Suspensa pesquisa da UFSC sobre Cannabis e médicos envolvidos na pandemia

Cerca de 300 médicos e demais profissionais da linha de frente no combate à Covid-19 foram impactados pela paralisação do estudo; motivo é a falta de medicamentos
Campus da UFSC em Florianópolis

Uma pesquisa científica inédita – dentro e fora do Brasil – foi interrompida recentemente, antes da análise final que iria revelar os achados científicos. O estudo, iniciado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), chama-se “Impacto do óleo integral de Cannabis na saúde mental de profissionais da linha de frente no combate à Covid-19” e estava sendo realizado em parceria com a Abrace Esperança. A iniciativa envolveu cerca de 300 participantes voluntários de todo o país, entre médicos e enfermeiros envolvidos no atendimento de casos suspeitos e confirmados da doença. As informações são da Abrace, que comunicou a suspensão nesta segunda-feira (17)

Segundo a entidade, foi a falta de regulamentação sobre a Cannabis medicinal no Brasil que inviabilizou a continuação e conclusão da pesquisa, aprovada em junho de 2020, pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH).

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Os responsáveis pela pesquisa emitiram uma nota pública (leia abaixo) relatando a impossibilidade de conclusão do estudo devido à interrupção da produção de derivados de Cannabis pela Abrace, instituição responsável pelo fornecimento dos óleos aos participantes do estudo. Conforme a ONG, isso aconteceu por conta da ação que a Anvisa moveu em março deste ano e que teve como desdobramento a paralisação da produção regular da Abrace por mais de 20 dias, o que conflitou com o planejamento e cronograma da pesquisa.

Assim que foi reestabelecida a produção pelo laboratório da Abrace a prioridade de envio dos óleos foi direcionada aos pacientes e associados. Na nota, os pesquisadores lamentam a interrupção da pesquisa e reforçam sua importância:

“O estudo, inédito, é um dos maiores estudos clínicos, duplo-cego, randomizado e com uso de placebo já realizados no mundo e a maior pesquisa realizada pela Abrace.”

Segue nota

Nota Pública ABRACE / Universidade Federal de Santa Catarina sobre Pesquisa Cannabis sativa – Saúde Mental – Covid-19

Em julho de 2020, a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) obtiveram autorização do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH), para realizar uma pesquisa em nível nacional, avaliando o impacto do óleo de Cannabis sativa na saúde mental de profissionais da linha de frente no combate à Covid-19. O objetivo é compreender o papel do Sistema Endocanabinoide na regulação dos sintomas do estresse agudo e crônico e avaliar o impacto do uso do óleo de Cannabis sativa nos sintomas de estresse agudo e crônico.

O estudo inédito é o maior já realizado pela Abrace, e um dos maiores estudos clínicos, duplo-cego, randomizado e com uso de placebo já realizados no mundo. Reunimos mais de 250 participantes para o estudo, que receberam óleo integral de Cannabis sativa rico em CBD ou placebo, respondendo a questionários desenhados para a avaliação da saúde mental e qualidade de vida antes da intervenção e mensalmente ao longo dos 6 meses de pesquisa.

Entretanto, a execução da pesquisa foi severamente prejudicada devido às dificuldades impostas pela falta de regulamentação no país. No começo do mês de março de 2020, a Abrace se viu às voltas de entraves regulatórios frequentes, com constantes visitas de autoridades públicas como Polícia Federal, Ministério Público, entre outros, quando a Anvisa moveu uma ação que paralisou toda a produção da Abrace por 5 dias causando atrasos no envio aos pacientes e associados da Abrace e ao nosso grupo de pesquisa.

Após o restabelecimento da produção, nosso grupo de pesquisa ficou sem acesso ao óleo por semanas, pela priorização óbvia aos pacientes da associação, que em muitos casos dependem do óleo para sua condição de saúde. Em decorrência disso, diversos participantes que deveriam receber a primeira reposição de seus frascos não tiveram como dar continuidade ao tratamento, acarretando uma perda imediata de aproximadamente 60% dos dados.

Esse fato nos obrigou a tomar a decisão de interromper o estudo antecipadamente, para podermos, ao menos, conseguir extrair informação técnica sobre o impacto pré e pós-intervenção.

Não temos como expressar o tamanho da frustração e indignação de toda a equipe. Vivemos um grande entrave no Brasil, em que “não avançamos o debate sobre a regulamentação” porque “não temos estudos conduzidos no país, que precisam ser feitos” e ao mesmo tempo não conseguimos produzir pesquisa porque não há regulamentação. Na falta desta, restam os entraves inviabilizadores.

Vimos nos manifestar publicamente para pedir à toda a sociedade brasileira que nos ajudem a conduzir pesquisas sérias, importantes, de relevância mundial no Brasil. Pedimos que a sociedade integre consciente e racionalmente o debate sobre a regulamentação da Cannabis sativa. Não há meios de um país avançar sem educação, pesquisa e inovação tecnológica. Além de terapia, é disso que se trata uma regulamentação.

Assim como nossa pesquisa foi interrompida, milhares de pessoas poderiam (e ainda podem) ter suas vidas interrompidas se continuarmos no status legal atual. Para nossa sorte, os participantes deste estudo são pessoas saudáveis, não em tratamento. E se fosse um estudo em doentes? Qual seria o desfecho? A falta de regulamentação está pondo a vida de pessoas em risco. Pensemos.

Hoje, maio de 2021, temos vários projetos de lei tramitando na Câmara de Deputados (PL 399/2015), no Senado (PLS 514), no STF (ADIN 5408). Pedimos apoio a estas propostas, em especial, hoje, ao PL 399/2015 que está sendo discutido para votação de 17 a 20 de maio de 2021 na Câmara dos Deputados.

Pedimos urgente REGULAMENTAÇÃO JÁ!

Assinam essa nota
Prof. Erik Amazonas – Universidade Federal de Santa Catarina
Cassiano Gomes – Abrace Esperança

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