Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros acompanhou de perto dois cães com linfoma multicêntrico, o tipo mais comum de câncer em cachorro, submetidos à quimioterapia associada ao uso de óleo rico em canabidiol (CBD).
O objetivo foi avaliar se o CBD poderia atenuar os efeitos colaterais da quimioterapia e oferecer alguma proteção ao organismo contra o estresse oxidativo provocado pelo tratamento.
Como o linfoma multicêntrico é tratado
O linfoma multicêntrico é um câncer que atinge os linfonodos, estruturas do sistema imunológico responsáveis pela defesa do organismo. O principal sinal clínico é o aumento dos linfonodos, perceptível no pescoço, atrás das pernas ou na região da virilha.
O tratamento padrão é a quimioterapia. De acordo com os autores, o protocolo mais utilizado é o CHOP, que pode alcançar taxas de remissão de até 80%. No entanto, assim como ocorre em humanos, os efeitos colaterais podem ser desafiadores, incluindo:
- • Náuseas;
- • Falta de apetite;
- • Queda na imunidade;
- • Neutropenia (redução das células de defesa no sangue).
Diante desse cenário, os pesquisadores investigaram o CBD como terapia complementar ao protocolo convencional.

Caso 1 – remissão após três sessões
O primeiro paciente era um cão sem raça definida, com 9,4 kg, atendido com aumento generalizado dos linfonodos. O diagnóstico confirmou linfoma multicêntrico.
Ele iniciou o protocolo CHOP com:
- • Vincristina (0,5 mg/m²)
- • Ciclofosfamida (250 mg/m²)
- • Doxorrubicina (1 mg/kg)
- • Prednisolona
Além disso, passou a receber óleo rico em CBD a 3%, na dose de 2,7 mg/kg administrado diariamente no período noturno. A dose se manteve por 60 dias sem ajustes.
Evolução clínica e marcadores antioxidantes
Após a terceira sessão de quimioterapia, o cão entrou em remissão completa, quando os linfonodos deixaram de ser palpáveis. Ele apresentou alguns episódios de neutropenia, um efeito adverso frequentemente observado em protocolos quimioterápicos, mas não foram registrados efeitos colaterais relevantes associados ao CBD.
Os exames mostraram redução dos níveis de TBARS, marcador associado ao estresse oxidativo.
Por que o estresse oxidativo importa no câncer
Em pacientes com câncer, o estresse oxidativo pode surgir:
- • Pela própria presença do tumor, que altera o metabolismo celular;
- • A quimioterapia, que produz radicais livres como parte do seu mecanismo de ação contra as células tumorais.
Embora esses radicais livres ajudem a destruir células cancerígenas, eles também podem afetar tecidos saudáveis. Por isso, tratamentos complementares com potencial antioxidante vêm sendo estudados como possíveis aliadas na proteção celular durante o tratamento oncológico.
Caso 2 – neutropenia recorrente e ajustes no protocolo
A segunda paciente era uma Dachshund de 3 anos, pesando 10 kg. Ela já se encontrava em remissão ao ingressar no estudo, mas apresentava neutropenia frequente associada à quimioterapia. Devido aos efeitos adversos, o protocolo precisou passar por ajustes:
- • A ciclofosfamida foi substituída por clorambucil (1,5 mg/m²)
- • Vincristina (0,65 mg/m²)
- • Doxorrubicina (30 mg/m²)
Ela também recebeu óleo rico em CBD na mesma dose do primeiro caso.
Adaptação do estresse oxidativo e marcadores do sangue
Durante o período de uso do CBD, houve oscilações nas células de defesa, com episódios alternados de neutropenia e recuperação.
Os exames indicaram aumento de uma enzima antioxidante (catalase). Segundo os autores, esse aumento pode indicar uma resposta adaptativa do organismo ao estresse oxidativo induzido pela quimioterapia.
O que o estudo sugere sobre o uso de canabidiol em cachorro com câncer
De acordo com os pesquisadores, o canabidiol pode ter atuado como terapia complementar nesse tipo de câncer em cachorro, e pode ter ajudado a:
- • Reduzir efeitos colaterais da quimioterapia;
- • Modular a toxicidade na medula óssea (mielotoxicidade);
- • Oferecer proteção antioxidante.
O estudo também destacou a segurança da abordagem, uma vez que nenhum dos cães apresentou eventos adversos atribuídos ao CBD.
Mais do que atuar diretamente sobre o tumor, o cuidado oncológico também envolve preservar qualidade de vida. Nesse sentido, o canabidiol pode ser um importante aliado no suporte ao tratamento, favorecendo o bem-estar e facilitando a adesão à quimioterapia.
É importante ressaltar, no entanto, que o trabalho descreve apenas dois casos clínicos. Portanto, os resultados devem ser interpretados com cautela. Mais pesquisas são necessárias para estabelecer doses ideais, avaliar efeitos a longo prazo e criar protocolos padronizados.
O que isso significa para tutores
Para tutores de cães com linfoma, o estudo reforça a importância de minimizar os impactos do tratamento. A quimioterapia é eficaz e pode levar à remissão, mas os efeitos colaterais são uma preocupação frequente. O uso complementar do CBD pode oferecer suporte ao organismo durante esse processo, especialmente na proteção celular.
Porém, é importante destacar:
- • O CBD não substitui a quimioterapia;
- • Cada animal responde de forma individual ao tratamento;
- • A prescrição deve ser feita por médico-veterinário.
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