Cannabis trata depressão e indiretamente ajuda no diagnóstico de autismo

A tradutora, pesquisadora e acolhedora canábica Bárbara Gael sofre com ansiedade, depressão e síndrome de pânico desde a adolescência. As crises incluíam pensamentos suicidas, falta de apetite e muita tristeza.  Tentava tratamentos alternativos: mais crises. Emagreceu quatro quilos e chorava o dia todo.

Aos 28 anos, começou a tomar antidepressivos: mais crises. Não tinha energia para nada, se encolhia num canto.

Em torno dos 30 anos, percebeu pela primeira vez que quando fumava maconha a ansiedade diminuía. Mas em 2000 o pouco que se falava em Cannabis medicinal era para pacientes de quimioterapia. E Gael, com 35 anos, precisou chamar a mãe para ajudá-la a sair de uma crise de pânico: não conseguia sair do quarto.

Nos últimos 10 anos, passou a tomar doses altas de antidepressivos e ansiolíticos, que nunca resolviam, somente amenizavam o problema, controlando mais o pânico do que a depressão em si. Os efeitos colaterais também cobravam seu preço: enjoô, sonolência, menos apetite. Gael conta que descobriu que o aumento de dose causava mais efeitos colaterais. Se parasse os remédios e precisasse voltar, as reações adversas também voltavam com toda a força. Por isso, resignou-se a manter os remédios por mais de dez anos seguidos. 

Cannabis certa

Em julho de 2019, depois de um bom tempo estudando o tratamento com Cannabis, e por indicação da psicanalista, Gael conseguiu chegar à médica prescritora Paula Dall’Stella. Ficou impressionada com a atenção e empatia da médica: a consulta inicial durou mais de uma hora, e Dall’Stella orientou não só sobre o tratamento, mas também quanto à dieta e hábitos de vida.

Reduziu carboidratos e aumentou proteínas da dieta ovolactovegetariana de sua paciente. O óleo com CBD alto e 0,8% de THC fez efeito em 20 dias com uma leve melhora.  Em dois meses, a disposição era maior, com menos ansiedade e tristeza. No retorno, Dall’Stella adicionou um óleo com mais THC. 

“Aí sim a depressão foi aos poucos controlada. Eu, que sempre tive tendência à tristeza, de repente tendia à alegria, sem mania ou euforia, como às vezes acontece com remédios tarja preta”, diz Gael. Mais capaz de enxergar as pequenas felicidades, voltou a sentir prazer nas coisas.

Tinha mais foco, memória, clareza nos pensamentos e menos irritação. Quando entrou na menopausa ou quando veio a quarentena, Gael não perdeu esse controle do humor. O quadro que já tinha sido controlado cinco meses antes da pandemia chegar, continuou equilibrado: “O tratamento chegou na hora certa”. Os calores da menopausa vêm mas são suportáveis, duram dois minutos e passam. As angústias da pandemia são contornáveis. 

A descoberta do autismo

O sucesso do tratamento estimulou uma dúvida que Gael tinha havia anos. Seu diagnóstico era de transtorno de ansiedade generalizada e depressão, mas ela desconfiava ser autista leve, asperger. Psicólogos diziam que não, pois ela tinha empatia e capacidade de comunicação. Mas sabendo como o tratamento com Cannabis funciona para a maioria dos autistas e vendo o que ele tinha feito por ela, a dúvida cresceu.

No grupo de acolhimento e informação sobre o tratamento que formou, Gael tinha se aproximado de mães de autistas. Com elas, aprendeu sobre a amplitude do espectro e foi desfazendo mitos como o da empatia: alguns autistas têm empatia demais. Que nem sempre o autista é aquela criança que fica girando. 

Entendeu que há vários espectros do autismo e que o nível leve muitas vezes não é diagnosticado: eles conseguem aprender a disfarçar suas características. Os autistas leves apresentam sintomas que podem passar despercebidos, mas juntos, ajudam no diagnóstico. Ela mesma tinha vários: dificuldades de interação social, um sentimento de inadequação, hipersensibilidades sensoriais como a luz, cheiros, frio – quando o tempo vira, Gael sente antes mesmo de abrir a janela. 

Presente inesperado

Em busca da libertação do diagnóstico, ela fez o processo com uma neuropsicóloga e confirmou que tem autismo leve. Aos 50 anos, sentiu autoaceitação e uma melhor compreensão de suas características, e com isso ferramentas para mais qualidade de vida. “Esse foi um dos presentes inesperados que o tratamento com Cannabis me trouxe”, diz. Foi só aí que entendeu por que tinha uma inteligência acima da média mas não conseguia evoluir mais. 

Este foi outro mito desfeito, o de que autistas são bons em matemática: ela não é tão boa com números. Existem três tipos de mente autista: a visual, a analítica e a verbal, esta última a da bacharel em letras e mestre em literatura brasileira Bárbara Gael. Lembrou que alguns de seus comportamentos de infância eram rejeitados. Ela era repreendida por inadequação e imitava o outro, mais aceito. Entendeu o motivo de sua infância ser um buraco vazio, do qual não se lembrava, cresceu se disfarçando. “O que fiz para me adaptar me levou à depressão”, diz Gael, que chorou ao ler o diagnóstico.

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Érika Suzuki

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