Um estudo prospectivo analisou se um medicamento à base de canabinoides que combina canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC) na proporção 1:1 pode melhorar o sono de pessoas com esclerose múltipla. O objetivo foi verificar se essa combinação pode ajudar pacientes que convivem com distúrbios do sono associados à doença.
A pesquisa, realizada na Itália, acompanhou 19 pacientes com esclerose múltipla durante seis semanas de tratamento.
Para medir os efeitos, os cientistas utilizaram dois métodos. O primeiro foi a polissonografia, exame considerado padrão-ouro para avaliar o sono. O segundo foi o questionário Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI), que mede a avaliação dos próprios pacientes sobre a qualidade do sono.
Ao final do período, os pesquisadores observaram melhora significativa em vários indicadores do sono, tanto nas medições objetivas do exame quanto nos relatos dos participantes.
Distúrbios do sono são comuns na esclerose múltipla
De acordo com os pesquisadores, distúrbios do sono são frequentes em pessoas com esclerose múltipla e podem afetar profundamente a qualidade de vida.
Problemas como insônia, sono fragmentado e movimentos involuntários durante a noite podem agravar a fadiga, dificuldades cognitivas e sintomas emocionais.
No estudo, antes do início do tratamento, os pacientes apresentavam sono mais fragmentado e menos reparador do que indivíduos saudáveis.
Eles dormiam menos, acordavam mais vezes durante a noite e tinham menor quantidade de sono REM, fase importante para memória e recuperação do cérebro.

O que mudou após seis semanas
Um dos resultados mais marcantes foi a melhora nos movimentos periódicos das pernas, um distúrbio comum nesses pacientes. Após as seis semanas de tratamento, 17 dos 19 participantes deixaram de apresentar esse sintoma.
As análises mostraram que essa melhora não se explica apenas pela redução de sintomas como espasticidade ou problemas urinários. Isso sugere que o medicamento poderia agir diretamente na regulação do sono.
Quem participou do estudo
O medicamento utilizado no estudo combina CBD e THC em doses padronizadas e é geralmente administrado por via sublingual.
Na pesquisa, todos os participantes apresentavam espasticidade moderada a grave, condição comum na esclerose múltipla que causa rigidez muscular e espasmos.
Esse é justamente um dos critérios clínicos para a indicação do medicamento.
A maioria dos pacientes era mulher e a idade média era de cerca de 51 anos.
Como os cientistas avaliaram o sono
Os pesquisadores avaliaram os participantes em dois momentos:
- • Antes do início do tratamento
- • Após seis semanas de uso do medicamento à base de Cannabis
Além disso, os resultados foram comparados com 24 indivíduos saudáveis, com idade e sexo semelhantes.
A polissonografia registrou diversos indicadores do sono, incluindo atividade cerebral, respiração, movimentos corporais e estágios do sono.
Já o PSQI foi usado para medir como os próprios pacientes avaliavam a qualidade do descanso.
A dimensão das melhorias
Após seis semanas de tratamento com canabinoides, os pesquisadores registraram melhora em praticamente todos os parâmetros avaliados, incluindo:
- • Redução de despertares e microdespertares
- • Aumento da proporção de sono REM
- • Aumento do tempo total dormindo
- • Aumento da eficiência do sono
- • Diminuição dos movimentos periódicos das pernas
- • Melhora na qualidade subjetiva do sono, medida pelo PSQI
As melhoras foram detectadas tanto nos exames de laboratório quanto nos relatos dos pacientes, reforçando a consistência dos resultados.

Como os canabinoides podem agir no sono
Os autores sugerem que os canabinoides podem afetar o sono ao atuar em receptores CB1 do sistema endocanabinoide.
Esses receptores estão presentes em partes do cérebro relacionadas à regulação do sono, como o tálamo e outras áreas do sistema nervoso central.
Isso ajuda a explicar por que os efeitos observados não parecem depender apenas da melhora de outros sintomas da esclerose múltipla. No entanto, o mecanismo ainda precisa de confirmação por pesquisas futuras.
O que os resultados significam
O estudo apresenta evidências medidas em exames, baseadas em polissonografia, e não apenas em relatos dos pacientes. Os resultados indicam que o medicamento à base de Cannabis pode melhorar indicadores concretos do sono em pessoas com esclerose múltipla.
Para profissionais de saúde, isso sugere que a qualidade do sono pode ser considerada um indicador clínico importante ao avaliar o uso de canabinoides.
Para pessoas que convivem com a esclerose múltipla, dormir melhor pode significar menos fadiga, mais energia durante o dia e melhor qualidade de vida.
Como utilizar medicamentos à base de Cannabis no Brasil
Os próprios autores destacam que mais estudos são necessários, com mais participantes e acompanhamento mais longo.
Novos ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo poderiam confirmar os resultados, identificar quais pacientes se beneficiam mais do tratamento e definir com maior precisão a dose, segurança e efeitos no sono.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis, desde que haja prescrição médica. Portanto, se você ou alguém próximo convive com a esclerose múltipla e deseja iniciar uma terapia com canabinoides, busque orientação especializada.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível agendar consultas presenciais ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.