A identificação do sistema endocanabinoide é relativamente recente na história da ciência. Ele foi descrito apenas na década de 1990 pela equipe do Raphael Mechoulam. Desde então, pesquisadores observaram que esse sistema participa da regulação do humor, do estresse, do sono, da dor e da inflamação.
Mais recentemente, novas evidências têm sugerido que diversas condições de saúde podem estar associadas a um desequilíbrio nesse sistema. Agora, um estudo publicado na revista Nutrients identificou alterações importantes no sistema endocanabinoide em pessoas diagnosticadas com transtorno depressivo maior (TDM).
A pesquisa sugere que níveis reduzidos de endocanabinoides nesses pacientes podem contribuir para alterações no humor e na resposta ao estresse, características típicas dessa condição.
Medindo os níveis de endocanabinoides
Embora fatores genéticos, psicológicos e sociais estejam envolvidos no transtorno depressivo maior, ainda não sabemos com precisão quais são os mecanismos biológicos centrais nessa condição. Nesse sentido, a inflamação e as alterações metabólicas têm recebido atenção crescente da comunidade científica.
O objetivo dos pesquisadores foi investigar se pacientes com TDM apresentavam diferenças nos níveis de endocanabinoides e oxilipinas, moléculas derivadas de ácidos graxos ômega-3 e ômega-6.
Para isso, eles realizaram um estudo do tipo caso-controle com 82 pessoas diagnosticadas com TDM e 82 participantes saudáveis.
Para a avaliação, os pesquisadores coletaram amostras de sangue e analisaram o plasma, a parte líquida do sangue, por meio de cromatografia líquida de ultra-alta eficiência acoplada à espectrometria de massas (UHPLC-MS/MS). Essa é uma técnica altamente sensível capaz de detectar pequenas concentrações de moléculas no organismo.
Ao todo, eles analisaram 60 moléculas relacionadas ao metabolismo de gorduras, incluindo três endocanabinoides específicos: anandamida, EPEA e DHEA.

Uma relação entre o sistema endocanabinoide e o transtorno depressivo maior
Os resultados reforçam a hipótese de que alterações no sistema endocanabinoide podem estar envolvidas na origem do transtorno depressivo maior.
Os participantes saudáveis apresentaram níveis mais elevados de anandamida, EPEA e DHEA. Os voluntários com TDM, por outro lado, apresentaram níveis significativamente mais baixos dessas moléculas.
Esses resultados sugerem um possível desequilíbrio do sistema endocanabinoide no transtorno depressivo maior.
EPEA e DHEA: endocanabinoides que interagem com o CB2
De acordo com os pesquisadores, EPEA e DHEA são endocanabinoides, ou seja, substâncias produzidas naturalmente pelo próprio organismo. Elas são formadas a partir de ácidos graxos:
- • EPEA: derivado do EPA (um ácido graxo da família ômega-3)
- • DHEA: derivado do DHA (outro ácido graxo da família ômega-3)
Essas moléculas parecem atuar principalmente no receptor CB2, que está mais relacionado ao controle da inflamação e à regulação do sistema imunológico
Anandamida e a regulação do humor
A anandamida é o endocanabinoide mais estudado e também foi identificado pela equipe de Mechoulam. Diferentemente do EPEA e do DHEA, ela é derivada do ácido araquidônico (um ômega-6) e pode ativar tanto o receptor CB1, mais presente no cérebro e ligado à regulação do humor, quanto o CB2.
Enquanto a anandamida está mais diretamente relacionada à comunicação entre neurônios e à regulação do estresse, EPEA e DHEA parecem exercer papel mais relevante na modulação da inflamação.
O estudo observou que os três estavam reduzidos nos adolescentes com transtorno depressivo maior, sugerindo um possível desequilíbrio do sistema endocanabinoide e um comprometimento tanto da regulação emocional quanto do controle inflamatório.

O que isso significa para quem tem transtorno depressivo maior
O sistema endocanabinoide participa da regulação de neurotransmissores como serotonina e dopamina, além de influenciar o eixo do estresse (eixo hipotálamo-hipófise-adrenal).
Níveis reduzidos de endocanabinoides podem indicar:
- • Menor capacidade de adaptação ao estresse;
- • Maior vulnerabilidade a processos inflamatórios;
- • Alterações na comunicação entre neurônios.
Embora o estudo não estabeleça uma relação de causa e efeito, indica que o sistema endocanabinoide está conectado com o transtorno depressivo maior. Os autores destacam que ainda são necessários mais estudos para avaliar se intervenções nutricionais, como a suplementação de ômega-3, poderiam influenciar esses marcadores biológicos.
Como medicamentos à base de Cannabis podem ajudar pessoas com TDM
Estudos anteriores indicam que os compostos presentes na planta Cannabis interagem com o sistema endocanabinoide. Por isso, há interesse científico em seu potencial para complementar o tratamento de diferentes condições de saúde, inclusive condições psiquiátricas.
O potencial terapêutico dos canabinoides tem sido investigado especialmente em casos nos quais as abordagens convencionais não produzem os resultados esperados ou provocam efeitos adversos difíceis de tolerar.
No entanto, é fundamental ressaltar que o sucesso do tratamento com medicamentos à base de Cannabis depende de avaliação individualizada e de prescrição feita por profissional de saúde especializado, considerando histórico clínico, interações medicamentosas e perfil do paciente.
Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exige prescrição médica para a compra legal desses produtos no Brasil. Portanto, caso você ou alguém próximo deseja incluir derivados da planta no tratamento, busque orientação médica.
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