A Cannabis medicinal no Brasil entrou, definitivamente, em outra fase. Se antes o debate girava em torno do “potencial”, hoje ele se ancora em números, regras mais claras e uma rede crescente de profissionais, empresas e pacientes. Ainda assim, o avanço não acontece sem ruídos. E é justamente essa tensão que deve marcar a Cannabis Fair e o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM), realizados entre os dias 21 e 23 de maio, em São Paulo.
Mais do que eventos complementares, feira e congresso funcionam como um retrato bastante fiel do momento atual do setor: expansão acelerada, maior institucionalização e, ao mesmo tempo, desafios que ainda não foram resolvidos, especialmente no acesso e na qualificação profissional.
Os dados ajudam a dimensionar esse crescimento. O Brasil já se aproxima de 900 mil pacientes em tratamento com derivados de Cannabis, enquanto a projeção de faturamento gira em torno de R$ 1 bilhão em 2026. A base de médicos prescritores também cresce rapidamente, com milhares de novos profissionais entrando na área nos últimos anos.
Mas o avanço quantitativo não resolve, por si só, questões estruturais.
Crescimento não significa maturidade
O Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal chega à edição de 2026 com uma programação que tenta dar conta de um setor cada vez mais fragmentado (e complexo). Os módulos que vão da medicina à veterinária, passando por odontologia, indústria farmacêutica e agronegócio, mostram que a Cannabis deixou de ser um tema único.
Ao mesmo tempo, essa diversificação levanta um ponto importante: o quanto desse crescimento está, de fato, sustentado por evidência clínica robusta, e o quanto ainda se apoia em extrapolações e expectativas.
Temas como segurança do uso, risco de dependência e o papel dos chamados “canabinoides menores” aparecem com mais frequência na programação, indicando uma tentativa de aprofundar o debate. Ainda assim, a própria necessidade de discutir esses pontos revela que parte das respostas ainda está em construção.
Para o químico Nelson Ferreira Claro Júnior, o evento também cumpre uma função de articulação:
“A participação de congressos é motivada por diferentes objetivos, como a possibilidade de networking, de buscar ou aprofundar conhecimento sobre temas atuais, e ainda de identificar tendências futuras. Desejo que o CBCM 2026 seja exitoso em todas estas frentes, e que possa proporcionar aos participantes um ambiente de informação de qualidade e de novos negócios.”
A fala reforça o papel do congresso como espaço de troca mas também evidencia como ciência e mercado seguem caminhando lado a lado, nem sempre no mesmo ritmo.
Um mercado que cresce (e se tensiona)
Se o congresso levanta perguntas, a Cannabis Fair expõe respostas parciais. Com centenas de empresas e produtos disponíveis, o evento funciona como vitrine de um setor que se expande rapidamente mas que ainda busca padronização e credibilidade.
Hoje, mais de 500 empresas atuam sob regulamentação no Brasil, com cerca de 600 produtos no mercado, em sua maioria importados. Esse cenário amplia o acesso, mas também torna mais complexa a tarefa de garantir qualidade, rastreabilidade e consistência terapêutica.
Nesse contexto, a presença na feira deixa de ser apenas comercial e passa a ser também estratégica. Afinal, mais do que lançar produtos, empresas disputam confiança — um ativo ainda em construção no setor.
Regulação avança, acesso ainda é desigual
Nos últimos anos, o Brasil avançou na criação de normas para cultivo, produção e controle de derivados de Cannabis. As exigências de autorização, rastreabilidade e inspeção sanitária indicam um movimento de formalização importante.
Ao mesmo tempo, novas possibilidades, como a manipulação em farmácias magistrais, apontam caminhos para ampliar o acesso.
Mas a equação ainda não fecha.
O custo do tratamento, a concentração de produtos importados e a desigualdade na formação médica continuam sendo barreiras concretas para grande parte dos pacientes. Ou seja: o setor cresce, mas não de forma homogênea.
Entre discurso e prática
Para Daniel Jordão, diretor da Sechat e organizador dos eventos, a Cannabis Fair representa um ponto de virada:
“A Cannabis Fair é hoje o grande hub do setor da Cannabis no país. É o momento em que saímos da teoria e vemos, na prática, negócios, tecnologias e produtos chegando ao mercado com seriedade, segurança, qualidade e eficácia.”
A afirmação dialoga com o avanço visível do setor. Mas também convida a um olhar mais crítico: até que ponto essa prática já está consolidada — e até que ponto ainda convive com lacunas importantes?
Um setor em construção
A edição de 2026 da Cannabis Fair e do CBCM deixa evidente que a Cannabis medicinal no Brasil avançou, e rápido. O aumento no número de pacientes, a expansão da prescrição e a entrada de novos players indicam um mercado em consolidação.
Mas também revelam um setor que ainda está se organizando.
Entre avanços regulatórios e desafios de acesso, entre expansão comercial e necessidade de evidência científica, a cannabis medicinal brasileira segue em construção.
E talvez o principal papel desses eventos seja justamente esse: não apenas celebrar o crescimento, mas expor, com mais nitidez, tudo aquilo que ainda precisa ser resolvido.
Serviço
A Cannabis Fair e o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM) acontecem de 21 a 23 de maio de 2026, no Transamerica Expo Center. A feira é voltada ao público interessado no mercado, com acesso mediante credenciamento, enquanto o congresso reúne a programação científica e exige inscrição específica. O ingresso para o CBCM garante acesso à feira, mas o credenciamento da feira não inclui participação no congresso.