Mayra Souza lembra com exatidão do dia em que percebeu que algo em Davi não seguia o roteiro esperado para um bebê de quatro meses. Não foi um palpite genérico, nem uma intuição vaga. Foi observação profissional. Pedagoga, com experiência em educação infantil e estágio em berçário, ela identificou gestos e movimentos que nunca havia visto em outros bebês.
“Eu via uma intencionalidade nos movimentos dele que era extremamente atípica para um bebê de quatro meses”, recorda. “A maioria dos movimentos nessa fase não é tão intencional. No Davi, era.”
Quando a suspeita de autismo surge antes do diagnóstico médico
Ao levar a preocupação ao pediatra, ouviu uma negativa categórica. “Ele disse que era impossível perceber qualquer traço de autismo nessa idade.” Ainda assim, Mayra seguiu observando. E anotando mentalmente cada detalhe.
Foi apenas quando Davi tinha cerca de um ano e nove meses que o pediatra — a quem ela faz questão de reconhecer como “um excelente profissional” — identificou, de fato, que algo estava fora do esperado.
“Ele percebeu que o Davi tinha um comportamento fora do padrão, o que ele chamou, na época, de comportamento voluntário”, explica.
Naquele momento, Davi apresentava praticamente todos os marcos do desenvolvimento esperados, com exceção da fala. O atraso foi inicialmente atribuído ao uso de telas — hipótese que hoje já se sabe não explicar o atraso de linguagem em crianças no espectro.
Pouco depois, algo mudou de forma abrupta.
Diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 3 e seus impactos
“Ele teve o que se chama de poda neuronal. Simplesmente parou de entender alguns comandos. Parecia que tinha ficado surdo”, relata. A criança que até então respondia a estímulos começou a se fechar. Vieram as estereotipias, a dificuldade de permanência, a rigidez extrema.
O diagnóstico formal de Transtorno do Espectro Autista, nível três de suporte, veio por volta dos três anos. Davi era não verbal.
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Escola e autismo: quando a inclusão não acompanha a criança
Antes mesmo do laudo, a escola já havia sinalizado dificuldades. Mas não exatamente de Davi.
“As primeiras vezes que me chamaram foi porque ele não sentava para comer”, conta. “As professoras questionavam por que ele não ficava sentado como as outras crianças.”
Em casa, Mayra não forçava. Davi comia caminhando, levantava, voltava. “Isso já era o autismo se manifestando”, explica. “Essa necessidade de movimento, de circular.”
Na escola, porém, a resposta era outra. “Aqui todas as crianças têm que sentar.” “Como é que ele não come de colher ainda?” “Os outros conseguem.”
Mayra tentava explicar. “Eu dizia: ele não consegue segurar a colher. Não é falta de incentivo.” Mas a lógica da padronização se impunha.
“Existe uma falta de compreensão muito grande. Ainda hoje”, afirma. É nesse ponto que ela crava uma das frases mais fortes do seu relato: “os professores eram mais rígidos que o próprio autismo.”
Essa rigidez institucional foi determinante para a medicalização precoce. “A risperidona entrou na nossa vida porque os profissionais não davam conta. A sociedade não está preparada para os nossos filhos.”
Rigidez institucional e medicalização precoce no autismo
Indicada para lidar com a hiperatividade, a irritabilidade e as dificuldades de socialização, a risperidona passou a fazer parte da rotina de Davi ainda pequeno. Mas o custo emocional era alto.
“Era uma tensão constante”, lembra. “Tantas gotas, tal horário. Se errasse uma gota, ele passava muito mal.” Náusea, vômitos, sonolência excessiva, instabilidade. “Era uma medicação pesada”, lembra a mãe.
O medo não cessava nem à noite. “Ele acordava meio grogue. E eu ficava em estado de alerta: será que ele vai cair? Será que vai bater a cabeça?”
Com o autismo vieram também a seletividade alimentar severa e traços de rigidez intensa. Davi só aceitava alimentos secos. Nada podia sujar as mãos ou a boca. “Eu colocava tudo na air fryer ou no forno para tirar qualquer umidade.” A alimentação restrita trouxe consequências físicas. “Ele tinha problemas intestinais, dificuldade para ir ao banheiro.”
Apesar das terapias, havia comportamentos que não cediam. “Ele só sentava no mesmo lugar. Organizava os brinquedos sempre do mesmo jeito. Se eu mudasse um adesivo da mesa, já era um problema.”
Foi quando o psiquiatra da APAE de Garopaba — não um neurologista, como muitos supõem — sugeriu uma alternativa. “Ele disse: ‘Já que você não está vendo mais melhorias com a risperidona, vamos tentar a Cannabis’.”
Na época, a proposta ainda soava nova, cercada de dúvidas. Mas Mayra aceitou.
Cannabis medicinal: as primeiras mudanças percebidas pela mãe
Davi tinha cinco anos quando iniciou o uso do CBD. Mayra lembra que, nos primeiros dias, nada parecia diferente — até que algo se deslocou, quase imperceptível, da ordem que sempre havia organizado a rotina da casa.
“Em questão de uma semana, numa manhã comum, ele fez algo que nunca havia feito antes. Acordou, puxou a cadeira, colocou em outro lugar e virou a mesa para olhar para a rua”, conta.
Até então, todos os dias, sem exceção, Davi girava ao redor da mesa para sentar exatamente no mesmo ponto, da mesma forma, no mesmo ângulo. Qualquer alteração naquele arranjo costumava gerar sofrimento. “Naquele dia, eu só pensei: isso não está acontecendo.”
O gesto simples ganhou peso justamente por acontecer no momento mais tenso da rotina familiar: a hora da comida. Ali, onde antes havia rigidez absoluta, começaram a surgir pequenas frestas. A relação com os brinquedos deixou de ser tão inflexível. A irritabilidade diminuiu. A alimentação, aos poucos, começou a se ampliar.
“Eu não fiz nenhuma mediação”, enfatiza. “Não mudei estratégia, não provoquei nada. Simplesmente aconteceu.”
Surpresa, Mayra procurou o médico que havia indicado a Cannabis para relatar o que via em casa. “Eu disse para ele: houve alguma coisa. Algo destravou.” Até hoje, ela não arrisca nomear o que foi — apenas sustenta o impacto. “Eu não sei dizer como. Só sei que aconteceu.”
Uma rotina com mais leveza e previsibilidade

O contraste entre a risperidona e a Cannabis é descrito por Mayra em termos de sensação corporal e emocional. “Com a cannabis é leve. Não tem drama. Não tem aquele medo de superdosagem.”
A previsibilidade é um ponto-chave. “Eu sei o que vai acontecer. Se um dia faltar, tudo bem, dá para testar.” Algo impensável com a medicação anterior.
“É um medicamento que me deixa tranquila como mãe atípica. Porque não tem rebote, não tem algo drástico”, afirma.
O sono de Davi, que já era relativamente bom, se consolidou. “Ele dorme a noite inteira. Para uma mãe solo, isso muda tudo. Não tem preço.”
Mayra está sozinha com o filho há cinco anos. “Saber que às 8h30, 9h, ele vai dormir tranquilo… isso me dá um pedaço do dia. É nesse intervalo que eu vou ler um livro. Vou ouvir uma música. Às vezes tomar uma taça de vinho.”
Preconceito, disputa e informação
A decisão pelo uso da Cannabis não foi isenta de conflitos. “Teve luta dentro da família e no consultório. Um neurologista foi abertamente contra. Questionaram: ‘Onde vocês tiraram que isso tem benefício?’”
A resposta veio com firmeza. “Eu disse: ‘Doutor, o senhor precisa pesquisar mais’.”
Para Mayra, o estigma ainda existe, especialmente quando envolve crianças. A confusão entre uso medicinal e recreativo é recorrente. “Mas isso vem se dissolvendo com o tempo.”
Ela é cautelosa. “Não faz bem para todo mundo. Ok. Testa. Mas não julga. Não fala mal.”
E conclui com a autoridade de quem vive o cotidiano do cuidado: “Divulgar relatos reais é o que quebra o preconceito. Porque quem vive sabe.”
Ao longo da entrevista, Mayra não romantiza o autismo, nem a maternidade. Ela narra. Observa. Sustenta. Como pedagoga, como mãe, como mulher que aprendeu cedo que escutar uma criança — mesmo quando ela não fala — é um ato profundamente político.
E, sobretudo, profundamente humano.
Importante!
A experiência de Mayra Souza evidencia que o uso da Cannabis medicinal no autismo infantil não se sustenta fora de um acompanhamento clínico cuidadoso e individualizado. Em quadros como o de Davi, a decisão terapêutica precisa considerar a criança em sua singularidade, respeitando seus limites, respostas e o contexto em que está inserida.
Neste relato, a introdução da Cannabis ocorreu com prescrição médica e acompanhamento profissional, em diálogo com outras intervenções já presentes em sua rotina. O tratamento não foi pensado como substituição automática, tampouco como solução isolada, mas como parte de um cuidado construído ao longo do tempo.
Esse percurso, além de necessário do ponto de vista clínico, atende às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o acesso legal e seguro aos produtos à base de Cannabis no Brasil.
Mais do que atuar sobre comportamentos específicos, o tratamento possibilitou mudanças concretas na qualidade de vida da criança e na dinâmica familiar. Ao reduzir a rigidez, a irritabilidade e a tensão diária, abriu-se espaço para uma rotina mais previsível para Davi — e menos exaustiva para quem cuida.
Essa trajetória mostra que o tratamento não se faz por atalhos. Exige acompanhamento contínuo, decisões compartilhadas e responsabilidade clínica. E reforça que, quando há escuta, critério e compromisso com o bem-estar da criança, o cuidado deixa de ser contenção — e passa a ser sustentação ao longo do tempo.
Se você ou alguém próximo considera a inclusão de medicamentos à base de Cannabis no tratamento, o acompanhamento médico é indispensável. Por meio da nossa plataforma, é possível agendar consultas presenciais ou por telemedicina com médicos de diferentes especialidades.
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