Você conhece alguma pessoa que vive com obesidade? Antes de responder, pense também: você conhece alguém que utiliza Cannabis medicinal? Apesar de se tratarem de questões diferentes, ambas ainda carregam algo em comum. É o preconceito e o estigma social, que apenas a informação é capaz de vencer. No Brasil, um a cada três brasileiros vive com obesidade, segundo o World Obesity Atlas 2025, o Atlas Mundial da Obesidade. Ainda assim, a obesidade continua sendo frequentemente tratada como uma falha individual, e não como uma doença crônica multifatorial, influenciada por fatores biológicos, ambientais, emocionais e sociais.
Com a Cannabis medicinal, o cenário é semelhante. Mesmo com avanços científicos, regulamentações e relatos de benefícios terapêuticos, o tema ainda enfrenta necessidade de trabalhos como o do portal Cannabis & Saúde. Hoje o Brasil já soma mais de 873 mil pacientes de Cannabis medicinal, segundo dados do setor.
É traçando esse paralelo que o médico Dr. Carlos Schiavon, cirurgião bariátrico e presidente da ONG Obesidade Brasil, respondeu questões sobre o uso da Cannabis em pessoas com obesidade e condições associadas, e o trabalho que a ONG realiza no nosso país.
O olhar da medicina: ciência contra o estigma
O paralelo entre obesidade e Cannabis reside no fato de que ambas as áreas estão evoluindo impulsionadas pela ciência, mas ainda precisam vencer barreiras culturais e institucionais.
“Da mesma forma que combatemos o preconceito e o estigma que as pessoas com obesidade sofrem, tenho certeza de que os tratamentos com Cannabis medicinal também sofrem preconceito. E uma das formas de combatê-lo é através da comprovação científica dos benefícios e dos eventuais efeitos colaterais”, afirmou o médico.
Para o especialista, a informação baseada em evidências é uma ferramenta central na transformação do cuidado em saúde.

“Temos certeza de que tudo que se baseia em ciência de boa qualidade sempre trará benefícios para a população”, reforça Dr. Schiavon, presidente da ONG Obesidade Brasil
Essa visão se alinha ao que defendem organizações internacionais de saúde: o acesso à informação confiável melhora a adesão ao tratamento, reduz estigmas e fortalece decisões clínicas mais seguras e humanizadas.
Cannabis no cuidado de pessoas com obesidade
Nos últimos anos, a Cannabis medicinal tem sido estudada como uma ferramenta complementar no tratamento de condições frequentemente associadas à obesidade, como dor crônica, ansiedade, inflamação e distúrbios do sono. Os fatores impactam diretamente o comportamento alimentar, o metabolismo e a saúde mental. Segundo o Dr. Schiavon, muitos pacientes relatam benefícios nesses quadros.
“Entendemos que muitos pacientes têm se beneficiado do tratamento responsável com Cannabis medicinal. O tratamento da dor crônica e da ansiedade parece ser bastante eficaz”, explica.
No entanto, ele ressalta que o uso deve ser sempre orientado por profissionais de saúde e sustentado por evidências científicas.
“Por outro lado, acreditamos que ainda precisamos de mais estudos robustos para a efetiva comprovação e ampla aceitação destes tratamentos pelos médicos e pela população.”
THCV e obesidade: o que diz a ciência
Além dos efeitos amplamente conhecidos da Cannabis medicinal, a ciência tem direcionado seu olhar para compostos específicos da planta, como o fitocanabinoide THCV (Tetrahidrocanabivarina). Diferente do THC, que está associado ao aumento do apetite, o THCV apresenta um perfil farmacológico distinto e vem sendo investigado por seus potenciais efeitos no controle da fome, na redução da compulsão alimentar e na regulação do metabolismo.
Estudos indicam que o THCV atua de forma moduladora sobre o sistema endocanabinoide, especialmente nos receptores relacionados à saciedade e ao equilíbrio energético. Essa ação pode contribuir para melhorar a sensibilidade à insulina, influenciar o metabolismo da glicose e favorecer a homeostase metabólica, abrindo caminho para pesquisas no contexto da obesidade, do diabetes tipo 2 e de outros distúrbios metabólicos. E, atualmente, já existem produtos disponíveis com THCV para pacientes que querem realizar este tipo de tratamento com o devido acompanhamento médico.
O que a literatura científica evidencia sobre THCV
Supressão de apetite e regulação metabólica: estudos pré-clínicos mostram que THCV reduz o apetite, aumenta a saciedade e melhora o metabolismo energético em modelos animais — características que podem ser úteis no manejo de obesidade e diabetes tipo 2.
Melhora da homeostase glicêmica: pesquisas em animais sugerem que o THCV pode melhorar a sensibilidade à insulina e promover a captação de glicose pelos tecidos.
Estudos humanos emergentes: dados iniciais sugerem mudanças favoráveis em marcadores metabólicos quando THCV é administrado, especialmente em combinação com CBD, incluindo redução de peso corporal e melhora de lipídios sanguíneos.
Veja aqui nossa live “THCV: canabinoide com o potencial terapêutico no tratamento de emagrecimento e doenças metabólicas“
O papel da ONG Obesidade Brasil
A ONG Obesidade Brasil trabalha para informar, orientar e empoderar pessoas com obesidade, promovendo educação em saúde, divulgando centros públicos de atendimento e combatendo o preconceito dentro e fora dos serviços de saúde.
Além disso, a ONG realiza o Obesity Week, evento que reúne especialistas, pesquisadores e gestores para discutir evidências científicas, práticas clínicas e políticas públicas voltadas ao cuidado em obesidade. Segundo a organização, o evento é “o centro global onde ciência, acesso e cuidado se encontram — e onde o futuro do tratamento da obesidade é desenhado”.
No próximo dia 9 de março, a ONG realiza, em apoio ao Dia Mundial da Obesidade, o evento ‘Obesidade em Pauta’, reunindo profissionais, pacientes e interessados no tema.
Leia na íntegra a entrevista com o Dr. Carlos Schiavon, cirurgião bariátrico e presidente da ONG Obesidade Brasil:
Quais são hoje os principais desafios no combate à obesidade no Brasil, considerando fatores como acesso à saúde, alimentação e políticas públicas?
“O combate à obesidade é um grande desafio no mundo todo. No mundo moderno, a alimentação ultraprocessada, rica em gorduras e carboidratos e muito palatável substituiu a alimentação caseira rica em alimentos in natura. Associado à redução da atividade física diária, ao stress e aos distúrbios do sono, temos um ambiente perfeito para o aumento do peso da população adulta e infantil. Como principal política pública no Brasil temos o Guia Alimentar para a População Brasileira que oferece uma orientação cuidadosa para uma alimentação saudável. O grande desafio permanece na implementação e no efetivo acesso da população, principalmente de baixa renda, aos alimentos mais saudáveis. Na atenção primária o acesso à saúde focado na obesidade ainda é muito insuficiente, com tempo de espera muito longo para o atendimento especializado. Apesar do SUS oferecer a Cirurgia Bariátrica para o tratamento da obesidade grave, o acesso é muito restrito e a principal falha é não existir nenhuma medicação para tratamento da obesidade disponível gratuitamente para a população, impossibilitando o cuidado com a maioria das pessoas que sofrem com obesidade”.
Como a ONG avalia o impacto da obesidade na saúde mental e na qualidade de vida das pessoas, especialmente entre mulheres e jovens?
“Os problemas de saúde mental, como por exemplo quadros ansiosos ou de compulsão alimentar, podem levar ao ganho de peso e o excesso de peso também impacta a saúde mental das pessoas, principalmente nas mulheres que sofrem com a pressão social na busca do corpo perfeito. Jovens também são impactados, muitas vezes pelo bullying, muito comum nesta faixa etária. Outra questão sobre a saúde mental é que algumas medicações usadas para o tratamento destas situações também aumentam o apetite e, consequentemente, levando ao do aumento do peso e gerando um ciclo vicioso difícil de resolver”.
Que ações de educação e conscientização a ONG considera mais eficazes para prevenir a obesidade de forma sustentável e baseada em ciência?
“Esta é a famosa pergunta de um milhão de dólares. O mundo inteiro busca formas de estancar o aumento da obesidade. Duas coisas são fundamentais, o tratamento das pessoas que já sofrem com a doença e a prevenção para evitar o aumento do peso. Na ponta do tratamento, apesar de termos atualmente medicações muito eficazes, o acesso ao cuidado e às medicações ainda está muito distante do aceitável. Do ponto de vista da prevenção provavelmente a ação mais impactante deveria focar nas crianças e adolescentes, ofertando alimentação saudável e atividades físicas nas escolas, além de educação com campanhas de como mudar o estilo de vida de forma acessível à toda população. Importante lembrar que hoje o que vemos no Brasil é um crescimento preocupante da obesidade infantil, demonstrando que estamos muito aquém de conseguir reduzir os números da obesidade”.
O THCV vem sendo estudada por seus possíveis efeitos no controle do apetite e no metabolismo. Como a ONG enxerga o papel da ciência na avaliação dessas novas abordagens terapêuticas para a obesidade?
“Temos certeza de que tudo que se baseia em ciência de boa qualidade sempre trará benefícios para a população. O uso do THCV parece ter potencial no tratamento da síndrome metabólica e da obesidade. Acreditamos que estudos robustos ainda são necessários para efetiva comprovação dos efeitos benéficos e de eventuais efeitos colaterais”.
Qual é a posição da ONG sobre o uso responsável da cannabis medicinal como ferramenta complementar no tratamento de condições associadas à obesidade, como dor crônica, ansiedade e inflamação?
“Entendemos que muitos pacientes têm se beneficiado do tratamento responsável com cannabis medicinal. O tratamento da dor crônica e ansiedade parece ser bastante eficaz. Por outro lado, acreditamos que ainda precisamos de mais estudos robustos para a efetiva comprovação e ampla aceitação destes tratamentos pelos médicos e pela população. Da mesma forma que combatemos o preconceito e o estigma que as pessoas com obesidade sofrem, tenho certeza de que os tratamentos com cannabis medicinal também sofrem preconceito e uma das formas de combatê-lo é através da comprovação científica dos benefícios e dos eventuais efeitos colaterais”.
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Cannabis medicinal no Brasil
Atualmente, o acesso legal à Cannabis medicinal no Brasil é permitido mediante indicação e prescrição de um profissional de saúde habilitado. Caso você tenha interesse em iniciar um tratamento com canabinoides, consulte um profissional com experiência nessa abordagem terapêutica. Visite nossa plataforma com profissionais prescritores de Cannabis medicinal e agende uma consulta.
Por fim, fica a certeza que obesidade e Cannabis medicinal compartilham mais do que muitos imaginam: ambas enfrentam estigmas, desinformação e barreiras de acesso, apesar dos avanços científicos. Em um país onde milhões convivem com a obesidade e centenas de milhares já utilizam a Cannabis como terapia, o desafio vai passa pela educação, pela empatia e pela construção de políticas públicas baseadas em evidências. Como reforçou o Dr. Carlos Schiavon, combater o preconceito exige ciência, informação e respeito.














