Conviver com uma doença grave ou sem cura conhecida não precisa significar viver com dor constante, sofrimento intenso ou perda total da autonomia. Nesses casos, entram em cena os cuidados paliativos, uma especialidade médica voltada para o alívio de sintomas e para a promoção da qualidade de vida. Nos últimos anos, medicamentos à base de Cannabis têm ganhado espaço nesse campo, despertando o interesse de profissionais de saúde e pesquisadores.
Um estudo de pesquisadores brasileiros, publicado na Revista Bioética, analisou de forma ampla e cuidadosa o potencial do canabidiol (CBD) e de outros canabinoides no cuidado de pacientes em fase paliativa. Além dos efeitos clínicos, o artigo traz uma reflexão importante sobre as questões bioéticas envolvidas nessa prática.
O papel dos cuidados paliativos
Os cuidados paliativos são uma abordagem de atenção à saúde voltada para pessoas que enfrentam doenças crônicas, graves ou que ameaçam a vida, como câncer, doenças neurológicas progressivas ou falências orgânicas. Eles não se restringem ao fim da vida e podem ser oferecidos por longos períodos, inclusive de forma simultânea a tratamentos curativos.
O objetivo dessa especialidade é aliviar o sofrimento, por meio do controle de sintomas físicos como dor, náuseas, perda de apetite e fadiga. Além disso, os cuidados paliativos também consideram aspectos emocionais, sociais e espirituais, confortando o paciente de forma ampla.
Nesse contexto, encontrar terapias capazes de controlar sintomas complexos é um desafio constante, o que ajuda a explicar o interesse pelos canabinoides nos cuidados paliativos.

Sintomas difíceis e os compostos da Cannabis
A planta Cannabis possui centenas de compostos bioativos com potencial terapêutico. O artigo aponta que o uso de canabinoides pode ser útil no controle de sintomas frequentes em cuidados paliativos, como:
- • Dor crônica;
- • Náuseas e vômitos, especialmente os induzidos pela quimioterapia;
- • Perda de apetite e emagrecimento;
- • Ansiedade e sofrimento emocional;
- • Distúrbios do sono.
Quando mal controlados, esses sintomas comprometem profundamente a qualidade de vida do paciente e também impactam familiares e cuidadores.
Analisando diferentes formas de cuidado
Os pesquisadores do Centro Universitário de Várzea Grande (UNIVAG), no Mato Grosso, realizaram uma revisão integrativa da literatura, analisando estudos publicados na última década. Eles buscavam responder à questão: o uso de canabinoides em pacientes paliativos é eficaz para melhorar a qualidade de vida?
Foram incluídos estudos clínicos, observacionais e de coorte que avaliaram o uso de produtos à base de CBD, tetrahidrocanabinol (THC) ou a combinação de ambos.
Os resultados indicaram que os canabinoides podem trazer benefícios relevantes nos cuidados paliativos, especialmente no alívio da dor e na redução de náuseas e vômitos. Em alguns trabalhos, os pacientes relataram melhora progressiva da dor ao longo de semanas, além de impactos positivos na mobilidade e saúde mental.

CBD e THC: benefícios e diferenças
O CBD se destacou por apresentar um perfil de segurança mais favorável, especialmente por não provocar efeitos psicoativos evidentes. Ainda assim, o artigo alerta para a possibilidade de efeitos adversos, como fadiga, sonolência e alterações gastrointestinais.
Já o THC, embora eficaz no controle de sintomas como dor, náuseas e falta de apetite, pode desencadear ansiedade e até paranoia, sobretudo em pacientes vulneráveis. Por isso, seu uso exige maior cautela e acompanhamento.
Os autores sugerem que a resposta aos canabinoides varia consideravelmente de pessoa para pessoa, o que evidencia a importância da individualização do tratamento, do ajuste cuidadoso das doses e do acompanhamento médico contínuo.
Quando tolerar efeitos colaterais vale a pena
Um achado relevante do estudo é que muitos pacientes em cuidados paliativos toleram melhor os efeitos adversos dos canabinoides quando percebem uma melhora significativa na qualidade de vida. Para quem convivia diariamente com dor intensa ou náuseas constantes, lidar com fadiga ou alterações na percepção pode ser um preço aceitável.
Para os autores, esse aspecto reforça um conceito central dos cuidados paliativos: o que realmente importa é aquilo que faz sentido para o paciente, de acordo com seus valores, desejos e expectativas.
Canabinoides e cuidados paliativos sob a lente da bioética
Além dos dados clínicos, o artigo dá visibilidade à visão bioética do uso de canabinoides nos cuidados paliativos, baseada em quatro princípios fundamentais:
- • Autonomia: o paciente deve receber informações claras e compreensíveis para decidir, junto aos profissionais da saúde, se deseja ou não usar derivados da Cannabis.
- • Beneficência: a abordagem deve buscar o máximo de benefício possível.
- • Não maleficência: é necessário avaliar riscos e evitar danos, especialmente em relação a efeitos adversos.
- • Justiça: o acesso a essas terapias deve ser equitativo, sem discriminação ou preconceito.
De acordo com os autores, respeitar esses princípios é essencial para que o uso de canabinoides seja clinicamente eficaz e, sobretudo, eticamente responsável.
“Ao integrar essas perspectivas de ética, avaliação e inclusão, o uso do CBD pode ser consolidado como uma prática não apenas clinicamente eficaz, mas também eticamente responsável, proporcionando uma abordagem humanizada e compassiva aos pacientes em situações de vulnerabilidade.”
No entanto, os pesquisadores lembram que ainda há desafios a serem superados, como a necessidade de ensaios clínicos robustos e a superação de barreiras sociais e regulatórias.
Uso responsável de canabinoides e acompanhamento médico
Apesar do crescente interesse e do potencial dos canabinoides nos cuidados paliativos, é fundamental reforçar que o uso de medicamentos à base de Cannabis exige acompanhamento médico. Esses produtos não devem ser utilizados de forma autônoma ou sem orientação, especialmente em pacientes com maior fragilidade física.
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