“A Cannabis age na raiz do problema, depois regula o resto”, diz médico

Com título de especialista em homeopatia e acupuntura, Maurício Verderame nunca foi um médico tradicional. Ainda no quinto ano de faculdade, viu a realidade da prática que, em muitos casos, define como brutal e automatizada. Prometeu a si mesmo que “não ia trabalhar no McDonald’s”, e deu o exemplo de como os médicos costumam atender: “Olá, bom dia, dor de cabeça? Toma um analgésico”, diz. Ele lembra de um colega que dizia que muitos não são médicos, são “‘enfermeirões”.

Apesar de sempre ter desejado ser um médico diferente, o paulistano Verderame fez atendimento em hospitais, plantões e ambulatórios. A experiência técnica foi boa, mas achou pesado, fisicamente exigente e ficou deprimido. Buscava ter um olhar mais humano e descobriu que a boa medicina precisa de escuta. “Se não tem escuta, você está fazendo qualquer outra coisa, não medicina“.

Sua paixão pela acupuntura era tão grande que deixou a prática homeopata em 2007. “A acupuntura foi o único jeito que encontrei de fazer as pazes com a medicina”, conta sorrindo. Mais holística e integral, podia lidar com seus pacientes “como um ser humano atendendo outro ser humano”.

Verderame não usa branco nem gosta de ser chamado de doutor: “Cria uma distância desnecessária”. Diz que o médico é ensinado a não ser questionado, a se sentir no topo da cadeia, a mandar no enfermeiro e no atendente. Para ele, “É difícil [para o médico] entender que se trabalha em equipe, que precisamos aprender como atender melhor as pessoas”. Verderame parecia pronto para a Cannabis porque já tinha uma relação humana e próxima com seus pacientes.

Descoberta recente

Em maio de 2019, ao conversar com o amigo fisioterapeuta Giancarlo Pieracciani, Verderame conheceu a Cannabis medicinal. Em setembro, Pieracciani trouxe Paulo Fleury, uma referência em medicina canábica no Brasil, para fazer atendimento na clínica em que trabalhavam. Verderame pediu para acompanhar. “Nesse dia eu entendi o que era, as potencialidades do tratamento, como era na parte clínica”.

Em seguida, já pediu a Pieracciani: “Você me assiste nesse início?”. O colega disse que sim, mas com uma condição: que Verderame atendesse também no padre Ticão. Concordou, atravessou a cidade e foi a Ermelino Matarazzo no extremo leste de São Paulo. Conheceu o padre militante da Cannabis, encontrou o amigo acupunturista Remo Rotella e fez sua especialização em Cannabis com mais essas duas grandes referências no assunto. Recebeu dicas, buscou literatura, fez uma espécie de especialização na paróquia, onde ficou até janeiro deste ano.

600 casos em um ano

Enquanto ganhava experiência, Verderame recebia pacientes de Cannabis. Eram tantos que até a acupuntura ficou em segundo plano. Foram 600 em um ano, e a agenda é cheia. Recebe indicação de pacientes da associação Flor da Vida, do padre Ticão e do boca a boca. Com tanta procura, conta com terapeutas canábicos que dão o suporte aos pacientes no dia a dia.

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Fascinado, Verderame percebeu que, tratando com Cannabis, viu melhoras que não se dariam com nenhuma outra medicação. Percebeu também a potencialidade de ação e variedade de usos: epilepsia, autismo, Parkinson, Alzheimer, ansiedade, depressão, dores crônicas, fibromialgia, quase sempre com resposta muito boa. Comparando o corpo humano com o disco rígido do computador, “a Cannabis vai agir no diretório central, na raiz do problema e a partir daí, regular o resto. É o  eixo neuro-psico-imuno-endócrino”, diz.

Relatos impressionantes

Sobre os casos que atendeu nesta curta experiência com a Cannabis, Verderame conta um caso impressionante de uma paciente esquizofrênica. O filho dela tinha passado “25 mil infernos com a mãe, com episódios que foram desde ela emboscar a própria irmã para tentar matá-la a facadas até tentar estrangulá-lo com as mãos”. A paciente  ainda quis fugir de casa e tentou suicídio inúmeras vezes. Após pesquisar muito, o filho resolveu fazer óleo de maconha prensada para dar à mãe. Era uma tentativa desesperada de fazer algo que pudesse mudar o quadro. Na consulta seguinte, o filho da paciente trouxe o relato: “Doutor, nunca vi minha mãe tão bem na vida!”

De fato, todos os sintomas de esquizofrenia tinham melhorado. A paciente ficou calma, mais comunicativa, parou de agir como se visse pessoas ou ouvisse vozes, a agressividade caiu muito, mais disposta, voltou a jogar damas com ele”. Verderame até postou em seu perfil no Facebook.

Com essa história, ele emenda na questão do medo do THC: “não tem como comparar efeito de óleo e maconha fumada”. Verderame explica que a maconha fumada é inalatória e tem outra metabolização, com efeito e pico bem mais rápidos e com quantidade de THC muito mais alta. A Cannabis medicinal em óleo tem absorção mais lenta, em média de seis horas e não dá barato. “Damos desde criança pequena, com 3, 4 anos com autismo grave até para velhinho de 90”, diz.

Outra história que impressionou foi a do senhor de 90 anos que tinha Alzheimer, em um estágio já bastante avançado. Catatônico no hospital, não se alimentava sozinho, mas o médico deu alta para que ficasse seus últimos dias em casa. A filha, que o médico aconselhou que se despedisse do pai, viu que não tinha nada a perder e começou a tratar o pai com Cannabis. Era novembro de 2019. Em abril de 2020, o idoso estava andando, falando, arrumando a cama e tomando café sozinho.

A importância do acompanhamento médico

Em seu atendimento, Verderame diz que se sente um estudante de primeiro ano porque faz a consulta conforme aprendeu no começo da faculdade. Desde nome, idade, trabalho, queixa principal até um interrogatório detalhado que não dura menos de 45 minutos. “Já tentei fazer a consulta em meia hora e não consigo, quero explorar a globalidade do caso, para melhorar o que puder”.

Para isso, ele diz que precisa descobrir o que a pessoa tem, quais remédios toma, a totalidade sintomática e o estado global de saúde. Quais são seus hábitos, se tem capacidade vital, boa capacidade de reação e que substâncias usa. Como a Cannabis interage com outras substâncias, ele diz que é fundamental conhecer todos os aspectos da vida do paciente. “E eles gostam, ficam felizes por ter alguém que os ouça”, conclui.

Apesar da sua visão integral, Verderame sabe que nem sempre vai poder ajudar o paciente sozinho. “Tenho pacientes que precisam de apoio psicológico, indico nutricionista, quando atendo autista, o neurologista joga comigo, ajuda a desmamar medicação”. Neste tópico, ele lembra de um caso em que a psiquiatra agiu contra ele e o paciente: depois que ele entrou com a Cannabis e o menino melhorou muito em dez dias, ela decidiu tirar abruptamente dois medicamentos que a criança estava usando. O menino entrou num surto que foi difícil de controlar, o desmame jamais pode ser feito abruptamente. Verderame usa esse caso para mostrar que, quando se trabalha em equipe, nunca se perde.

Desmame lento

Verderame prefere não focar no desmame de remédios alopáticos logo no início dos tratamentos com Cannabis. “Acho interessante tirar a medicação devagar, na medida em que o paciente tem melhora clínica”. Ele lembra do caso de dependência de uma paciente idosa que tomou Rivotril por trinta anos. Quando começou a tomar a Cannabis, ao invés de esperar, ela resolveu parar o remédio de uma vez, e ainda parar de fumar. Verderame conta que ela ficou deprimida, com o olhar perdido e não dormia.

“Não é milagre”, conclui. “A Cannabis tem alto potencial, mas tem paciente que não responde? Sim, como qualquer medicação”. Por isso, reforça que é importante que o paciente tenha acompanhamento de alguém que entenda o que está fazendo, nunca por conta própria.

Verderame fica feliz por poder tratar pacientes que chegam desesperançados porque já tomaram de tudo e vê-los recobrando a qualidade de vida. “É emocionante e importante.”

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Érika Suzuki

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