No grupo de mães da escolinha dos meus filhos, quase toda semana alguém compartilha um vídeo do @pediatraintegralbr. O último viralizou agora pertinho do Natal: “o pior presente que você pode dar ao seu filho é um celular”. A fala direta, sem culpa e sem moralismo, toca sempre em um nervo exposto da parentalidade contemporânea, e, conforme era o objetivo, abriu mais uma conversa difícil. Mas necessária, sobre infância, saúde mental e limites.
É assim que Dr. Daniel Becker se tornou uma das vozes mais ouvidas da pediatria brasileira fora dos consultórios. Com mais de 2 milhões de seguidores, o pediatra, ativista dos direitos da criança e defensor da saúde integral construiu uma comunicação acessível, firme e baseada em evidências, sem transferir mais peso às mães e famílias já sobrecarregadas. O que certamente, é o seu principal diferencial.
Conversamos com Dr. Becker sobre os desafios estruturais da infância no Brasil, a medicalização excessiva, os impactos das telas no desenvolvimento cognitivo e, especialmente, sobre Cannabis medicinal, tema que ele aborda com clareza científica e sem concessões ao preconceito.
“A Cannabis tem um papel fundamental hoje na medicina. Esse papel vem se ampliando cada vez mais em várias direções, como tratamento de dor crônica, demência, insônias e, claro, epilepsias. Ela é comprovadamente eficaz em áreas onde não há outros tratamentos eficazes, como a epilepsia refratária”, afirma Becker.
“O álcool é muito mais perigoso que a maconha”
Ao falar sobre Cannabis medicinal, o pediatra não poupa críticas ao que chama de distorção ideológica no debate público brasileiro. Para ele, iniciativas que tentam barrar o avanço do uso terapêutico da planta, seja no Congresso Nacional ou em posicionamentos de entidades médicas como da Associação Brasileira de Psiquiatria, ignoram a realidade clínica e penalizam diretamente pacientes e famílias.
“É grotesco que ainda haja iniciativas para tentar barrar a legalização do uso medicinal da Cannabis. A gente sabe, com dados científicos, que o álcool é uma droga muito mais perigosa do que a maconha, e ainda assim o álcool é legalizado, amplamente acessível, sem fiscalização efetiva, inclusive para menores”.
Becker vai além e aponta o impacto social dessa incoerência:
“Você tem milhares de jovens entrando precocemente no alcoolismo, com danos cerebrais e em outros órgãos. É preciso realmente conversar com crianças e adolescentes desde cedo sobre o uso de drogas, restringir ao máximo esse uso até os 18, 20 anos, não permitir que façam uso especialmente o uso descontrolado”.

Para Becker, não é possível falar de saúde infantil sem enfrentar as condições sociais que moldam a infância no Brasil. Ele afirma que a pediatria vive hoje um impasse profundo entre uma formação ainda centrada na doença e uma realidade social cada vez mais complexa.
“A pediatria se confronta com duas questões fundamentais. A primeira é uma formação cada vez mais focada no hospital e na doença. A segunda são os desafios estruturais da infância no Brasil, que envolvem desigualdade brutal, pobreza extrema e direitos fundamentais negados”, explica.
Segundo ele, cerca de 10 milhões de crianças ainda vivem em situação de miséria ou pobreza extrema no país.
“Estamos falando de crianças sem segurança alimentar, sem saneamento, sem moradia adequada, sem acesso ao brincar, ao lazer, a uma escola de qualidade. Isso impacta diretamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social”, afirma.
Telas, TDAH e uma infância confinada
Um dos alertas mais contundentes de Becker diz respeito ao impacto das telas digitais no comportamento e na saúde mental de crianças e adolescentes. Para ele, parte expressiva do aumento de diagnósticos psiquiátricos na infância reflete um ambiente adoecedor.
“Você pega uma criança confinada entre quatro paredes, comendo ultraprocessados, sem brincar, sem socializar, mergulhada cinco ou seis horas por dia numa tela. Não tem como ela não ficar desatenta e agitada. Isso não é doença, é resposta a um ambiente opressivo”, diz.
Ele critica o que chama de “atalho medicamentoso”:
“Muitos diagnósticos de TDAH hoje são falsos. Não é um transtorno genético. É uma reação à forma como as crianças estão vivendo. Só que dói menos dar um remédio do que mudar a sociedade, mudar a escola, mudar a relação com a família, tirar das telas e devolver o brincar”.
Essa visão já aparecia em sua fala no TED Talk “Criança, já para fora!”, apresentado em 2015, no qual Becker alertava para os “pecados modernos da infância”, como o confinamento, a medicalização e o afastamento da natureza.
Cannabis medicinal, infância e responsabilidade
Ao tratar da Cannabis na pediatria, Becker faz uma distinção clara entre uso medicinal e uso recreativo, especialmente durante a adolescência. “Na adolescência, a Cannabis não é segura e não é recomendada”. O profissional alerta que nesta fase o cérebro ainda está em formação e o uso recreativo pode trazer prejuízos. Porém, segundo o especialista, isso não pode ser usado como “desculpa para negar os efeitos benéficos comprovados da Cannabis medicinal”. Para Dr. Becker, quando bem indicada, com acompanhamento médico e critérios claros a terapia canabinoide traz benefícios.
Para ele, o debate precisa amadurecer:
“A gente precisa de menos preconceito e mais educação. Mais orientação, mais esclarecimento sobre os efeitos nocivos, sim, mas também sobre os efeitos benéficos da Cannabis”.
Informação como cuidado e proteção
O pediatra também chama atenção para a dificuldade das famílias em dialogar com crianças e adolescentes sobre drogas, álcool e outros temas ainda cercados de tabu.
“As famílias falham muito nesse diálogo. Não falam sobre drogas, não falam sobre álcool, e o resultado é que os jovens entram num mundo muito mais perigoso, sem referência, sem orientação. O álcool é tratado como algo normal, quando é extremamente danoso”, alerta.
Para Becker, a saída não passa pelo silêncio, pelo medo ou pela negação, mas pela conversa qualificada, baseada em evidências e responsabilidade. Falar sobre drogas, saúde mental, limites e cuidado não incentiva o risco — protege.
Se depender de iniciativas como a dele, que devolvem complexidade e humanidade ao debate sobre infância, e do trabalho editorial do Portal Cannabis & Saúde, que se propõe a traduzir ciência em informação acessível, o caminho tende a ser outro: mais consciência, menos tabu; mais cuidado, menos julgamento; mais informação, menos ruído. E, sobretudo, um futuro em que decisões sobre saúde sejam tomadas com conhecimento, empatia e compromisso com a proteção integral das crianças e adolescentes.
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Como começar um tratamento com Cannabis?
Aqui no Brasil, o uso medicinal da Cannabis é possível desde que tenha a prescrição de um médico ou dentista. Acessando a nossa plataforma de agendamentos você pode marcar uma consulta com um profissional da saúde experiente na prescrição desse tipo de tratamento.













