A doença de Chagas continua sendo um grave problema de saúde pública na América Latina e em outras regiões do mundo. Transmitida principalmente pelo inseto conhecido como barbeiro (Triatoma infestans), a condição está associada a complicações cardíacas, digestivas e neurológicas.
Um dos maiores desafios no controle da doença é que o inseto barbeiro vem se tornando cada vez mais resistente aos inseticidas convencionais, o que compromete as estratégias de combate ao vetor.
Diante desse cenário, pesquisadores argentinos investigaram o uso de extratos da planta Cannabis como repelente e inseticida contra o barbeiro, principal transmissor da doença de Chagas. O estudo, publicado na revista científica Plants, apresenta uma alternativa potencialmente mais eficaz e ambientalmente segura.
A resistência do barbeiro e o desafio da doença de Chagas
O combate ao inseto barbeiro é considerado a principal estratégia para reduzir a transmissão da doença de Chagas, já que não existe vacina disponível e os tratamentos antiparasitários apresentam eficácia limitada, especialmente na fase crônica.
Por décadas, os programas de controle se basearam em inseticidas químicos, como os piretroides. No entanto, populações de barbeiros resistentes a esses produtos já foram registradas em países como Argentina, Bolívia, Brasil e Peru. Esse fenômeno tem reduzido a eficácia das campanhas de controle e reforça a necessidade de novas abordagens.

Inseto barbeiro (Triatoma infestans) é o principal transmissor da doença de Chagas
Cannabis contra o barbeiro: efeito inseticida e repelente
No estudo, os pesquisadores produziram dois tipos de extratos de Cannabis: um utilizando acetona e outro utilizando etanol. Esses extratos foram testados contra o inseto barbeiro em condições controladas de laboratório.
Os resultados mostraram que ambos os extratos foram capazes de matar os insetos. O extrato obtido com acetona apresentou maior potência, sendo até cinco vezes mais eficaz do que o extrato alcoólico. O pico do efeito inseticida foi observado cerca de 48 horas após o contato com o inseto.
Além da ação inseticida, os extratos também demonstraram forte efeito repelente. Nos testes, o extrato de acetona foi capaz de afastar 100% dos insetos em determinadas concentrações, com desempenho semelhante ou até superior ao de produtos formulados com DEET, ingrediente ativo comum em repelentes comerciais.
Como a Cannabis age contra o inseto
Segundo os autores, os efeitos observados estão relacionados à composição química da Cannabis, especialmente aos canabinoides e terpenos presentes nos extratos. O estudo aponta que esses compostos podem atuar por diferentes mecanismos no organismo do inseto, incluindo:
- • inibição de enzimas essenciais para a transmissão de sinais nervosos;
- • alteração da mobilidade e da coordenação;
- • interferência em sistemas neurológicos importantes.
Esse mecanismo de ação difere daquele observado nos inseticidas químicos convencionais, que geralmente causam morte rápida por hiperexcitação nervosa. No caso da Cannabis, o efeito foi mais lento, porém consistente.

Terpenos potencializam o efeito dos extratos
Outro destaque do estudo foi a avaliação da combinação dos extratos com terpenos, compostos naturais responsáveis pelo aroma da planta. Os principais terpenos testados, encontrados em algumas variedade da Cannabis, foram:
- • β-cariofileno
- • limoneno
- • pineno
- • ocimeno
Algumas dessas combinações apresentaram efeito sinérgico, ou seja, o extrato e o terpeno juntos foram mais eficientes do que quando utilizados separadamente. A combinação mais promissora foi a do extrato de acetona com β-cariofileno, que permitiu reduzir significativamente a dose necessária para matar o barbeiro.
Segurança ambiental: impacto mínimo sobre abelhas 🐝
Uma preocupação dos pesquisadores foi com a segurança ambiental dos produtos. Para isso, eles avaliaram o efeito dos extratos de Cannabis em abelhas (Apis mellifera), insetos essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas.
Nas doses testadas, os extratos não apresentaram toxicidade para as abelhas, diferente de inseticidas químicos convencionais utilizados como comparação no experimento. Nesse sentido, esse resultado sugere que a Cannabis pode ter um perfil mais seletivo, afetando o barbeiro sem causar danos a insetos considerados benéficos.
Uso autorizado de Cannabis no Brasil
Embora os resultados sejam promissores, os autores ressaltam que este é um estudo experimental realizado em laboratório. Ainda são necessários mais estudos para compreender como esses extratos se comportariam fora do ambiente controlado e qual seria o impacto em populações de insetos encontradas na natureza.
Além disso, não existem inseticidas ou repelentes à base de Cannabis disponíveis no mercado. O uso da planta para o controle do barbeiro e da doença de Chagas ainda está restrito à pesquisa científica.
Por outro lado, o uso de medicamentos com derivados da Cannabis é legal e vem crescendo no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exige uma prescrição médica feita por profissional com registro ativo.
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