionados à inflamação e diminuir a liberação de moléculas pró-inflamatórias, mesmo em doses consideradas não tóxicas para as células cancerígenas.
O achado chama atenção porque indica que o CBD pode exercer efeitos biológicos relevantes antes mesmo de atingir concentrações capazes de matar células tumorais.
Canabidiol também diminuiu a multiplicação das células cancerígenas
Além do efeito anti-inflamatório, o estudo observou que o CBD reduziu a capacidade de crescimento das células tumorais.
Quando ocorre essa interrupção no processo de crescimento e divisão, a célula perde a capacidade de continuar se multiplicando.
Esse resultado sugere que o canabidiol pode atuar não apenas sobre a inflamação, mas também sobre mecanismos diretamente ligados ao crescimento do tumor.
O que os resultados podem significar para a medicina veterinária
Os autores indicam que o sistema endocanabinoide pode representar um alvo para futuras terapias contra tumores mamários caninos.
Como os receptores relacionados a esse sistema estavam mais ativos nas células cancerígenas, existe a possibilidade de que essas estruturas sejam exploradas em futuras abordagens terapêuticas.
Segundo os pesquisadores, os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias anti-inflamatórias e antitumorais baseadas na modulação do sistema endocanabinoide.
Pesquisa ainda está em fase inicial
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores destacam que o estudo possui limitações importantes.
A pesquisa foi realizada apenas em células de três animais. Isso significa que os dados ainda não permitem concluir se os mesmos efeitos ocorreriam em outros cães com câncer.
Além disso, novas análises poderão avaliar dose ideal, segurança em longo prazo e o impacto sobre a progressão da doença.
O uso de CBD por médicos veterinários
Os pesquisadores afirmam que novos estudos serão necessários para esclarecer os mecanismos envolvidos na ação do CBD sobre o câncer de mama canino. Também será preciso confirmar se os efeitos observados em laboratório podem ser reproduzidos em cadelas.
Estudos anteriores identificaram que o canabidiol pode melhorar a qualidade de vida de cães em tratamento oncológico. Tutores relataram mais interação e disposição após a inclusão do canabinoide. Além disso, a abordagem foi segura e não provocou efeitos colaterais relevantes.
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