O miocardite é uma inflamação do músculo do coração que pode surgir após infecções virais, reações autoimunes ou outros processos inflamatórios. Embora muitas pessoas se recuperem bem, a condição ainda representa um desafio clínico, pois não existe um tratamento específico aprovado para acelerar a recuperação do coração ou reduzir o risco de complicações a longo prazo.
De acordo com um estudo realizado em diversos países, inclusive no Brasil, o canabidiol (CBD), um dos compostos da Cannabis, pode ajudar a modular dois processos centrais na evolução da miocardite aguda.
Miocardite: quando o corpo ataca o coração
Na miocardite, o sistema imunológico reage de forma exagerada, provocando inflamação no músculo cardíaco. Esse processo pode causar dor no peito, falta de ar, arritmias e, em casos mais graves, insuficiência cardíaca.
Mesmo quando os sintomas iniciais desaparecem, a inflamação pode deixar alterações persistentes no coração, como inchaço, fibrose e mudanças estruturais. Essas alterações são conhecidas como remodelamento cardíaco e estão associadas a pior prognóstico no longo prazo.
Por isso, pesquisadores buscam terapias capazes de controlar a inflamação sem bloquear totalmente o sistema imunológico, permitindo uma recuperação mais equilibrada do tecido cardíaco.
Por que investigar o canabidiol em condições cardíacas

Estudos anteriores demonstraram que o CBD tem propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e antifibróticas. Em modelos animais, o canabidiol foi capaz de reduzir a infiltração de células inflamatórias no coração, diminuir o estresse oxidativo e limitar a formação de fibrose.
Esses resultados encorajaram os pesquisadores a investigar se esses efeitos também poderiam ocorrer em humanos com miocardite aguda, motivando a realização do ensaio clínico.
Como aconteceu o estudo
O estudo foi um ensaio clínico de fase 2, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, realizado em centros do Brasil, Estados Unidos, França e Israel. Participaram 109 pacientes adultos com diagnóstico recente de miocardite, confirmado por ressonância magnética cardíaca.
Os participantes foram divididos em dois grupos:
- • Um grupo recebeu CBD de grau farmacêutico;
- • O outro recebeu placebo.
Os pesquisadores adotaram um esquema de aumento gradual da dose, considerado fundamental para a segurança e adaptação do organismo. O tratamento começou com 2,5 mg/kg, duas vezes ao dia, com ajustes semanais até atingir a dose-alvo de 10 mg/kg, duas vezes ao dia, a partir da terceira semana.
Esse tipo de ajuste progressivo é comum em estudos clínicos com derivados da Cannabis e reflete a prática médica, na qual a dose costuma ser adaptada conforme a resposta do paciente. Essa estratégia melhora a tolerabilidade, reduz efeitos adversos e potencializa os benefícios terapêuticos.
Para avaliar os efeitos do canabidiol na miocardite, os cientistas utilizaram a ressonância magnética cardíaca, um dos métodos mais avançados para detectar inflamação e alterações estruturais no coração.
O que mudou no coração dos pacientes tratados com CBD
Ao final das 12 semanas, os pesquisadores observaram uma tendência consistente de redução do volume extracelular nos pacientes tratados com CBD. Na prática, isso sugere que o canabidiol pode ajudar a reduzir o inchaço e a inflamação do músculo cardíaco, mesmo em casos leves a moderados de miocardite.
Outro achado relevante foi a redução da massa do ventrículo esquerdo no grupo que recebeu o CBD. Na miocardite, o aumento dessa massa geralmente está relacionado ao edema intracelular, quando as células cardíacas ficam inchadas devido à inflamação. A diminuição da massa indica um retorno gradual a uma estrutura cardíaca mais próxima do normal.
Além disso, os pacientes tratados com canabidiol também apresentaram menor remodelamento do átrio esquerdo, um importante sinal de proteção estrutural do coração. Reverter esse processo é fundamental, pois o remodelamento cardíaco persistente está associado a maior risco de arritmias, insuficiência cardíaca e outras complicações futuras.
Como o canabidiol pode atuar na miocardite

De acordo com os autores, os efeitos observados do canabidiol na miocardite aguda podem estar relacionados a mecanismos já descritos em estudos anteriores, como:
- • Modulação da resposta imune, reduzindo a ativação excessiva de células inflamatórias;
- • Diminuição de citocinas inflamatórias, associadas ao dano cardíaco;
- • Redução do estresse oxidativo, que contribui para a morte de células do coração;
- • Limitação da fibrose, evitando cicatrização excessiva do tecido cardíaco.
A combinação desses efeitos ajuda a explicar por que o CBD pode favorecer uma recuperação mais equilibrada do coração após a inflamação.
Uso seguro de medicamentos à base de Cannabis
O estudo mostrou que o CBD foi bem tolerado, com efeitos adversos em sua maioria leves e semelhantes aos observados no grupo placebo. Não foram identificados eventos graves de segurança relacionados ao tratamento.
Este foi um dos primeiros estudos clínicos a investigar derivados da Cannabis como terapia direcionada para a miocardite aguda. Nesse sentido, os resultados reforçam a ideia de que o CBD é um poderoso aliado no controle da inflamação preservando o funcionamento do sistema imunológico.
Por fim, qualquer tratamento com medicamentos à base de Cannabis deve ter acompanhamento médico, com produtos de qualidade e monitoramento regular. Essa é a forma mais segura e responsável de fazer uso medicinal dos canabinoides.
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