Os efeitos antimicrobianos dos compostos da Cannabis vêm sendo estudados por diferentes áreas da ciência como uma estratégia promissora no combate às bactérias resistentes aos antibióticos. Pesquisadores investigam como essas substâncias podem atuar contra microrganismos difíceis de eliminar pelos meios convencionais.
Na odontologia, esse interesse cresce especialmente no contexto do controle da placa bacteriana, dos biofilmes e outras infecções bucais. Uma análise publicada recentemente no International Journal of Molecular Sciences avaliou como três canabinoides agem contra bactérias associadas a infecções endodônticas persistentes, aquelas que podem permanecer mesmo após tratamentos de canal bem executados.
Os resultados indicam que esses compostos têm potencial para inibir e, em alguns casos, eliminar microrganismos envolvidos em falhas de tratamentos endodônticos.
Quando o tratamento de canal não é suficiente
As infecções endodônticas persistentes ocorrem quando bactérias conseguem sobreviver dentro do sistema de canais do dente, mesmo após o tratamento odontológico. Isso acontece porque os canais são extremamente estreitos, ramificados e complexos, o que dificulta a limpeza completa.
Além disso, algumas bactérias formam biofilmes, estruturas semelhantes a uma “película protetora” que funcionam como escudo contra medicamentos e substâncias desinfetantes. Entre as espécies mais associadas a esse tipo de infecção estão Enterococcus faecalis e Streptococcus mutans, conhecidas por sua elevada resistência aos métodos convencionais usados na odontologia.
Canabinoides vs. bactérias resistentes

Os pesquisadores testaram canabidiol (CBD), canabinol (CBN) e delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) contra três bactérias comuns em infecções endodônticas persistentes:
- • Enterococcus faecalis
- • Streptococcus mutans
- • Fusobacterium nucleatum
Os testes laboratoriais avaliaram dois cenários distintos:
- Bactérias livres, quando estão “soltas” no ambiente.
- Biofilmes, que representam a forma mais resistente das bactérias dentro do canal dentário.
Nesse sentido, os cientistas analisaram duas medidas importantes:
- • Concentração mínima inibitória: menor quantidade capaz de impedir o crescimento da bactéria
- • Concentração bactericida mínima: menor quantidade capaz de matar totalmente a bactéria
O que os canabinoides conseguiram fazer
Os três canabinoides testados conseguiram inibir o crescimento de E. faecalis e S. mutans em baixas concentrações. No caso da E. faecalis, os compostos também apresentaram efeito bactericida, ou seja, foram capazes de eliminar completamente a bactéria.
Por outro lado, contra a F. nucleatum, os canabinoides não demonstraram eficácia nas concentrações avaliadas, indicando que o efeito antimicrobiano varia conforme o tipo de bactéria.
Quando os pesquisadores analisaram os biofilmes, os resultados foram ainda mais relevantes. CBD, CBN e THC reduziram significativamente a quantidade de bactérias vivas nos biofilmes de E. faecalis e S. mutans. Além disso, CBD e CBN foram capazes de degradar o biofilme da E. faecalis, enfraquecendo essa estrutura protetora que torna essas infecções tão difíceis de tratar.
Entre os compostos analisados, o CBN apresentou o efeito antimicrobiano mais potente, seguido pelo THC. O CBD também mostrou resultados positivos, porém mais modestos em comparação aos outros dois.
Como os canabinoides podem agir contra bactérias
De acordo com os pesquisadores, os canabinoides parecem atuar diretamente sobre a membrana bacteriana. Essa membrana funciona como uma barreira que protege a célula bacteriana e, ao danificá-la, os compostos da Cannabis dificultam a sobrevivência e a multiplicação do microrganismo.
No caso do CBD, há indícios de que ele também interfira na comunicação entre as bactérias, reduzindo a formação de estruturas que favorecem a organização do biofilme e a resistência aos tratamentos. Para os autores, esse mecanismo é especialmente relevante nas infecções endodônticas persistentes, nas quais os biofilmes desempenham um papel importante.

Implicações para a odontologia
Os resultados sugerem que os canabinoides podem representar uma alternativa ou um complemento aos tratamentos convencionais, abrindo caminho para novas estratégias no controle de infecções bacterianas. Atualmente, os medicamentos utilizados dentro do canal dentário apresentam limitações contra bactérias resistentes, como a E. faecalis.
No entanto, os próprios autores ressaltam que os dados são experimentais e obtidos em laboratório, sendo necessários estudos clínicos antes de qualquer aplicação direta em consultórios odontológicos.
Cannabis e saúde bucal: o que já está disponível
Hoje, já existe uma variedade de produtos odontológicos que incluem canabinoides em sua composição, como enxaguantes bucais, géis e cremes dentais voltados à saúde bucal. No Brasil, esses produtos podem ser obtidos por meio da importação regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), conforme as regras da RDC 660, que autoriza a importação de produtos à base de Cannabis para uso pessoal mediante prescrição médica.
Enquanto a ciência continua investigando o potencial dos canabinoides no combate a infecções endodônticas, cresce também o interesse em seu potencial terapêutico na odontologia e em outras áreas. Então, se você deseja iniciar um tratamento com medicamentos à base de Cannabis, acesse a nossa plataforma de agendamento. Lá, você pode marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de prescrição.














