Aos 69 anos, Silvia Moreira de Rezende não fala em desacelerar. Entre exercícios físicos, trabalhos manuais com madeira, cuidados com o quintal e planos para novos esportes, ela mantém uma rotina que exige presença física, força e constância.
Nada disso, porém, veio sem enfrentamentos. Diagnosticada com artrite reumatoide, fibromialgia e uma síndrome autoimune que compromete mucosas e articulações, Silvia conviveu por anos com dores intensas, limitações funcionais e uma coleção de imobilizadores que hoje repousa esquecida em uma gaveta.
“É uma síndrome que pode englobar várias enfermidades. Ela provoca língua seca, boca seca, mucosas ressecadas e pode desencadear fibromialgia, artrite reumatoide, lúpus e mais algumas condições”, explica.
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A reorganização do cuidado a partir da Cannabis medicinal
A virada começou em 2023, quando ela decidiu incluir a Cannabis medicinal no tratamento, sob prescrição do médico Dr. Jimmy Fardim Rocha. A resposta do organismo ao óleo — formulado com CBD e THC — foi rápida. As dores, que antes a impediam até de dirigir, cederam. Movimentos simples deixaram de ser um desafio diário. O corpo voltou a responder como aliado, não como obstáculo.
Antes disso, porém, a rotina era marcada por medicamentos tradicionais, como o metotrexato, e por episódios frequentes de inflamação. Silvia chegou a tomar até oito comprimidos por dia. Com o uso da Cannabis medicinal, conseguiu reduzir gradualmente essa carga medicamentosa, sempre observando os limites do próprio corpo. “Fui diminuindo aos poucos e continuei bem”, conta. Hoje, mantém uma dose significativamente menor e relata estabilidade nos sintomas.
O impacto não foi apenas físico. Ativa por natureza, Silvia sempre construiu sua identidade em torno do movimento. Nos anos 1990, desenvolveu um projeto ligado ao mar, em Búzios, onde passava longos períodos sob o sol, entre deslocamentos, direção e atividades intensas. Quando as dores surgiram, ela acreditou que fossem consequência do ritmo de vida. Com o tempo, percebeu que havia algo mais profundo em curso — e que estava perdendo autonomia.
“Eu sempre fui muito ativa. Quando isso apareceu, impactou muito minha rotina”, conta.
Uma rotina possível, sem dor constante
A Cannabis entrou, então, como ferramenta de reconexão com esse estilo de vida. Hoje, Silvia frequenta a academia — ainda que confesse não gostar do ambiente — para se preparar para um novo esporte radical semelhante ao Wingsurf. Fora dali, o corpo segue em movimento. Em Marataízes, no litoral sul do Espírito Santo, ela passa horas cuidando do quintal, capinando, serrando madeira e construindo pequenos objetos. A casa onde vive, feita de madeira e mantida pelas próprias mãos, integra essa rotina ativa, que se expressa tanto no treino quanto no cotidiano.
Apesar dos benefícios, o caminho não foi livre de resistência. O preconceito em torno da Cannabis medicinal ainda se faz presente, especialmente fora dos grandes centros. Para Silvia, a discussão sobre Cannabis passa longe de radicalismos. Ela defende equilíbrio — tanto no tratamento quanto na vida. Alimenta-se bem, mas sem rigidez excessiva. Gosta de comida caseira, valoriza o prazer à mesa e não abre mão de pequenos rituais do cotidiano. A diferença é que, agora, faz isso sem dor.
Aos 69 anos, prestes a completar 70, Silvia não romantiza o envelhecimento, mas também não aceita que ele seja sinônimo de limitação. A Cannabis medicinal, em sua experiência, não foi uma promessa milagrosa, e sim uma aliada concreta para manter autonomia, movimento e identidade. “Eu não uso mais nada daquela gaveta cheia de ataduras”, diz. O corpo segue em uso — ativo, presente e disponível para o que ainda está por vir.
Importante!
Experiências como a de Silvia ajudam a ampliar o debate sobre o uso da Cannabis medicinal no cuidado de condições crônicas, mas não dispensam acompanhamento médico. A indicação, a formulação e o ajuste das doses devem sempre ser feitos por profissionais a partir de avaliação individual e monitoramento contínuo.
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