A interação medicamentosa é uma preocupação constante para médicos e pacientes, pois quando dois ou mais medicamentos são usados ao mesmo tempo, eles podem interferir entre si, alterando os efeitos terapêuticos ou aumentando o risco de efeitos adversos.
Grande parte dessas interações ocorre no fígado, órgão responsável por metabolizar a maioria dos medicamentos que circulam no organismo. Quando duas substâncias utilizam as mesmas “rotas metabólicas”, elas podem competir entre si, fazendo com que uma delas permaneça mais tempo no corpo ou atinja níveis mais altos no sangue.
Esse cuidado se torna ainda mais importante nos tratamentos com medicamentos à base de Cannabis de uso oral, cada vez mais prescritos para ansiedade, dor, depressão, insônia e outros sintomas. Um estudo clínico, publicado na revista científica Clinical Pharmacology & Therapeutics, avaliou a interação entre o canabidiol (CBD) e o citalopram, um dos antidepressivos mais prescritos no mundo.
Por que estudar a interação entre CBD e citalopram
O citalopram é um antidepressivo da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS). Ele é amplamente utilizado no tratamento da depressão, de transtornos de ansiedade, do transtorno do pânico e, em alguns casos, de sintomas associados ao estresse crônico.
Seu efeito ocorre principalmente por aumentar a disponibilidade de serotonina no cérebro, neurotransmissor relacionado ao bem-estar e à regulação do humor.
O CBD, por sua vez, é um dos compostos mais estudados da planta Cannabis e já é utilizado em diferentes contextos terapêuticos. Estudos anteriores indicam que o canabidiol pode aliviar sintomas de pessoas com depressão, especialmente as que não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais.
Atualmente, os medicamentos à base de CBD no formato de óleo são os mais populares. Análises farmacológicas sugerem que esses produtos podem inibir enzimas do fígado responsáveis pela metabolização de diversos fármacos.
Essa característica levantou a hipótese de que o uso concomitante de CBD e citalopram poderia alterar a concentração do antidepressivo no organismo, aumentando o risco de efeitos adversos. Até recentemente, porém, havia poucos dados clínicos robustos sobre essa interação.
Como o estudo foi conduzido
O estudo foi conduzido com 40 adultos saudáveis, divididos em dois grupos. Tratava-se de um estudo aberto e sequencial, no qual os participantes sabiam quais substâncias estavam utilizando e as etapas ocorreram em sequência.
Esse desenho permitiu a comparação direta entre:
- • O uso isolado do citalopram;
- • O uso do antidepressivo em combinação com o CBD.
No grupo do citalopram, os participantes receberam uma dose única de 20 mg em dois momentos diferentes.
- • Primeiro, sem o uso de CBD;
- • Depois, após 12 dias de uso contínuo de CBD, em dose de 2,5 mg/kg, duas vezes ao dia.
Durante todo o processo, os pesquisadores coletaram amostras de sangue em diferentes intervalos de tempo. O objetivo era medir quanto citalopram permanecia no organismo e por quanto tempo, utilizando parâmetros farmacológicos como a AUC (área sob a curva), que indica a exposição total ao medicamento, e a Cmax, que representa a concentração máxima atingida no sangue.

O que acontece quando citalopram e CBD são combinados
Os resultados mostraram que o CBD aumentou de forma significativa os níveis de citalopram no organismo. Após o período de uso do canabidiol, a exposição total ao antidepressivo aumentou cerca de 43%, enquanto a concentração máxima no sangue cresceu aproximadamente 12%.
Isso significa que o citalopram permaneceu mais tempo e em maior quantidade no corpo quando administrado junto com o CBD. De acordo com os autores, esse efeito é semelhante ao observado quando o antidepressivo é usado com medicamentos que inibem a enzima CYP2C19, uma das principais responsáveis por seu metabolismo no fígado.
Embora o estudo tenha sido realizado com adultos saudáveis, os autores alertam que esse aumento nos níveis de citalopram pode ter implicações clínicas relevantes, especialmente em pacientes que já utilizam doses elevadas ou que são mais sensíveis a efeitos adversos, como náusea, sonolência e desconforto gastrointestinal.
A importância do diálogo entre médico e paciente
De acordo com estudos anteriores e com a bula do medicamento, os efeitos colaterais do citalopram tendem a ser dose-dependentes. Ou seja, quanto maior a concentração no organismo, maior a chance de eventos indesejados.
Em alguns casos, esses efeitos podem levar à interrupção do tratamento, comprometendo os resultados terapêuticos. Além disso, a combinação de CBD e citalopram pode fazer com que o profissional de saúde interprete os efeitos adversos como falha no tratamento, quando, na verdade, eles podem estar relacionados a uma interação medicamentosa.
Os resultados do estudo reforçam a importância de um diálogo aberto entre médicos e pacientes sobre todos os tratamentos em andamento, incluindo o uso de produtos à base de Cannabis. A interação entre CBD e citalopram mostra como essas combinações exigem atenção, monitoramento e, em alguns casos, ajustes de dose.
Como iniciar uso seguro de medicamentos à base de Cannabis
No Brasil, o uso de medicamentos à base de Cannabis de uso oral exige prescrição médica, de acordo com as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A orientação profissional é essencial para garantir segurança, eficácia e o melhor resultado terapêutico possível.
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