Aos 81 anos, Dona Maria das Graças já havia passado por reumatologistas, exames sucessivos e diferentes medicações para dor quando iniciou o protocolo com a Cannabis medicinal. Moradora de um vilarejo no interior do Pará, ela convive há 40 anos com um quadro de dores crônicas associado à suspeita de fibromialgia. Durante muito tempo, precisou viajar de barco até Belém em busca de atendimento médico e respostas para sintomas que nunca chegaram a ser completamente controlados.
Os tratamentos convencionais traziam melhora temporária, mas as dores sempre voltavam. “Eu não podia enconstar no meu corpo. Doía tudo”, relata.
Da dor crônica ao desgaste físico
Nos últimos anos, o quadro passou a incluir fraqueza frequente, suor frio, perda de apetite, baixa ingestão de líquidos e dificuldade até para sair da cama. Segundo Dona Maria, houve períodos em que o corpo parecia perder completamente o ritmo. “Uma hora me dava suor, outra hora me dava um frio. A minha cabeça não regulava o corpo”, lembra.
Quando chegou ao consultório do médico Dr Vinicius Mesquita, Dona Maria apresentava um quadro de desgaste progressivo. ‘‘Aos 81 anos, convivia com dores crônicas, pouca energia, dificuldade até para levantar da cama e episódios frequentes de sudorese fria. A ingestão de líquidos também havia diminuído“, conta o médico.
Apesar do uso de medicações indicadas para controle clínico geral, a qualidade de vida seguia bastante limitada.
Diante desse cenário, Dr. Vinicius optou por introduzir a terapia com fitocanabinoides, iniciando o CBD em baixa dose e uso contínuo, com plano de evolução terapêutica baseado na resposta clínica da paciente.
Ainda segundo o médico, as semanas seguintes mostraram uma mudança consistente no quadro. “A paciente passou a relatar melhora da disposição, redução das dores e, principalmente, retomada de atividades básicas do dia a dia com mais autonomia”, afirma.
Para ele, a resposta clínica chama atenção especialmente pela idade da paciente e pelo histórico prolongado de sintomas. “Foi uma melhora concreta na funcionalidade e no bem-estar global”, resume.
O impacto na qualidade de vida
A percepção da própria Dona Maria sobre o início do tratamento é direta. “A primeira dose que eu tomei, eu me senti muito bem”, conta. “Aí senti apetite. Senti sede, que eu não tinha nem sede de água.”
Ela afirma que as dores não desapareceram completamente, mas deixaram de atingir o corpo inteiro. Hoje, permanecem concentradas principalmente nas pernas e articulações. O sono também melhorou. “Agora eu deito e durmo bem”, conta.
Embora ainda conviva com limitações físicas, Dona Maria relata que voltou a ter disposição para atividades simples do cotidiano. “Eu tenho disposição para fazer ainda muita coisa na minha vida”, diz.
A Cannabis medicinal entre idosos
O caso evidencia um cenário cada vez mais presente na prática clínica: o uso da Cannabis medicinal como abordagem complementar em pacientes idosos com dor crônica e comprometimento funcional, especialmente em quadros refratários aos tratamentos convencionais.
Mas a trajetória de Dona Maria também expõe outra dimensão desse debate. Em regiões afastadas dos grandes centros, onde o acesso a especialistas exige longos deslocamentos e anos de tentativa terapêutica, a perda de funcionalidade costuma acontecer de forma lenta — até que atividades básicas, como dormir, comer ou permanecer em pé, deixam de ser automáticas. Foi nesse estágio que a Cannabis entrou na rotina dela.
Não como promessa de cura, mas como tentativa clínica diante de um quadro que já comprometia autonomia, alimentação, sono e disposição.
Quando o debate encontra a vida real
Em um país onde o debate sobre Cannabis medicinal ainda costuma aparecer associado a questões regulatórias ou aos grandes centros urbanos, a história de Dona Maria percorre outro caminho. Ela começa em um vilarejo no interior do Pará, atravessa décadas de dor e chega, aos 81 anos, a uma melhora que a própria paciente descreve de forma simples: voltar a sentir fome, dormir melhor e conseguir atravessar o dia com menos sofrimento.
“A pessoa tem que tentar”, diz ela. E a frase não surge como defesa ideológica nem como celebração da Cannabis medicinal. No caso de Dona Maria, ela aparece quase como conclusão prática de alguém que passou boa parte da vida circulando entre consultas, exames e tratamentos sem resposta duradoura.
A melhora relatada por ela também não elimina as limitações do corpo aos 81 anos. As dores continuam presentes, principalmente nas pernas. O deslocamento segue difícil. A rotina ainda exige cuidado constante. Mas existe uma diferença concreta entre viver sob dor permanente e recuperar alguma margem de autonomia dentro dela.
É justamente nesse ponto que histórias como a de Dona Maria ajudam a deslocar o debate sobre Cannabis medicinal do campo abstrato. Menos discussão teórica, mais impacto funcional. Menos promessa de cura, mais qualidade de vida possível.
Importante!
Para pacientes idosos com quadros crônicos e refratários, a mudança nem sempre aparece em grandes transformações clínicas. Às vezes, ela começa em coisas pequenas: voltar a sentir fome, conseguir dormir uma noite inteira ou simplesmente atravessar o dia sem que o sofrimento organize tudo ao redor dele.
É justamente nesse contexto que a Cannabis medicinal tem sido incorporada à prática clínica como uma possibilidade terapêutica complementar, sempre a partir de avaliação individualizada, acompanhamento médico e definição cuidadosa da conduta mais adequada para cada paciente.