Um relato de caso publicado no Journal of Medical Case Reports descreveu o uso de canabidiol (CBD) como terapia complementar em um paciente com uma complicação grave após traumatismo craniano: a hiperatividade simpática paroxística, conhecida pela sigla em inglês PSH.
O paciente, um homem de 44 anos, havia sofrido um acidente de trânsito com queda de motocicleta. Ele chegou ao hospital em estado grave. A tomografia mostrou hematomas no cérebro e outras lesões cerebrais graves.
Após cirurgia e internação, o paciente passou a apresentar episódios de desregulação das funções do organismo. Entre os sintomas estavam coração acelerado, pressão muito alta, febre, suor intenso e contrações musculares.
A introdução do CBD foi seguida pela redução dos episódios e estabilização dos sinais vitais.
Por se tratar de um relato de caso, não é possível afirmar que esses benefícios ocorrerão em todas as pessoas com PSH. Ainda assim, o caso acrescenta informações sobre uma possível aplicação terapêutica do CBD.
A hiperatividade simpática paroxística e os movimentos involuntários
Na hiperatividade simpática paroxística, o sistema que controla funções involuntárias do organismo entra repetidamente em estado de alerta. Com isso, os batimentos cardíacos, a pressão arterial, a temperatura corporal e o suor podem aumentar mesmo sem a presença de estímulos externos.
Essa condição pode dificultar a recuperação neurológica e prolongar a permanência do paciente na unidade de terapia intensiva (UTI). Muitas vezes, é necessário utilizar sedativos e outros medicamentos para tentar controlar as crises.
Crises começaram três semanas após a cirurgia
Após o acidente, o paciente passou por uma cirurgia. As crises começaram três semanas depois do procedimento.
Ele apresentava 4 a 6 episódios por dia, cada um com duração de 20 a 40 minutos.
Durante as crises, a frequência cardíaca chegava a 140-180 batimentos por minuto. A pressão sistólica ficava entre 180 e 200 mmHg. A temperatura chegava a 40 ºC. O paciente também apresentava suor intenso e contrações involuntárias dos quatro membros.
Tratamentos convencionais tiveram efeito limitado
Para tentar controlar as crises, a equipe médica utilizou diferentes medicamentos convencionais.
Primeiro, o paciente foi tratado com bromocriptina em conjunto com baclofeno. Depois, os médicos incluíram gabapentina, propranolol e clonidina. No entanto, a melhora foi considerada discreta.
Em seguida, foi utilizada dexmedetomidina por administração contínua pela veia, além de fentanil, um opioide potente. Embora a frequência das crises tenha diminuído, o efeito não foi suficiente para controlar o quadro.
Foi nesse contexto que a equipe médica classificou o caso como resistente aos tratamentos habituais e passou a considerar o uso do CBD.

Como foi a introdução do CBD
Embora o uso do CBD na hiperatividade simpática paroxística não tenha sido relatado anteriormente, os pesquisadores mencionaram efeitos observados em outros contextos.
Estudos pré-clínicos sobre traumatismo cerebral e epilepsia indicavam possíveis ações sobre a inflamação, a excitotoxicidade e a estabilidade autonômica.
A dose inicial foi de 100 mg de canabidiol, administrado por sonda oral duas vezes ao dia. O total correspondia a cerca de 3 mg/kg/dia para um paciente de 70 kg. Depois, a dose foi ajustada para 350 mg de CBD por dia.
De acordo com os autores, a dose inicial seguiu recomendações baseadas no peso utilizadas para o controle de crises convulsivas. O aumento ocorreu até a dose máxima permitida para o peso do paciente, segundo protocolos estabelecidos para epilepsia.
Menos crises já na primeira semana
Na primeira semana de tratamento com canabidiol, houve redução na frequência e na intensidade das crises.
Os episódios passaram de até seis por dia para menos de um episódio a cada 48 horas. Os indicadores utilizados para avaliar a PSH caíram de 28 para 16.
Também houve melhora dos sinais vitais e o fentanil foi retirado gradualmente até ser suspenso.
Ao fim da segunda semana com CBD, os episódios de hiperatividade simpática paroxística haviam desaparecido. O indicador de PSH caiu para 4, valor bem abaixo dos 28 registrados antes da introdução do canabidiol.
Nos 11 dias seguintes, os outros medicamentos utilizados para controlar a PSH foram reduzidos gradualmente até serem suspensos.
Paciente permaneceu sem sintomas após a alta
Após receber alta, o paciente continuou usando 350 mg/dia de CBD e 10 mg/dia de bromocriptina. Um mês depois, permanecia sem sintomas de PSH.
A melhora, porém, não significou recuperação neurológica completa. O estudo destaca que o paciente ainda apresentava limitações neurológicas consideráveis, com pontuação 3 na escala utilizada para avaliar o desfecho funcional após lesões cerebrais.

Como o CBD pode ter atuado no organismo
O estudo não buscou determinar como o CBD teria atuado nesse paciente, mas apresentou algumas hipóteses.
Os receptores CB1 e CB2 do sistema endocanabinoide estão presentes em áreas do cérebro ligadas ao controle de funções involuntárias do organismo. No entanto, o canabidiol também atua por meio de outros receptores.
De acordo com os autores, uma das hipóteses envolve o receptor 5-HT1A, ligado à serotonina. O CBD interage como uma substância que ativa diretamente esse receptor, presente em áreas relacionadas ao controle autonômico. A ativação desse receptor pode reduzir as respostas automáticas exageradas do corpo.
Outra hipótese envolve o canal TRPV1. Segundo os pesquisadores, o CBD pode interagir com essa via e reduzir sua sensibilidade.
O estudo também menciona possível modulação de receptores GABA-A e bloqueio da atividade do receptor GPR55. Esses mecanismos poderiam diminuir a atividade excessiva das células nervosas.
Um resultado promissor, mas ainda inicial
Como se trata do relato de um único caso, os autores defendem a realização de novos estudos para avaliar a segurança, a eficácia e a dose ideal de CBD em pacientes com hiperatividade simpática paroxística.
O canabidiol pode ter um papel complementar em casos refratários de PSH após traumatismo craniano que não respondem aos tratamentos convencionais. No entanto, essa hipótese precisa ser avaliada em estudos maiores e controlados.
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