O mês de maio é dedicado à campanha Maio Roxo, que busca ampliar a conscientização sobre as Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs), como a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. Com incidência crescente no Brasil, essas condições crônicas ainda enfrentam barreiras importantes tanto no diagnóstico quanto no manejo clínico. Por conta disso, mais recentemente, um espaço para novas abordagens terapêuticas, como a Cannabis medicinal, vai se ampliando.
Em entrevista ao Portal Cannabis & Saúde, o médico Dr. Gabriel Costa analisa os principais desafios atuais e o potencial do sistema endocanabinoide no cuidado desses pacientes.
Diagnóstico tardio e adesão ao tratamento ainda são obstáculos
Segundo o especialista, um dos principais entraves no diagnóstico precoce das DIIs é a resistência dos pacientes em realizar exames fundamentais. “O principal desafio diagnóstico a meu ver, é a resistência em fazer o principal exame investigativo, que é a colonoscopia. Particularmente os homens são extremamente resistentes e acabam aceitando fazer o exame quando estão sintomáticos há muito tempo”, explica.
Já no manejo da doença, o desafio se desloca para a continuidade do tratamento. A melhora dos sintomas frequentemente leva ao abandono da terapia, tanto medicamentosa quanto dos cuidados com alimentação, atividade física e hábitos de vida.
Sistema endocanabinoide: múltiplos mecanismos de ação
A atuação do sistema endocanabinoide no trato gastrointestinal é complexa e multifatorial, envolvendo desde a regulação funcional do intestino até a modulação direta dos processos inflamatórios e imunológicos característicos das Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs).
De acordo com o Dr. Gabriel Costa, um dos principais efeitos ocorre sobre a motilidade intestinal. Os canabinoides ajudam a estabilizar o trânsito intestinal, reduzindo oscilações comuns entre diarreia e constipação (um dos sintomas mais frequentes nesses pacientes).
Outro ponto relevante é o impacto sobre a chamada hipersensibilidade visceral. “Em quadros inflamatórios, o intestino se torna mais sensível a estímulos, o que intensifica a dor abdominal. Nesse contexto, o sistema endocanabinoide atua reduzindo essa hiperreatividade, ao mesmo tempo em que diminui o estímulo inflamatório local, contribuindo para o alívio da dor”, explica.
Além do controle sintomático, há uma ação direta sobre a inflamação intestinal. “A modulação de receptores como o CB2 está associada à redução do processo inflamatório, do estresse oxidativo e do dano tecidual, favorecendo não apenas a melhora clínica, mas também a reparação da mucosa intestinal.”
Sistema Imunológico
O impacto, no entanto, não se limita ao tecido intestinal. Como as DIIs envolvem um componente autoimune, o sistema endocanabinoide também exerce papel na regulação do sistema imunológico como um todo. Esse equilíbrio pode contribuir para a prevenção de novas crises e para um controle mais duradouro da doença.
Na prática, isso significa que os canabinoides não atuam apenas como agentes paliativos, mas podem interferir em diferentes etapas da fisiopatologia das DIIs — desde os sintomas até os mecanismos que sustentam a inflamação crônica.
Cannabis medicinal: entre prática clínica e diretrizes
Apesar da ausência de recomendações formais nos guidelines atuais da gastroenterologia, Dr. Gabriel afirma que, na prática clínica, a Cannabis medicinal já deixou de ser uma abordagem experimental.
“Do ponto de vista prático, definitivamente é uma alternativa em uma grande variedade de casos”, afirma. Ainda assim, ele ressalta que a prescrição costuma ocorrer como terapia adjuvante, especialmente em pacientes que não respondem adequadamente a tratamentos convencionais, como imunobiológicos.
Quando indicar e o que esperar do tratamento
Na experiência do médico, a Cannabis medicinal é mais indicada para pacientes com sintomas persistentes, mesmo após terapias tradicionais. “Entre os benefícios observados, podemos destacar a redução da dor abdominal (geralmente o primeiro sintoma a melhorar), regulação do hábito intestinal e melhora global da qualidade de vida.” Em alguns casos, há até redução da necessidade de medicamentos mais agressivos, como corticoides.
Mas, alerta: “Na minha experiência entra como um adjuvante para quando paciente já fez uso de pelo menos um imunobiológico, utiliza sintomáticos e mesmo assim persiste com os sintomas. Esse é o caso perfeito para introdução da Cannabis medicinal, uma vez que ela vai atuar como sintomático e potencialmente atuar diretamente no mecanismo da doença”, explica.
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Segurança, acompanhamento e limitações
“Apesar de ser uma alternativa promissora, o uso de Cannabis medicinal exige acompanhamento médico rigoroso. Os efeitos colaterais podem incluir boca seca, sonolência, tontura e, em alguns casos, ansiedade (especialmente relacionados ao THC)”, alerta.
“Por mais que a Cannabis medicinal seja um tratamento natural, não quer dizer que é isento de efeitos colaterais, e quando o paciente não faz o acompanhamento adequado com o médico prescritor a chance de sugerem mais efeitos colaterais do que benéficos aumentam drasticamente”
Outro ponto de atenção é o risco de o paciente interromper tratamentos convencionais ao perceber melhora dos sintomas, o que pode comprometer o controle da doença a longo prazo. “É fundamental o acompanhamento com o gastroenterologista para monitorar a progressão da doença”, completa Dr Gabriel.
Casos clínicos e resultados observados
Embora muitos pacientes procurem o consultório por outras condições, como dor crônica ou ansiedade, o médico observa melhora significativa também nas DIIs associadas.
“Tenho muitos pacientes que vem se consultar para tratar dor crônica, fibromialgia ou ansiedade e uma grande parte tem alguma DII, e absolutamente todos tem excelente resposta, melhoram significativamente da qualidade de vida. Com a estabilização da doença, terminam não utilizando imunobiológicos ou corticoides. O meu caso de referência
no tratamento de Doença de Crohn foi de uma paciente que já passou por toda a linha de tratamento possivel sem resposta satisfatória, e devido a frustração acabou abandonando o tratamento tradicional. Consegui convence-la a utilizar o óleo, rapidamente teve remissão”, conta.
Apesar dos resultados promissores, o avanço da Cannabis medicinal no Brasil ainda enfrenta barreiras importantes, como o preconceito entre profissionais de saúde, a falta de formação específica e a escassez de diretrizes clínicas. “O preconceito dos profissionais, a demonização do THC e a baixa quantidade de médicos prescritores seguros me parecem os principais desafios”, conclui.
Importante!
Como destaca o Dr. Gabriel Costa, a medicina endocanabinoide pode ampliar as possibilidades terapêuticas nas doenças inflamatórias intestinais, especialmente em casos mais desafiadores. Porém, uma avaliação médica atenta é fundamental para orientar o tratamento de forma segura e individualizada — incluindo, quando indicado, o uso de Cannabis medicinal.