Quando Marcelle Prata atravessou a porta do consultório da médica Vanessa Matalobos, no interior do Rio de Janeiro, levava consigo muito mais do que o prontuário do filho. “Não chegou só o Gabriel. Chegou uma família inteira”, relembra.
“A gente estava sem esperança, sem expectativa. Era um cansaço físico, emocional, mental.”
Gabriel Prata, hoje com 19 anos, é autista nível 1 de suporte e tem como comorbidade o transtorno de ansiedade generalizada. À época, aos 17 anos, Gabriel pesava cerca de 130 quilos e fazia uso contínuo de múltiplos fármacos alopáticos, com escalonamento de doses ao longo da adolescência e ausência de resposta clínica consistente.
“O que a gente via era o contrário: perda de habilidades, perda cognitiva, isolamento, depressão, fobia social”, conta Marcelle. “Ele chegou a tomar 9 mg de risperidona. Engordou muito, inchou, ficava dopado. E as crises de agressividade ficaram extremas.”
Um diagnóstico tardio e uma adolescência crítica
As dificuldades de Gabriel começaram ainda na infância, especialmente no ambiente escolar. O diagnóstico de autismo, no entanto, demorou a se consolidar. “A médica chegou a relutar, não queria fechar o laudo, mas como ele precisava de apoio na escola, acabou emitindo”, explica a mãe. “Em casa, a gente sempre percebeu que tinha alguma coisa diferente.”
Até os nove anos, Marcelle conseguiu conduzir o cuidado do filho com terapias, intervenções educacionais e estratégias integrativas. Com o agravamento das dificuldades escolares, a família iniciou o tratamento medicamentoso. A adolescência, porém, foi um período especialmente difícil.
“Hormônios, pandemia, isolamento social e a perda do meu pai ( avô de Gabriel), que era uma figura de apoio muito importante para ele, tudo isso aconteceu junto”, relata. “Ele ficou extremamente agressivo, não conseguia mais ir à escola. Cada consulta era mais um remédio ou uma dose maior.”
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As crises passaram a comprometer a rotina da casa. “Ele tinha 1,75m, mais de 130 quilos. Em crise, a gente não conseguia conter. Quebrava coisas, a gente se machucava tentando segurar. Vivíamos em estado de alerta”, diz. “Eu escondia faca, tesoura. Tinha medo pela minha filha, pela minha mãe idosa.”
O sono também era um problema crônico. “Mesmo quando ele dormia, o corpo ficava rígido, travado. Era um descanso que não restaurava.”
O encontro com a Cannabis medicinal
Foi por indicação de outra mãe, em um consultório terapêutico, que Marcelle chegou até a médica Dra Vanessa Matalobos.
Marcelle, que é neuropsicopedagoga, estudiosa de neurociência e sem preconceito em relação à Cannabis, tinha, até aquele momento, uma preocupação central: a segurança.
“O meu medo não era a Cannabis. Era tirar ou mexer em medicamentos muito pesados sem um protocolo sério”, explica. “Eu precisava de alguém que entendesse a complexidade daquele caso, e a Dra Vanessa me passou uma segurança extrema.”
O tratamento foi iniciado com óleo de cannabis Full Spectrum 3000 mg, de forma gradual e cuidadosamente acompanhada. Marcelle lembra da própria desconfiança inicial. “Quando ela falou ‘duas gotinhas’, eu pensei: como assim? Ele toma diazepam, rivotril… duas gotinhas vão fazer o quê?”
Fizeram. E rápido.
“Na primeira semana, ele conseguiu relaxar dormindo. O corpo soltou. Isso a gente não via há anos”, relata. “E quando ele acordava, acordava mais tranquilo.”
A melhora do sono foi acompanhada por uma redução significativa nas crises de agressividade. “Antes, ele tinha crise todo dia. Depois, começou a ficar dois, três dias sem nenhuma. Aquilo deu esperança.”
Desmame medicamentoso
O que mais chamou a atenção da família foi a inversão da lógica terapêutica. “Até então, eu só via aumentar medicação. Com a Cannabis, a gente começou a retirar”, diz Marcelle.
O desmame foi lento, planejado e monitorado. Hoje, dois anos após o início do tratamento, Gabriel faz uso do óleo de Cannabis, do Ansitec para ansiedade e apenas 1 mg de risperidona, em fase final de retirada. A redução trouxe benefícios importantes, inclusive na reversão de efeitos colaterais severos.
“A risperidona causou um aumento muito grande da prolactina. Ele chegou a níveis altíssimos, teve aumento de mama”, relata. “Hoje isso está normalizado.”
O peso também reduziu significativamente: de cerca de 130 quilos para 103. Mais do que números, porém, vieram ganhos funcionais.
“Ele recuperou autonomia. Organiza a própria rotina, cuida dos medicamentos, se desloca, participa das atividades”, afirma a mãe. Gabriel é ativo na igreja que frequenta, atua na recepção e passou a integrar uma experiência profissional após participar de um projeto de inserção no mercado de trabalho desenvolvido por uma clínica terapêutica.
“Era para ser só um aprendizado. Um dia, uma funcionária passou mal, ele ficou no lugar dela e acabou sendo contratado. Para a gente, isso foi enorme.”
Comunicação, sensibilidade e um livro
Um dos avanços mais simbólicos veio na comunicação. Gabriel sempre teve um vocabulário elaborado, mas dificuldade em se expressar oralmente. Isso começou a mudar de outra forma.
Durante um passeio à praia, ele observou uma criança autista pequena em sofrimento sensorial. “Ele disse: ‘Eu entendo ele’. E explicou que para a criança não era só diversão, era excesso de estímulos: areia, vento, barulho, cheiro”, conta Marcelle.
Na volta para casa, veio a decisão: “Mãe, eu vou escrever um livro sobre isso.”
O resultado foi um livro infantil, lançado em formato e-book na Amazon, que retrata a experiência sensorial de uma criança autista na praia, sob o ponto de vista de quem vive essa percepção. “Foi a primeira vez que ele conseguiu colocar para fora coisas que não conseguia explicar conversando”, diz a mãe. “Hoje ele já pensa em outros projetos.”
Informação, fé e ausência de estigma
Cristã e defensora do pensamento crítico, Marcelle nunca escondeu o diagnóstico do filho nem o tratamento com Cannabis medicinal. “Eu sempre falei abertamente. Quando vem preconceito, eu vejo como falta de informação.”
Para ela, fé e ciência não se opõem. “Eu acredito que cabe ao ser humano usar aquilo que Deus criou para promover saúde e qualidade de vida.”
Hoje, olhando para o percurso da família, o sentimento predominante é gratidão. “Não foi milagre. Foi cuidado, acompanhamento e uma ferramenta terapêutica que mudou a nossa história”, afirma.
Para outras famílias, o recado é direto: “Busquem informação, estudem, conversem com profissionais capacitados. O que a Cannabis trouxe para nós foi a possibilidade de viver com mais equilíbrio”, finaliza.
Importante!
No caso de Gabriel Prata, o uso da Cannabis medicinal integra um protocolo terapêutico individualizado, sempre com acompanhamento médico. O tratamento é conduzido pela médica Vanessa Matalobos, com monitoramento contínuo e ajustes graduais, incluindo o desmame seguro dos medicamentos alopáticos.
Em quadros do espectro autista e transtornos associados, a Cannabis medicinal não substitui tratamentos convencionais, atuando como suporte no manejo de sintomas. Na plataforma do Cannabis & Saúde, é possível agendar consultas com médicos habilitados para avaliação e prescrição de canabinoides. Clique aqui e agende sua consulta.














