Cannabis melhora memória de paciente que não se lembrava nem de comer

Desde os 16 anos, André Pinheiro tinha apagões rápidos. Era medicado e vivia normalmente. Aos trinta e poucos anos, precisaria da família para lembrar de comer e saber o que tinha feito no dia anterior. Com a Cannabis, recuperou parte da capacidade de lembrar, a autoconfiança, o bom humor e qualidade de vida.

As primeiras mudanças aconteceram quando Pinheiro saiu de casa para cursar técnico em agropecuária em Minas Gerais. Na vida desregrada de estudante vivendo em república, descuidou dos remédios. Mesmo assim, se formou e trabalhava com doma de cavalos mangalarga marchador. Dava treinamentos e qualificação de profissionais da área e viajava prestando curso e consultoria.

Nessa época, as pessoas que conviviam com ele começaram a notar esquecimentos mais frequentes. Antes muito responsável, começou a esquecer compromissos e ter flutuações drásticas de humor. Ou estava agitado, muito alegre, ou muito triste, isolado. A irmã Cássia só o via em férias e começou a achar seu comportamento estranho. Tentou compartilhar as coisas que precisava fazer para não esquecer, até que um dia foi para o mercado e não soube voltar.

Quando ele tinha 36 anos, sua namorada ligou assustada para Cássia. Contou que Pinheiro teve uma crise diferente. Ficou travado, com o corpo duro e ausente por mais tempo do que de costume. Correram para o pronto-socorro e Pinheiro foi tratado com medicação para surto psicótico. Cássia diz que ele voltou alucinando, em pânico.

Daí para a frente, foram várias idas a hospitais. Voltava sempre sedado. Acordado, ficava mole e dormia a maior parte do tempo, sem se alimentar. Por um mês, ele permaneceu assim, até que a namorada o levou ao neurologista. O profissional não achou que Pinheiro estivesse tendo surtos, como ele sempre era tratado nos pronto socorros. Pediu para fazer mais exames.

Raro e sem tratamento

O neurologista achou que poderia ser algo raro. Pediu uma punção lombar, um eletroencefalograma e vários outros exames. Suspeita confirmada: era uma encefalite límbica autoimune. Só não sabiam como tratar. “A doença é grave, a inflamação no cérebro vai atingindo várias regiões”, diz Cássia.

Pinheiro estava muito bem, considerando o diagnóstico. Há casos em que o paciente fica incapacitado, e ele parecia ter um caso leve. Como continuavam as flutuações de humor, alucinações e perdas de memória, a irmã decidiu levá-lo para morar com a família em Alagoinhas na Bahia.

Carro vendido, namorada e profissão deixados para trás, em maio de 2018 eles chegaram à cidade próxima a Salvador. Lá, encontraram a Fundação de Neurologia e Neurocirurgia – Instituto do Cérebro, onde conheceram o neurologista Geovane Massa. “Mais naturalista”, como definiu Cássia, o novo médico começou com vários testes e perguntas sobre as medicações que Pinheiro tinha tomado durante a vida. Fez teste para detectar Alzheimer e pediu uma nova punção.

O exame mostrou que Pinheiro tinha se livrado da infecção, mas apresentava uma sequela que atingiu a parte do cérebro que trata da memória recente. Por ser uma situação rara, Massa decidiu tratar primeiro os sintomas.

Humores

Hoje, com bom humor, Cássia conta que ele começou com chás e que a mãe dela ficou desconfiada: “Como que ele vai tratar doença tão séria com chá?”. Massa também focou em reduzir os remédios que dopavam Pinheiro, tratando inicialmente os distúrbios de humor. Naquela época, ele tinha mudanças de humor muito sérias, ficava grosseiro e sem paciência e preferia ficar recluso.

As ausências também eram frequentes: em uma hora, chegava a se ausentar 40 vezes. Ele lembrava da namorada e da sogra de quando tinha 19 anos, mas não da namorada que tinha deixado para trás meses antes. “Isso mexia demais com emoção, tanto para tristeza ou medo, as coisas do dia a dia desapareciam”, relata a irmã. Até o apetite era afetado. Ele esquecia de comer e beber e precisava ser lembrado constantemente.

Apesar do estranhamento da família com a abordagem natural, os chás de mulungu, melissa e camomila funcionaram e Pinheiro ficou mais calmo. Tiraram o ansiolítico e Massa indicou uma dieta cetogênica, sem carboidratos, e sugeriu que desse preferência para uma alimentação mais mediterrânea, com peixes, alimentos integrais e com menos glúten. Complementaram com vitamina D, ômega 3 e gingko biloba. Pinheiro voltou a ter um sono tranquilo.

Perseverança na Cannabis

Cássia conta que esse período de limpeza durou quase meio ano. Pinheiro continuava a ter as ausências e o comportamento antissocial, mas era menos ríspido e não tinha crises de choro.

Em novembro de 2018, finalmente começaram com a Cannabis. Com uma dose pequena, a família não viu mudança, mas Massa os tranquilizou: poderia levar até duas semanas para que eles percebessem algum efeito. Logo Pinheiro ficou alegre demais e deu um susto na família. Em seguida, a irmã conta que “desceu uma bad”, e ele ficou triste. Com a supervisão de Massa, em vez de desistir com o susto, eles foram aumentando a dose até que Pinheiro estabilizasse. Se apresentava piora, eles diminuíam a dose.

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Cássia fazia relatórios para Massa analisar e aprender sobre a doença junto com eles. Por ser um remédio seguro, eles testaram diversos óleos de uma associação, sempre com THC.

Cássia vê melhoras em várias frentes: estabilidade emocional, diminuição de ausências e calafrios. Massa ainda mostrou que a família precisava ficar atenta a outros sinais: Pinheiro fazia movimentos entortando as mãos, podia ser um tipo de crise. Também tinha a gagueira, que a irmã explica: “Para não esquecer, ele tenta falar rápido, se atropela e gagueja”.

Com a Cannabis, tudo isso diminuiu consideravelmente, ela estima que em 60%. Cássia lembra de uma forma que Massa encontrou para avaliar o avanço: quando fez o teste de Alzheimer, o médico pediu que ele fizesse um teste clássico para realizar o diagnóstico: desenhar um relógio com os números. Pinheiro não conseguiu e ainda ficou constrangido com isso. Depois de ajustar a Cannabis, ele passou a conseguir, o que indicava uma melhora na sequência de raciocínio.

Difícil aceitação

Por isso, o passo seguinte foram as terapias, também oferecidas na Fundação. Terapia ocupacional e psicológica dão o apoio. Pinheiro, que não conseguia assistir um filme por não acompanhar a história, hoje consegue. Por ter voltado a fazer mais coisas sozinho, ele está mais confiante e sociável.

Sobre o constrangimento da dependência que os lapsos traziam, Cássia desabafa: “Foi difícil entender e aceitar que o moço de 37 anos, no auge da carreira,  realizando sonhos e ajudando a família, de repente, acabou”.

Enquanto fazia as consultas com Massa, Pinheiro às vezes não lembrava nem do médico, nem de sua condição. Queria ir ao mercado sozinho, não tinha consciência das ausências e esquecimentos. Quando percebia que não lembrava de algo, tinha crises de pânico, passou a pedir que Massa explicasse as sequelas. Esquecia de novo e Cássia explicava novamente. Os testes constantes que Massa aplicava e a perseverança da família foram ajudando Pinheiro a entender sua situação. Com o tempo, ele começou a fazer diários e gravar tudo no celular: o que fez e com quem falou, para poder saber o que viveu.

Mais equilíbrio e planos para o futuro.

Hoje Pinheiro conversa com pessoas que não conhece e lembra disso. O constrangimento por depender dos outros e precisar confiar no que Cássia dizia que tinha acontecido entristecia os irmãos. Ele não conseguia fazer as coisas básicas, como lembrar se tinha ou não escovado os dentes ou comido.

Depois do tratamento com Cannabis e os complementos que Massa receitou, Cássia se alegra ao ver que o irmão aceita sua realidade com mais leveza. Pinheiro até brinca com o fato de usar Cannabis: “Eu estou usando, quer um pouquinho?”, os irmãos se divertem. Regrado, Pinheiro participa da arrumação da casa, dá comida para os cachorros e se lembra da própria fome. Apesar de ainda precisar ser lembrado de cumprir essas funções e ter consciência de que ainda não conseguiria dar uma aula por perder a sequência, ele planeja um dia voltar a dar cursos: disposição não falta.
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Érika Suzuki

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