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Relato descreve uso de CBD após lesão cerebral grave

Relato descreve uso de CBD após lesão cerebral grave

CBD foi associado à redução de crises, melhora dos sinais vitais e suspensão gradual de medicamentos em relato de caso.

Publicado em

14 de julho de 2026

• Revisado por

Jornalista e editor especializado em Comunicação e Saúde, pós-graduando em Drogas, Sociedade e Práticas Educativas. Escreve sobre ciência e sobre o uso da Cannabis na saúde humana e animal. É também fundador da Editora Vista Chinesa, onde publicou livros como “A História da Cannabis em Quadrinhos” e “Mila”.

Relato descreve uso de CBD após lesão cerebral grave hiperatividade simpática paroxística

Um relato de caso publicado no Journal of Medical Case Reports descreveu o uso de canabidiol (CBD) como terapia complementar em um paciente com uma complicação grave após traumatismo craniano: a hiperatividade simpática paroxística, conhecida pela sigla em inglês PSH.

O paciente, um homem de 44 anos, havia sofrido um acidente de trânsito com queda de motocicleta. Ele chegou ao hospital em estado grave. A tomografia mostrou hematomas no cérebro e outras lesões cerebrais graves.

Após cirurgia e internação, o paciente passou a apresentar episódios de desregulação das funções do organismo. Entre os sintomas estavam coração acelerado, pressão muito alta, febre, suor intenso e contrações musculares.

A introdução do CBD foi seguida pela redução dos episódios e estabilização dos sinais vitais.

Por se tratar de um relato de caso, não é possível afirmar que esses benefícios ocorrerão em todas as pessoas com PSH. Ainda assim, o caso acrescenta informações sobre uma possível aplicação terapêutica do CBD.

A hiperatividade simpática paroxística e os movimentos involuntários

Na hiperatividade simpática paroxística, o sistema que controla funções involuntárias do organismo entra repetidamente em estado de alerta. Com isso, os batimentos cardíacos, a pressão arterial, a temperatura corporal e o suor podem aumentar mesmo sem a presença de estímulos externos.

Essa condição pode dificultar a recuperação neurológica e prolongar a permanência do paciente na unidade de terapia intensiva (UTI). Muitas vezes, é necessário utilizar sedativos e outros medicamentos para tentar controlar as crises.

Crises começaram três semanas após a cirurgia

Após o acidente, o paciente passou por uma cirurgia. As crises começaram três semanas depois do procedimento.

Ele apresentava 4 a 6 episódios por dia, cada um com duração de 20 a 40 minutos.

Durante as crises, a frequência cardíaca chegava a 140-180 batimentos por minuto. A pressão sistólica ficava entre 180 e 200 mmHg. A temperatura chegava a 40 ºC. O paciente também apresentava suor intenso e contrações involuntárias dos quatro membros.

Tratamentos convencionais tiveram efeito limitado

Para tentar controlar as crises, a equipe médica utilizou diferentes medicamentos convencionais.

Primeiro, o paciente foi tratado com bromocriptina em conjunto com baclofeno. Depois, os médicos incluíram gabapentina, propranolol e clonidina. No entanto, a melhora foi considerada discreta.

Em seguida, foi utilizada dexmedetomidina por administração contínua pela veia, além de fentanil, um opioide potente. Embora a frequência das crises tenha diminuído, o efeito não foi suficiente para controlar o quadro.

Foi nesse contexto que a equipe médica classificou o caso como resistente aos tratamentos habituais e passou a considerar o uso do CBD.

Como foi a introdução do CBD

Embora o uso do CBD na hiperatividade simpática paroxística não tenha sido relatado anteriormente, os pesquisadores mencionaram efeitos observados em outros contextos.

Estudos pré-clínicos sobre traumatismo cerebral e epilepsia indicavam possíveis ações sobre a inflamação, a excitotoxicidade e a estabilidade autonômica.

A dose inicial foi de 100 mg de canabidiol, administrado por sonda oral duas vezes ao dia. O total correspondia a cerca de 3 mg/kg/dia para um paciente de 70 kg. Depois, a dose foi ajustada para 350 mg de CBD por dia.

De acordo com os autores, a dose inicial seguiu recomendações baseadas no peso utilizadas para o controle de crises convulsivas. O aumento ocorreu até a dose máxima permitida para o peso do paciente, segundo protocolos estabelecidos para epilepsia.

Menos crises já na primeira semana

Na primeira semana de tratamento com canabidiol, houve redução na frequência e na intensidade das crises.

Os episódios passaram de até seis por dia para menos de um episódio a cada 48 horas. Os indicadores utilizados para avaliar a PSH caíram de 28 para 16.

Também houve melhora dos sinais vitais e o fentanil foi retirado gradualmente até ser suspenso.

Ao fim da segunda semana com CBD, os episódios de hiperatividade simpática paroxística haviam desaparecido. O indicador de PSH caiu para 4, valor bem abaixo dos 28 registrados antes da introdução do canabidiol.

Nos 11 dias seguintes, os outros medicamentos utilizados para controlar a PSH foram reduzidos gradualmente até serem suspensos.

Paciente permaneceu sem sintomas após a alta

Após receber alta, o paciente continuou usando 350 mg/dia de CBD e 10 mg/dia de bromocriptina. Um mês depois, permanecia sem sintomas de PSH.

A melhora, porém, não significou recuperação neurológica completa. O estudo destaca que o paciente ainda apresentava limitações neurológicas consideráveis, com pontuação 3 na escala utilizada para avaliar o desfecho funcional após lesões cerebrais.

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Como o CBD pode ter atuado no organismo

O estudo não buscou determinar como o CBD teria atuado nesse paciente, mas apresentou algumas hipóteses.

Os receptores CB1 e CB2 do sistema endocanabinoide estão presentes em áreas do cérebro ligadas ao controle de funções involuntárias do organismo. No entanto, o canabidiol também atua por meio de outros receptores.

De acordo com os autores, uma das hipóteses envolve o receptor 5-HT1A, ligado à serotonina. O CBD interage como uma substância que ativa diretamente esse receptor, presente em áreas relacionadas ao controle autonômico. A ativação desse receptor pode reduzir as respostas automáticas exageradas do corpo.

Outra hipótese envolve o canal TRPV1. Segundo os pesquisadores, o CBD pode interagir com essa via e reduzir sua sensibilidade.

O estudo também menciona possível modulação de receptores GABA-A e bloqueio da atividade do receptor GPR55. Esses mecanismos poderiam diminuir a atividade excessiva das células nervosas.

Um resultado promissor, mas ainda inicial

Como se trata do relato de um único caso, os autores defendem a realização de novos estudos para avaliar a segurança, a eficácia e a dose ideal de CBD em pacientes com hiperatividade simpática paroxística.

O canabidiol pode ter um papel complementar em casos refratários de PSH após traumatismo craniano que não respondem aos tratamentos convencionais. No entanto, essa hipótese precisa ser avaliada em estudos maiores e controlados.

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