O uso de medicamentos à base de Cannabis já está consolidado como uma alternativa complementar para pessoas em tratamento oncológico. Em diferentes contextos clínicos, os compostos da planta têm sido utilizados para aliviar efeitos colaterais como náuseas, vômitos, dor e perda de apetite. Paralelamente, pesquisadores seguem investigando como os canabinoides podem contribuir no controle de outros sintomas associados ao câncer e às terapias antitumorais.
Um estudo clínico avaliou o uso de pomadas tópicas com canabidiol (CBD) e ∆9-tetrahidrocanabinol (THC) no tratamento de um efeito colateral comum da terapia hormonal para câncer de mama: a síndrome musculoesquelética associada ao uso de inibidores de aromatase.
Quando o tratamento causa dor: o papel dos inibidores de aromatase
Os inibidores de aromatase são medicamentos prescritos para pessoas na pós-menopausa com câncer de mama hormônio-positivo. Eles reduzem os níveis de estrogênio no organismo, ajudando a diminuir o risco de recorrência do tumor.
No entanto, essa redução hormonal pode desencadear efeitos adversos relevantes. Grande parte das pacientes que utilizam esses medicamentos desenvolve dores articulares, rigidez e desconforto. Esse conjunto de sintomas é chamado de síndrome musculoesquelética associada aos inibidores de aromatase (AIMSS, na sigla em inglês) e costuma afetar principalmente mãos e punhos.
Essas dores podem prejudicar tarefas simples do dia a dia, desde segurar objetos a digitar. Em alguns casos, o desconforto pode se tornar tão intenso que leva à interrupção do tratamento hormonal, o que pode comprometer a eficácia terapêutica.
As opções atuais para tratar essa condição incluem analgésicos, anti-inflamatórios e abordagens complementares. Ainda assim, nem todas as pacientes encontram alívio satisfatório.
Uso tópico: pomadas ricas em CBD e THC
O estudo intitulado A Randomized, Open-Label Trial to Assess Feasibility and Tolerability of Topical Cannabis Balms for the Treatment of Aromatase Inhibitor-Associated Musculoskeletal Syndrome foi conduzido com 21 mulheres com câncer de mama em estágios 1 a 3, que faziam uso de inibidores de aromatase e apresentavam sintomas de AIMSS nas mãos e punhos.
As participantes foram divididas em dois grupos:
- • Grupo CBD: utilizou uma pomada com cerca de 62 mg de CBD por aplicação e menos de 0,01 mg de THC.
- • Grupo THC: utilizou uma pomada com cerca de 11 mg de THC por aplicação e menos de 0,1 mg de CBD.
O produto era aplicado no dorso de cada mão, em medida padronizada, três vezes ao dia, durante duas semanas. Após esse período, as pacientes puderam continuar por mais duas semanas com a formulação de sua preferência.
Os pesquisadores avaliaram dor, rigidez e função das mãos por meio de escalas validadas. Além disso, monitoraram possíveis efeitos adversos e mediram níveis de estradiol e de canabinoides no sangue para verificar eventual absorção sistêmica.
A eficácia e a segurança nos resultados
Os principais achados foram:
- • 86% das participantes apresentaram melhora nos sintomas após duas semanas.
- • No grupo THC, 50% das voluntárias tiveram redução superior a 50% nos níveis de dor e rigidez.
- • No grupo CBD, 18% alcançaram melhora acima de 50%.
- • 71% das participantes optaram por continuar o tratamento por mais duas semanas.
Em relação à segurança, as pomadas foram consideradas bem toleradas:
- • Não houve alteração nos níveis de estradiol, ponto relevante já que o objetivo dos inibidores de aromatase é manter esse hormônio em níveis baixos.
- • Não houve detecção de THC no sangue das participantes.
- • Pequenas quantidades de CBD foram detectadas, mas sem impacto clínico relevante.
Limitações e o que ainda precisa ser investigado
Os resultados do estudo sugerem que pomadas tópicas com CBD ou THC podem ser uma alternativa promissora para aliviar a dor associada ao uso de inibidores de aromatase, especialmente para pacientes que não obtêm resposta adequada às abordagens convencionais.
Ainda assim, é importante lembrar que o estudo é pequeno e não incluiu grupo placebo, o que limita conclusões definitivas. Estudos clínicos maiores, controlados e com acompanhamento mais longo ainda são necessários para confirmar esses achados.
Cannabis no tratamento oncológico
O diagnóstico de câncer pode ser um momento de grande impacto emocional e físico. Ao longo do tratamento, surgem efeitos colaterais, inseguranças e dúvidas. Por isso, é fundamental manter uma comunicação aberta com a equipe médica e relatar todos os sintomas.
A avaliação individualizada é essencial para decidir se o uso de medicamentos à base de Cannabis pode trazer benefícios em cada caso. Se a equipe médica não se sentir confortável para orientar sobre canabinoides, é válido buscar outro profissional de saúde capacitado nessa área. Idealmente, esse prescritor deve manter diálogo com os demais especialistas envolvidos no tratamento oncológico, garantindo uma abordagem segura e integrada.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis, desde que haja prescrição médica. Para contar com o apoio de profissionais experientes no uso de canabinoides, acesse a nossa plataforma de agendamento e marque uma consulta. Optando por consulta presencial ou por telemedicina, é possível iniciar essa jornada de forma segura e responsável.














