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Hanseníase no Brasil: diagnóstico, estigma e novos caminhos terapêuticos

Hanseníase no Brasil: diagnóstico, estigma e novos caminhos terapêuticos

Conversamos com o Presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, o médico Marco Andrey Cipriani Frade que analisa os entraves atuais da doença no país e aponta a necessidade de inovação científica, formação médica e um debate responsável sobre Cannabis medicinal respeitando seu potencial no manejo da dor neuropática associada à doença.

Publicado em

7 de janeiro de 2026

• Revisado por

Fala, escreve e pesquisa sobre Cannabis, saúde e bem-estar. Mestre em Comunicação e Cultura, com passagem pela Unesco, já produziu milhares de histórias e conversas que mostram como a Cannabis transforma vidas. Mãe de dois, acredita em um mundo onde conhecimento e consciência caminham junto da planta.

hanseniase

Além de branco, o mês de janeiro também ganhou a cor roxa para destacar a importância da conscientização sobre a Hanseníase. Trata-se do Janeiro Roxo,  campanha de conscientização dedicada à Hanseníase, também conhecida como lepra, uma doença infecciosa que, apesar de sua história de estigmatização, tem tratamento eficaz e cura. Este mês busca romper o silêncio em torno da doença infecciosa crônica, curável, mas ainda em pleno 2026 é associada ao atraso diagnóstico, sequelas incapacitantes e discriminação social. Conversamos com o presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, o médico Marco Andrey Cipriani Frade.

O profissional fez um alerta contundente para o Brasil: a doença permanece negligenciada, com falhas no diagnóstico precoce, tratamento estagnado e sofrimento neurológico prolongado. O cenário que reforça a urgência de mais ciência, formação médica e debate responsável sobre novas terapias, como a Cannabis medicinal.

Cannnabis medicinal e Hanseníase

Segundo o médico, para a SBH, o avanço das pesquisas com canabinoides representa uma oportunidade concreta de inovação terapêutica, especialmente no manejo da dor neuropática. Segundo o presidente da entidade, trata-se de um campo com grande potencial, que ainda precisa ser melhor explorado no Brasil por meio de políticas públicas e incentivo à produção científica.

“É um campo bastante promissor, e a SBH busca estimular órgãos ministeriais e de fomento para que incentivem estudos que nos tragam mais evidências de eficácia e segurança para o seu uso.”

A entidade também deixa claro que há abertura institucional para o desenvolvimento de pesquisas futuras que envolvam hanseníase e Cannabis medicinal. Na avaliação de Dr. Frade, o atraso científico nessa área reflete a negligência histórica com a doença e suas complicações.

“Já estamos atrasados, ao meu ver, pois precisamos avançar em hanseníase em vários aspectos, como diagnóstico precoce, diagnóstico diferencial das neuropatias e também na condução da dor neuropática, que sempre pode acompanhar os pacientes com hanseníase, e na qual o derivado da Cannabis poderá ter um papel inovador e confortante para os pacientes.”

Diagnóstico precoce ainda é exceção

Além disso, Dr. Frade observa que a principal falha no enfrentamento da hanseníase está na forma como a doença continua sendo reconhecida na prática clínica. “O cenário da hanseníase é bastante sombrio tanto no Brasil, quanto no mundo, pois não há nada se movimentando para buscarmos o diagnóstico precoce. Estamos buscando e ensinando a reconhecer a doença essencialmente dermatológica o que é uma ideia do passado. Hoje a doença se faz muito mais presente pelos sintomas neurológicos como dormências, formigamentos, câimbras e dores nos nervos que perduram por anos e não são reconhecidos como hanseníase, pois também todos os exames são negativos nesta fase e a clinica é negligenciada”, pontua.

O profissional explica que durante o Janeiro Roxo, a SBH reforça que a hanseníase deve ser entendida como uma doença primariamente neural, e que a valorização excessiva de exames, muitas vezes negativos nas fases iniciais, contribui para o atraso no diagnóstico e para o surgimento de sequelas que podem ser irreversíveis.

Tratamento permanece o mesmo há décadas

Outro ponto crítico destacado pelo presidente da SBH é a limitação terapêutica disponível no sistema público de saúde. “Quanto ao tratamento, temos apenas um esquema há mais de quarenta anos e temos problemas com pacientes que não respondem ao tratamento com PQT distribuída pela OMS. Hoje temos esquema novo e mais bactericida como o RIMOXCLAMIN que traz declínio importante da carga bacteriana e principalmente na melhora dos sintomas e sinais da hanseníase já no terceiro mês de tratamento. Infelizmente ainda não o temos disponível na rede de saúde publica.”

A ausência de esquemas mais modernos no SUS compromete a resposta clínica de pacientes refratários e mantém um ciclo de adoecimento prolongado.

Estigma ainda marca vidas

Mesmo com campanhas de conscientização, a discriminação segue presente no cotidiano de quem recebe o diagnóstico.

“Sobre o estigma, há poucas denúncias porque a população atingida pela doença não sabe sobre os canais para denunciar situações discriminatórias pela doença. No dia a dia há muitos relatos de pacientes que perderam empregos, foram afastados, assim como alunos, crianças que a escola o afastou das suas atividades devido ao diagnóstico. A comunidade precisa saber sobre o que é hanseníase. Pois só o conceito destrói o preconceito!”

Os desafios do manejo clínico

Na avaliação de Dr. Frade, os profissionais de saúde lidam hoje com entraves estruturais importantes que comprometem o cuidado adequado às pessoas com hanseníase. Segundo ele, um dos principais desafios é a falta de exames complementares disponíveis na rede de saúde que ajudem a corroborar o diagnóstico, como o ultrassom de nervos e testes laboratoriais mais específicos, a exemplo do PCR.

Por fim, ele chama atenção para a fragilização do ensino da hanseníase na formação médica. A doença tem sido cada vez menos abordada nas escolas, alimentada pela falsa percepção de que estaria em processo de eliminação. Esse cenário, somado à escassa divulgação do tema pela mídia, contribui para o apagamento da hanseníase do debate público e para o desconhecimento da sociedade sobre uma doença que ainda segue ativa no país.

Educação médica e comunicação com a sociedade

O médico destaca que a SBH atua de forma contínua para manter a hanseníase no debate público, com atenção especial às ações de conscientização intensificadas durante o Janeiro Roxo. Segundo o presidente, a comunicação com a sociedade é um dos pilares dessa estratégia.

“A SBH é uma das únicas sociedades médicas que tem uma campanha de comunicação com a sociedade civil, falando continuamente com a sociedade sobre sinais e sintomas, por um período tão longo quanto a campanha #todoscontraahanseniase, que completou dez anos em 2025. Com material educativo, levamos informações à comunidade por meio do Profi, o mascote da campanha.”

Além da comunicação direta com a população, a SBH também investe na qualificação dos profissionais de saúde, especialmente daqueles que atuam na atenção primária, etapa fundamental para o diagnóstico precoce da doença.

“A SBH se preocupa em capacitar médicos da atenção primária em saúde quanto ao diagnóstico da hanseníase, mas também leva formação aos médicos que desejam se especializar em hansenologia, como o Curso de Especialização em Hansenologia, que executamos desde 2022 no Estado de Mato Grosso, titulando mais de 50 especialistas e que mudaram a realidade epidemiológica do Estado.”

A entidade também atua na construção de consensos clínicos, em articulação com outras sociedades médicas.

Dor neuropática: sofrimento persistente e poucos avanços

As complicações neurológicas continuam sendo uma das principais causas de incapacidade associadas à hanseníase, com impacto direto na qualidade de vida dos pacientes. Para Dr. Frade, os avanços científicos nessa área ainda são insuficientes.

“Quanto à dor neuropática, não temos disponíveis facilmente medicamentos como duloxetina, pregabalina, entre outros, associados ao tratamento da hanseníase.”

Quando o tema é reabilitação e sequelas funcionais, o cenário é ainda mais crítico.

“Em relação às sequelas e à reabilitação, menos ainda se tem investido. É um campo em que a hanseníase não acompanha a ampliação da assistência na rede de reabilitação do país. Com a precarização dos serviços secundários e terciários de referência em hanseníase, pouco se tem avançado nesse tema, infelizmente.”

Para o presidente da SBH, a estratégia mais eficaz segue sendo a identificação precoce da doença. “Por isso, a SBH luta incansavelmente pelo reconhecimento precoce do diagnóstico, única forma de se evitar as sequelas e, consequentemente, evitar aquilo que mais estigmatiza as pessoas afetadas pela hanseníase.”

Cannabis medicinal e hanseníase

Ao abordar a Cannabis medicinal, Dr. Frade reconhece o potencial terapêutico dos fitocanabinoides no manejo da dor neuropática, mas faz um alerta importante sobre o uso indiscriminado, sem diagnóstico definido.

“Sim, certamente há espaço para o uso medicinal da Cannabis na dor neuropática sequelar da hanseníase. No entanto, aqui cabe um alerta quanto ao uso do fitocanabinoide na neuropatia hansênica sem o diagnóstico definido, o que pode ‘queimar’ o produto, pois, sem o tratamento específico da doença com antibióticos, a neuropatia quase nunca responde clinicamente.”

Ele reforça que a hanseníase deve sempre ser considerada no diagnóstico diferencial das neuropatias.

“Por isso, temos que ficar atentos ao diagnóstico de neuropatia sem a sua respectiva definição etiológica, de sua real causa, lembrando sempre que a hanseníase é uma doença primária e essencialmente neural.”

Neste Janeiro Roxo, a mensagem da SBH é direta e urgente: sem diagnóstico precoce, investimento contínuo em ciência e enfrentamento da desinformação, a hanseníase seguirá sendo uma doença amplamente conhecida do ponto de vista histórico, mas ainda invisibilizada na prática clínica, nas políticas públicas e no debate social.

O que diz a ciência?

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA demonstrou benefício moderado dos canabinoides no tratamento da dor neuropática em adultos. Outro levantamento, conduzido pela Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ), aponta que medicamentos à base de Cannabis podem reduzir a intensidade da dor e melhorar a qualidade de vida em pacientes com dor crônica refratária.

Já uma revisão publicada na Frontiers in Neurology reforça o potencial dos canabinoides em neuropatias inflamatórias e compressivas, mecanismos também presentes na hanseníase.

Neste sentido, Dr. Frade explica que a SBH acompanha esse debate com cautela, mas também com expectativa de avanços.

“Vemos com bons olhos e ficamos animados, pois muitos pacientes sofrem com dores intermináveis, e a sua melhora é o que buscamos.”

Cannabis pode ajudar pacientes com Hanseníase?

Os produtos à base de Cannabis, especialmente aqueles ricos em Canabidiol (CBD), têm propriedades anti-inflamatórias e analgésicas que podem ser muito benéficas para pacientes com a condição.

Cannabis para a dor que a Hanseníase pode causar

Os tratamentos com fitocanabinoides podem ser particularmente importantes para aqueles que sofrem de dor neuropática causada pelo comprometimento dos nervos que a doença causa. Além disso, o uso oral de óleos e o uso tópico de CBD podem ajudar a melhorar o bem-estar geral, reduzindo a ansiedade e promovendo o relaxamento.

Como é o caso de Vanessa Raquel Wagner, de 35 anos, que conseguiu controlar as dores crônicas provocadas pela hanseníase com o canabidiol. “Melhora de 80%”.

hanseníase

Paciente usa a Cannabis para tratar sequelas da hanseníase

Como pessoas com Hanseníase podem acessar tratamentos com Cannabis

Atualmente, a Cannabis medicinal pode ser prescrita por médicos e dentistas. É crucial que os pacientes estejam sob acompanhamento médico contínuo para garantir que eles estejam recebendo um tratamento seguro e eficaz.

Se você deseja incluir medicamentos com Cannabis como complemento ao tratamento de alguma condição de saúde, o primeiro passo é buscar orientação profissional. Essa etapa é fundamental, pois um médico pode recomendar o melhor produto e a dose mais adequada para o seu caso.

Portanto, para se consultar com um profissional da saúde experiente nesse tipo de prescrição, acesse a nossa plataforma de agendamento. Aqui, você encontra médicos de diversas especialidades preparados para avaliar o seu caso e recomendar o melhor caminho. Acesse já e marque sua consulta!

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