No dia 14 de novembro, o mundo marca o Dia Mundial do Diabetes, data que chama atenção para uma condição crônica que cresce de forma acelerada no Brasil. O novo Atlas do Diabetes 2025, da Federação Internacional de Diabetes (IDF), revela que 589 milhões de pessoas entre 20 e 79 anos vivem com diabetes no mundo, enquanto o Brasil soma 16,6 milhões de casos, ocupando o 6º lugar global. A tendência é de avanço: desde 2021, o país registrou um aumento de 5,7% no número de diagnósticos.
Diante desse crescimento, cresce também a necessidade de ampliar acesso, tecnologia e diagnóstico precoce. E os desafios, segundo a epidemiologista Dra. Karla Melo, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), são muitos. A profissional destaca a falta de medicamentos para condições precursoras, especialmente no sistema público:
“Hoje nós não temos, por exemplo, um tratamento medicamentoso para pré-diabetes e para obesidade, e isso é uma necessidade em nosso país, que já conta com números impressionantes de sobrepeso, obesidade e de pessoas com pré-diabetes.”
Dra. Karla chama atenção também para a ausência de dados estruturados que permitam acompanhar corretamente o avanço da doença: “A gente não tem estabelecido o número de pessoas que têm diabetes tipo 1, tipo 2, o que usam e onde residem.” Segundo ela, sem diagnóstico consolidado, o país se torna incapaz de planejar políticas consistentes.
Para enfrentar a situação, a especialista defende a centralidade da atenção primária e a presença de equipes completas: “A atenção primária deve ser a referência para o cuidado das doenças crônicas. Precisamos disponibilizar nutricionistas, professores de educação física, farmacêuticos. Isso é extremamente necessário.”
Apesar disso, Dra. Karla alerta que diretrizes nacionais nem sempre são aplicadas: “Está escrito no protocolo clínico, mas isso não quer dizer que será implementado em todos os municípios.” O impacto dessa lacuna aparece em casos graves: “Perdemos ainda crianças por falta de diagnóstico de diabetes tipo 1. Quanto mais precoce é feito o diagnóstico e inicia-se o tratamento, melhores são os desfechos.”
Mas como a Cannabis pode ser uma aliada na hora de tratar a diabetes?
Para o Dr. Gabriel Machado Campos, a atuação da Cannabis medicinal no contexto do diabetes não é abstrata: ela se apoia em efeitos fisiológicos específicos dos fitocanabinoides, especialmente THCV e CBD, que podem auxiliar tanto no controle metabólico quanto na qualidade de vida de pessoas com a doença.
Segundo ele, muitos pacientes diabéticos apresentam desequilíbrios no sistema endocanabinoide, e é justamente nesse ponto que a Cannabis pode exercer um papel relevante.
“Quando o sistema endocanabinoide do paciente está desequilibrado, o uso de fitocanabinoides como o THCV e o CBD, Canabidiol, podem ajudar”, explica.
O médico detalha que o THCV atua diretamente na regulação da fome e da ingestão alimentar, dois fatores centrais no manejo do diabetes tipo 2.
“O THCV auxilia no controle da glicose e regula o controle alimentar, o apetite, tanto a ingesta com a grande quantidade de calorias, ajudando o paciente a ter um melhor controle da fome. Consequentemente, há uma redução dos níveis de glicose e de insulina, principalmente”, afirma.
Já o CBD entra em outra frente igualmente relevante: o comportamento alimentar mediado pela ansiedade. De acordo com o especialista, muitos pacientes recorrem à comida como resposta ao estresse.
“O CBD, que é o outro fitocanabinoide, tem ação anti-inflamatória e ansiolítica, uma vez que o paciente muitas vezes se alimenta de forma exagerada pelo processo de ansiedade, compulsão alimentar”.
Portanto, ao combinar essas duas moléculas pode sim existir uma janela terapêutica possível, ainda em investigação pela ciência. Mas que já tem mostrado resultados práticos.
O que diz a ciência sobre Cannabis no tratamento da diabetes
Portanto, cresce o interesse científico sobre o papel dos fitocanabinoides da Cannabis sativa L. no metabolismo. Um ensaio clínico publicado no Diabetes Care avaliou THCV em 62 pessoas com diabetes tipo 2 e encontrou melhora da glicemia de jejum e da função das células beta pancreáticas.
Segundo o Dr. Gabriel, que atua com modulação metabólica e Cannabis medicinal, é preciso olhar esses dados com cuidado. Ele ressalta que os estudos ainda são limitados e nem sempre refletem a complexidade humana: “O sistema endocanabinoide é mais complexo.” Ainda assim, o médico descreve os mecanismos pelos quais o THCV poderia atuar: “Há uma maior sensibilização dos receptores com o THCV e redução da ingestão alimentar. Consequentemente, há um controle da glicose melhor.”
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O médico reforça que, na prática, combinações fazem mais sentido do que substâncias isoladas
“O CBD junto com o THCV ajudam muito mais na perda de peso e no controle da glicose e da insulina do que apenas o THCV isolado”.
Igualmente, Dr. Gabriel observa que pacientes com diabetes frequentemente apresentam desequilíbrios metabólicos adicionais e isso influencia diretamente os resultados: “Se o paciente tiver deficiências de minerais importantes para o controle glicêmico, hipotiroidismo ou desequilíbrios hormonais, o controle é mais difícil somente com o fitocanabinoide THCV.”
Por isso, ele defende uma abordagem ampliada: “O THCV vem como mais uma ferramenta auxiliar, mas precisa estar alinhado a mudanças na alimentação, atividade física, sono, controle de estresse e equilíbrio hormonal e nutricional.”
Outro ponto crucial, segundo o médico, é que os estudos ainda não separam corretamente intervenções isoladas de abordagens integrativas: “As pesquisas precisam diferenciar grupos que usaram THCV isolado e grupos que fizeram mudanças de estilo de vida em conjunto. Na prática, eu utilizo associado a toda essa abordagem e aí potencializa os efeitos.” Na visão do profissional, o elo entre Cannabis e diabetes realmente está no Sistema Endocanabinoide.
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Cannabis e diabetes
A discussão sobre as moléculas da planta no tratamento da diabetes, portanto, aponta para possibilidades complementares, e não substitutivas. Os dados iniciais sugerem efeitos em áreas relevantes como apetite, compulsão, inflamação e sensibilidade à insulina. Mas a ciência ainda é limitada e precisa avançar em ensaios clínicos maiores. Enquanto isso, especialistas como a Dra. Karla Melo alertam que o pilar central do controle da doença passa pelo acesso a tratamentos validados, rastreamento precoce e políticas públicas robustas. Já o Dr. Gabriel reforça que a Cannabis pode ser uma ferramenta útil dentro de uma estratégia multidisciplinar, desde que acompanhada de mudanças de estilo de vida e avaliação médica individualizada.
𝗜𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲: O acesso legal à Cannabis medicinal no Brasil é permitido mediante indicação e prescrição de um profissional de saúde habilitado. Caso você tenha interesse em iniciar um tratamento com canabinoides, consulte um profissional com experiência nessa abordagem terapêutica.

















