Um relato clínico publicado no Journal of Clinical Images and Medical Case chamou a atenção de médicos e pesquisadores.
O estudo descreve o caso de um paciente com glioblastoma, um dos tumores cerebrais mais agressivos, que viveu por mais de dois anos após o diagnóstico utilizando uma combinação de tratamentos, incluindo o canabidiol (CBD).
Esse tempo de sobrevida representa mais que o dobro do esperado para pacientes com esse tipo de tumor.
Embora seja um caso isolado, os resultados levantam novas hipóteses sobre o potencial do uso dos compostos da Cannabis no tratamento do câncer.
O que é o glioblastoma e por que é tão agressivo
O glioblastoma é o tipo mais agressivo de tumor cerebral em adultos. Ele é difícil de tratar por algumas características:
- • Cresce muito rápido
- • Invade áreas importantes do cérebro
- • Resiste à quimioterapia
- • Costuma voltar mesmo após tratamento
De acordo com os autores, a sobrevida média dos pacientes é de 12 a 14 meses após o diagnóstico. Quando o tumor retorna, esse tempo pode cair para cerca de 5 a 6 meses.
Os primeiros sinais e o diagnóstico
O estudo acompanhou um homem de 46 anos que procurou atendimento médico após três semanas de sintomas como:
- • Dor de cabeça persistente
- • Problemas de memória
- • Confusão mental
- • Vômitos
Exames de imagem identificaram um tumor no cérebro. Pouco depois, ele passou por cirurgia para retirada parcial do tumor.
O pós-cirurgia e início do tratamento
Após a cirurgia, o paciente iniciou o tratamento padrão para glioblastoma, que inclui:
- • Radioterapia
- • Quimioterapia com temozolomida e lomustina
Junto ao tratamento convencional, os médicos orientaram o uso de CBD em cápsulas. O produto era à base de canabidiol isolado, na dose de 600 mg por dia, divididos em 3 tomadas de 200 mg após as refeições.
Inicialmente, os exames mostraram estabilidade e até redução parcial do tumor.

Quando o tumor voltou
Cerca de seis meses após a cirurgia, os sintomas voltaram.
Novos exames detectaram o surgimento de um novo tumor, indicando que o câncer havia retornado. Os autores pontuam que esse retorno é comum nesse tipo de câncer.
Nesse cenário, os médicos trocaram o tratamento principal pelo uso de bevacizumabe intravenoso. Esse medicamento age bloqueando a formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o tumor.
O CBD foi mantido na mesma dose (600 mg por dia).
Resultados surpreendentes ao longo do tempo
Após a mudança de tratamento:
- • O paciente permaneceu estável por mais de 25 meses
- • Não houve progressão significativa do tumor
- • Exames mostraram leve regressão das lesões
- • O paciente retomou atividades como dirigir, cuidar da casa e participar da vida social
Efeitos colaterais e ajustes no tratamento
O tratamento foi, em geral, bem tolerado. O principal efeito colateral foi o aumento da pressão arterial após o uso do bevacizumabe.
Um episódio de sangramento do tumor levou à suspensão do medicamento por 3 meses. Durante essa pausa, o CBD foi mantido. O quadro voltou a se estabilizar após a retomada do tratamento intravenoso.
Como o CBD pode atuar no organismo
Os pesquisadores sugerem que os dois tratamentos podem ter atuado juntos, potencializando seus efeitos.
Enquanto o bevacizumabe bloqueia a formação de vasos sanguíneos, o CBD pode agir de várias formas:
- • Pode reduzir o crescimento de células tumorais
- • Pode estimular a morte programada de células cancerígenas
- • Diminui a formação de novos vasos sanguíneos
- • Pode aumentar substâncias que combatem o tumor (como a ceramida)
- • Pode causar danos por estresse oxidativo nas células cancerígenas
Além disso, há a hipótese de que o CBD pode ajudar a reduzir a resistência ao bevacizumabe, prolongando sua eficácia.
Uso de medicamentos à base de Cannabis no Brasil
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores alertam que se trata de apenas um paciente. Portanto, não é possível afirmar que o mesmo efeito ocorrerá em outros casos e ensaios clínicos maiores são necessários.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis sob prescrição médica, incluindo produtos ricos em CBD.
Ainda não existem evidências suficientes para o uso de canabinoides como tratamento direto contra o câncer.
Por outro lado, já está bem estabelecido que derivados da Cannabis ajudam pacientes com câncer a lidar melhor com os efeitos colaterais, como náuseas, falta de apetite e dores.
Então, se você ou alguém próximo deseja incluir canabinoides na rotina de cuidado, busque orientação profissional. Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.