Um estudo com dois relatos clínicos publicado na revista Case Reports in Dentistry descreve como duas mulheres brasileiras com dor neuropática trigeminal apresentaram melhora após o uso de medicamentos à base de Cannabis.
Os pesquisadores acompanharam duas pacientes atendidas na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP/USP), ambas sem resposta satisfatória aos tratamentos convencionais.
Ao longo de oito semanas, elas utilizaram uma formulação sublingual contendo THC e CBD em proporção equilibrada 1:1. Os pesquisadores observaram redução importante da dor, melhora nas atividades do dia a dia e avanços na qualidade de vida.
O trabalho também chama a atenção pelo uso de tecnologia de imagem 3D para medir áreas de hipersensibilidade na face.
Neuralgia do trigêmeo e dor neuropática trigeminal: entenda a diferença
A neuralgia do trigêmeo ganhou visibilidade recentemente e ficou conhecida como “a pior dor do mundo”. Ela é caracterizada por crises curtas e extremamente intensas de dor e choques. Esses episódios costumam durar segundos ou minutos, enquanto os intervalos entre as crises tendem a ser relativamente sem dor.
Já a dor neuropática trigeminal, condição observada nas pacientes do estudo, costuma apresentar um padrão diferente. Além dos choques, os pacientes convivem com dor contínua ou persistente. A região afetada pode se tornar sensível ao toque, ao frio e a estímulos que normalmente não causariam dor.
De acordo com os pesquisadores, essa condição geralmente surge após:
- • Procedimentos odontológicos;
- • Cirurgias;
- • Traumas;
- • Infecções;
- • Ou causas desconhecidas.
Na prática clínica, as duas condições podem se sobrepor. É possível que um paciente descreva crises típicas da neuralgia do trigêmeo que evoluem para um quadro de dor neuropática persistente.

A primeira paciente: dor começou após tratamentos dentários
A primeira paciente tinha 45 anos e desenvolveu dor persistente após uma sequência de procedimentos odontológicos. Ela passou por um tratamento malsucedido, extração dentária e levantamento do seio maxilar para colocação de implante.
Os sintomas começaram sete meses antes do estudo e ela descrevia:
- • Dor intensa;
- • Sensação de queimadura;
- • Formigamento;
- • Dormência.
Na Escala Visual Analógica (VAS), sua dor no início do estudo era 9 em uma escala de 0 a 10.
Antes do uso de medicamentos à base de Cannabis, a paciente já havia tentado diferentes abordagens sem melhora significativa:
- • Pregabalina;
- • Dexametasona;
- • Lidocaína tópica;
- • Amitriptilina tópica;
Mesmo utilizando carbamazepina, sertralina e amitriptilina continuamente, a dor permanecia incapacitante.
Como começou o tratamento com THC e CBD
A equipe médica iniciou o tratamento utilizando um extrato sublingual contendo:
- • 20 mg/mL de THC;
- • 20 mg/mL de CBD.
Cada gota fornecia aproximadamente:
- • 2,5 mg de THC;
- • 2,5 mg de CBD.
O tratamento começou com uma gota por dia. A dose foi aumentada gradualmente até atingir 10 gotas diárias, divididas em duas tomadas, uma pela manhã e uma à noite.
Durante a fase de ajuste, a paciente apresentou tontura, sonolência e aumento do apetite. Para facilitar a adaptação ao tratamento, os pesquisadores reorganizaram as doses:
- • 4 gotas pela manhã;
- • 6 gotas à noite.
Após o ajuste, os efeitos adversos ficaram mais fáceis de lidar.
Redução gradual da dor
Ao longo de oito semanas, os pesquisadores observaram redução gradual da dor:
- • VAS 9 no início;
- • VAS 8 na quarta semana;
- • VAS 6 durante o acompanhamento intermediário;
- • VAS 4 ao final do estudo.
A paciente relatou que os episódios de choque passaram gradualmente a dar lugar a uma dor em queimação, considerada menos incapacitante por ela.

A segunda paciente: mais de cinco anos de dor
O segundo caso envolveu uma mulher de 50 anos que sentia dores intensas nas regiões maxilar e mandibular há mais de cinco anos.
Ela descrevia choques, formigamento, sensação de alfinetadas e crises ao movimentar a mandíbula. Sua dor no início do estudo era máxima: VAS 10.
Mesmo utilizando altas doses de carbamazepina, os sintomas permaneciam.
Ajuste até 12 gotas
A segunda paciente seguiu o mesmo protocolo de aumento gradual da dose, iniciando com uma gota diária e aumentando progressivamente até chegar ao máximo de 12 gotas por dia.
A dose ficou estabelecida em:
- • 6 gotas pela manhã;
- • 6 gotas à noite.
O principal efeito adverso relatado foi sonolência, considerado tolerável.
Segundo os pesquisadores, uma das mudanças mais relevantes foi a alteração na forma como a paciente sentia a dor. Os choques deram lugar a uma dor mais contínua e menos incapacitante.
Sua pontuação de dor caiu de 10 para 2.
Imagem 3D mostrou redução da hipersensibilidade
Uma inovação do estudo foi o uso de uma técnica chamada estereofotogrametria facial 3D. A tecnologia permitiu mapear a hipersensibilidade da face e as áreas onde havia mais dor.
Na segunda paciente a área de hipersensibilidade no início do estudo era de 113,72 cm² e caiu para 27,54 cm² após oito semanas.
A paciente relatou que voltou a:
- • Abrir a boca sem desencadear choques;
- • Mastigar com mais conforto;
- • Escovar os dentes com menos dor.
Como os canabinoides podem atuar na dor
Os autores explicam que os benefícios observados provavelmente envolvem múltiplos mecanismos.
O THC atua principalmente nos receptores CB1 do sistema endocanabinoide. Essa interação diminuiria a transmissão de sinais dolorosos associados às crises de choque.
Já o CBD interage indiretamente com o CB1 e com outras estruturas, como canais de cálcio, receptores serotoninérgicos e TRPV.
De acordo com os pesquisadores, a combinação de THC e CBD pode produzir efeitos complementares:
- • O THC contribui para analgesia;
- • O CBD ajuda a regular a inflamação e a sensibilidade dos nervos;
- • O CBD também pode amenizar os efeitos psicoativos do THC.
O que aconteceu após o fim do tratamento
Após oito semanas de acompanhamento, as duas pacientes passaram por retirada gradual da medicação à base de Cannabis. A suspensão foi feita lentamente, com redução aproximada de 25 mg a cada cinco dias até a interrupção completa.
Nenhuma delas apresentou sintomas de abstinência. Mesmo após a suspensão, a primeira paciente manteve melhora clínica e estabilidade da qualidade de vida. A segunda permaneceu sem dor por cerca de 15 dias e, posteriormente, apresentou crises esporádicas em uma região do lábio.
Uso seguro de medicamentos à base de Cannabis
Apesar dos resultados promissores, os autores reforçam que o estudo foi apenas em duas pacientes. Novas análises são necessárias para confirmar esses benefícios em grupos maiores e controlados por placebo.
Ainda assim, os casos reforçam o potencial terapêutico dos compostos da Cannabis em pacientes com dores severas, inclusive naqueles resistentes aos tratamentos convencionais.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis sob prescrição médica.
Se você ou alguém próximo deseja iniciar um tratamento com derivados da planta, busque orientação profissional.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.