Uma paciente com câncer de mama triplo-negativo metastático alcançou remissão completa sustentada por cinco anos após combinar tratamento convencional com um protocolo integrativo que incluía canabidiol (CBD), melatonina em altas doses e ozonioterapia.
O caso, publicado em um relato científico, reacende o debate sobre o papel de abordagens complementares no tratamento oncológico.
Um tumor agressivo associado a condição genética
Uma mulher de 42 anos, mãe de três filhos, recebeu em 2017 o diagnóstico de um dos tipos mais agressivos de câncer de mama: o câncer de mama triplo-negativo (TNBC). Esse tumor costuma estar associado a maior risco de recorrência e metástases.
Após identificar um nódulo na mama direita, ela foi submetida a quadrantectomia para retirada do tumor. O tratamento inicial incluiu quimioterapia com epirrubicina e ciclofosfamida, seguida de paclitaxel semanal. A paciente também realizou radioterapia.
Além disso, a paciente também tinha uma mutação no gene BRCA1, que aumenta o risco de câncer de mama e ovário. Como medida preventiva adicional, realizou cirurgia para retirada dos ovários e trompas após confirmação da mutação genética.
Dois anos depois: a volta do tumor
Em 2019, exames de imagem detectaram metástases, com o tumor se espalhando pelo pulmão e em linfonodos da região central do tórax. Diante do retorno das células cancerígenas, ela iniciou nova quimioterapia, desta vez com carboplatina e gemcitabina.
No entanto, os efeitos adversos levaram à interrupção do tratamento após poucos meses. Foi nesse contexto que se iniciou uma estratégia integrativa, associada ao tratamento oncológico convencional. Sob orientação médica, a paciente iniciou um protocolo complementar com:
- • Canabidiol (CBD)
- • Melatonina em altas doses
- • Terapia com oxigênio–ozônio (O2/O3)

A introdução do CBD no tratamento
No início, a paciente recebeu CBD na dose de 200 mg/dia durante os três meses em que a paciente realizava a terapia com oxigênio–ozônio. Nos períodos de pausa da ozonioterapia, a dose aumentava para 400 mg/dia. Essa abordagem continuou ao longo do acompanhamento.
A melatonina começou em 100 mg por dia e teve aumento progressivo até atingir 2 gramas diárias. A ozonioterapia era realizada por insuflação retal, quatro vezes por semana durante três meses consecutivos. Após esse período, havia uma pausa de igual duração antes da retomada.
Importante destacar que o uso do CBD e das outras abordagens integrativas não substituiu o tratamento convencional. Pelo contrário, ele foi utilizado como estratégia complementar.
O que aconteceu durante o tratamento integrativo?
Cerca de dois meses após o início da combinação entre quimioterapia e protocolo integrativo, os nódulos pulmonares deixaram de ser detectáveis nos exames de imagem.
Os linfonodos ainda apresentavam alterações e foram tratados com radioterapia estereotáxica, técnica de alta precisão que aplica doses concentradas de radiação na área afetada.
Posteriormente, em março de 2020, a paciente iniciou o uso de olaparibe, um inibidor de PARP indicado para pacientes com mutação em BRCA1 ou BRCA2. A dose inicial foi de 600 mg por dia, mas precisou ser reduzida devido a náuseas persistentes. Mais tarde, houve também redução por queda nos glóbulos brancos. Em alguns momentos, o tratamento foi temporariamente interrompido e depois retomado. Durante todo esse período, a equipe médica manteve o CBD, a melatonina e a ozonioterapia.
Cinco anos depois: remissão sustentada
Menos de dois anos após o diagnóstico das metástases, os exames já indicavam resposta completa, sem sinais detectáveis da doença. O acompanhamento continuou com tomografias periódicas.
Cinco anos após a identificação das metástases pulmonares e mediastinais, a paciente permanece sem evidência de doença ativa. Ela segue em acompanhamento médico e mantém o uso de olaparibe associado ao protocolo integrativo.

Como o CBD pode ter contribuído?
O estudo ressalta que se trata de um único relato de caso, o que significa que não é possível afirmar com precisão que o CBD foi responsável pela remissão. Ainda assim, os autores discutem mecanismos biológicos que podem ajudar a explicar um possível papel complementar da substância.
Segundo pesquisas pré-clínicas citadas no artigo, o CBD pode:
- • Reduzir a proliferação de células tumorais
- • Induzir apoptose (morte programada das células cancerígenas)
- • Diminuir a capacidade de invasão e migração tumoral
- • Modular o microambiente tumoral
- • Atuar sobre vias importantes para o crescimento celular
- • Potencializar a ação de quimioterápicos
Além disso, o CBD tem propriedades analgésicas (redução da dor), antieméticas (controle de náuseas) e ansiolíticas (alívio da ansiedade), o que pode contribuir para melhorar a tolerância ao tratamento oncológico.
Os autores também mencionam que a combinação entre CBD, melatonina e ozonioterapia já demonstrou efeitos sinérgicos em estudos laboratoriais, sugerindo que essas abordagens podem atuar em conjunto para aumentar a sensibilidade das células tumorais aos tratamentos convencionais.
Ciência, cautela e próximos passos
Embora o desfecho clínico seja considerado notável, especialmente em um quadro metastático de câncer de mama triplo-negativo, os próprios pesquisadores reforçam que não é possível estabelecer relação de causa e efeito a partir de um único caso. A resposta observada ocorreu dentro de um contexto amplo de tratamento, que incluiu quimioterapia, radioterapia e terapia-alvo com olaparibe.
O relato, no entanto, abre espaço para novas investigações sobre o papel de estratégias integrativas como adjuvantes no tratamento do câncer.
Medicamentos à base de Cannabis no contexto oncológico
O uso de medicamentos à base de Cannabis vem ganhando força entre pessoas em tratamento oncológico, principalmente para o alívio de sintomas como dor, náusea, insônia, ansiedade e perda de apetite associados à quimioterapia.
Embora os resultados descritos neste caso sejam promissores, qualquer uso de derivados da Cannabis no contexto oncológico deve ter orientação médica e integração ao plano terapêutico convencional.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis, mediante prescrição médica. Então, se você ou alguém próximo deseja incluir canabinoides na sua rotina de cuidados, busque orientação profissional.
Na plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar consultas presenciais ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de abordagem.