Um estudo publicado no Journal of Avian Medicine and Surgery mostrou que administrar um óleo à base de Cannabis junto com alimento prolonga o tempo de permanência do canabidiol (CBD) no organismo de uma espécie de papagaio.
Embora a pesquisa não tenha avaliado diretamente a eficácia clínica da Cannabis no tratamento de doenças em aves, os resultados representam um avanço importante para a medicina veterinária. Isso porque trazem informações sobre como o organismo dessa espécie absorve, distribui, processa e elimina os canabinoides.
De acordo com os autores, esses dados ajudam a construir a base científica para futuros estudos sobre o uso medicinal da Cannabis em aves.
Por que estudar os efeitos da Cannabis em aves
De acordo com os autores do estudo, o tratamento da dor em aves ainda representa um desafio na veterinária. Essas espécies apresentam diferenças importantes em relação aos mamíferos na resposta aos analgésicos convencionais, o que limita as opções terapêuticas disponíveis.
Nesse contexto, os fitocanabinoides despertam interesse porque estudos realizados em outras espécies já demonstraram propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, anticonvulsivantes, ansiolíticas e antieméticas.
Apesar desse potencial, ainda existem poucas informações sobre como esses compostos se comportam no organismo das aves. Por isso, estudos sobre o funcionamento dos compostos no organismo são fundamentais antes da realização de pesquisas clínicas.
As aves também possuem sistema endocanabinoide
O estudo destaca que o sistema endocanabinoide é altamente preservado ao longo da evolução entre os vertebrados, inclusive as aves.
Isso significa que elas também possuem receptores capazes de interagir com compostos da Cannabis, como o CBD e o ácido canabidiólico (CBDA).
Além dos receptores canabinoides, esses compostos também atuam em outras mecanismos do organismo, incluindo receptores serotoninérgicos, dopaminérgicos e canais de cálcio.
Essa atuação por diferentes mecanismos é um dos fatores que torna os canabinoides tão promissores para a medicina veterinária.
Como a pesquisa foi conduzida
A pesquisa incluiu 12 papagaios-hispaniolanos saudáveis (Amazona ventralis), espécie encontrada no Haiti, na República Dominicana e em Porto Rico.
Os animais foram divididos em dois grupos.
O primeiro recebeu um óleo à base de Cannabis por via oral, administrado diretamente no papo (crop), com o auxílio de uma seringa. Em seguida, recebeu uma dieta pastosa.
O segundo grupo recebeu exatamente o mesmo óleo, mas sem a pasta alimentar.
O óleo utilizado continha CBD, CBDA e ∆9-tetrahidrocanabinol, nas seguintes doses:
- • CBD: 28 mg/kg;
- • CBDA: 113 mg/kg;
- • THC: 2,7 mg/kg.
Após a administração, os pesquisadores coletaram amostras de sangue durante 12 horas para acompanhar a concentração dos canabinoides. Eles analisaram indicadores como concentração máxima, tempo até atingir o pico de concentração e meia-vida.

Alimento prolongou a permanência do CBD no organismo
Os resultados mostraram que o alimento modificou a velocidade com que o CBD foi absorvido pelas aves.
Nas aves que receberam a dieta pastosa, o composto demorou mais para atingir sua concentração máxima no sangue. Além disso, permaneceu circulando por mais tempo no organismo. A meia-vida do CBD aumentou de 4,34 horas no grupo sem alimento para 7,17 horas no grupo alimentado.
De acordo com os pesquisadores, esse comportamento sugere que a alimentação pastosa pode funcionar como um sistema de liberação prolongada, retardando a absorção do composto sem aumentar a quantidade absorvida pelo organismo.
Além disso, nenhuma das aves apresentou efeitos adversos ou regurgitação após a administração do óleo.
O que os resultados significam para a medicina veterinária
Os resultados do estudo não demonstram que a Cannabis seja capaz de tratar doenças em aves. Para os autores, compreender como o organismo dessas espécies processa os canabinoides é um passo essencial para o desenvolvimento de terapias seguras.
Os pesquisadores defendem que futuros estudos investiguem diferentes formulações de Cannabis para aves, incluindo veículos oleosos, produtos hidrossolúveis e administração pelas mucosas.
Também será necessário analisar tratamentos de longo prazo para compreender melhor seus possíveis benefícios terapêuticos.
O uso de derivados da Cannabis na medicina veterinária
No Brasil, a Anvisa autoriza que médicos veterinários prescrevam medicamentos à base de Cannabis para seus pacientes.
Para entender melhor a regulamentação e as possibilidades dos derivados da planta na saúde animal, o e-book Cannabis na Medicina Veterinária oferece informações atualizadas.
Já os profissionais que desejam incorporar os compostos da Cannabis à prática clínica podem buscar capacitação na área. Para isso, a Vigo Academy oferece o Curso de Prescrição de Cannabis medicinal para veterinários.