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Dor neuropática trigeminal melhora com Cannabis medicinal, diz estudo

Dor neuropática trigeminal melhora com Cannabis medicinal, diz estudo

Estudo brasileiro mostrou que THC e CBD ajudaram duas pacientes com dor neuropática trigeminal resistente aos tratamentos convencionais

Publicado em

14 de maio de 2026

• Revisado por

Jornalista e editor especializado em Comunicação e Saúde, pós-graduando em Drogas, Sociedade e Práticas Educativas. Escreve sobre ciência e sobre o uso da Cannabis na saúde humana e animal. É também fundador da Editora Vista Chinesa, onde publicou livros como “A História da Cannabis em Quadrinhos” e “Mila”.

Dor neuropática trigeminal melhora com Cannabis medicinal

Um estudo com dois relatos clínicos publicado na revista Case Reports in Dentistry descreve como duas mulheres brasileiras com dor neuropática trigeminal apresentaram melhora após o uso de medicamentos à base de Cannabis.

Os pesquisadores acompanharam duas pacientes atendidas na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP/USP), ambas sem resposta satisfatória aos tratamentos convencionais.

Ao longo de oito semanas, elas utilizaram uma formulação sublingual contendo THC e CBD em proporção equilibrada 1:1. Os pesquisadores observaram redução importante da dor, melhora nas atividades do dia a dia e avanços na qualidade de vida.

O trabalho também chama a atenção pelo uso de tecnologia de imagem 3D para medir áreas de hipersensibilidade na face.

Neuralgia do trigêmeo e dor neuropática trigeminal: entenda a diferença

A neuralgia do trigêmeo ganhou visibilidade recentemente e ficou conhecida como “a pior dor do mundo”. Ela é caracterizada por crises curtas e extremamente intensas de dor e choques. Esses episódios costumam durar segundos ou minutos, enquanto os intervalos entre as crises tendem a ser relativamente sem dor.

Já a dor neuropática trigeminal, condição observada nas pacientes do estudo, costuma apresentar um padrão diferente. Além dos choques, os pacientes convivem com dor contínua ou persistente. A região afetada pode se tornar sensível ao toque, ao frio e a estímulos que normalmente não causariam dor.

De acordo com os pesquisadores, essa condição geralmente surge após:

  • • Procedimentos odontológicos;
  • • Cirurgias;
  • • Traumas;
  • • Infecções;
  • • Ou causas desconhecidas.

Na prática clínica, as duas condições podem se sobrepor. É possível que um paciente descreva crises típicas da neuralgia do trigêmeo que evoluem para um quadro de dor neuropática persistente.

Cannabis odonto

A primeira paciente: dor começou após tratamentos dentários

A primeira paciente tinha 45 anos e desenvolveu dor persistente após uma sequência de procedimentos odontológicos. Ela passou por um tratamento malsucedido, extração dentária e levantamento do seio maxilar para colocação de implante.

Os sintomas começaram sete meses antes do estudo e ela descrevia:

  • • Dor intensa;
  • • Sensação de queimadura;
  • • Formigamento;
  • • Dormência.

Na Escala Visual Analógica (VAS), sua dor no início do estudo era 9 em uma escala de 0 a 10.

Antes do uso de medicamentos à base de Cannabis, a paciente já havia tentado diferentes abordagens sem melhora significativa:

  • • Pregabalina;
  • • Dexametasona;
  • • Lidocaína tópica;
  • • Amitriptilina tópica;

Mesmo utilizando carbamazepina, sertralina e amitriptilina continuamente, a dor permanecia incapacitante.

Como começou o tratamento com THC e CBD

A equipe médica iniciou o tratamento utilizando um extrato sublingual contendo:

  • 20 mg/mL de THC;
  • 20 mg/mL de CBD.

Cada gota fornecia aproximadamente:

  • 2,5 mg de THC;
  • 2,5 mg de CBD.

O tratamento começou com uma gota por dia. A dose foi aumentada gradualmente até atingir 10 gotas diárias, divididas em duas tomadas, uma pela manhã e uma à noite.

Durante a fase de ajuste, a paciente apresentou tontura, sonolência e aumento do apetite. Para facilitar a adaptação ao tratamento, os pesquisadores reorganizaram as doses:

  • • 4 gotas pela manhã;
  • • 6 gotas à noite.

Após o ajuste, os efeitos adversos ficaram mais fáceis de lidar.

Redução gradual da dor

Ao longo de oito semanas, os pesquisadores observaram redução gradual da dor:

  • VAS 9 no início;
  • VAS 8 na quarta semana;
  • VAS 6 durante o acompanhamento intermediário;
  • VAS 4 ao final do estudo.

A paciente relatou que os episódios de choque passaram gradualmente a dar lugar a uma dor em queimação, considerada menos incapacitante por ela.

A segunda paciente: mais de cinco anos de dor

O segundo caso envolveu uma mulher de 50 anos que sentia dores intensas nas regiões maxilar e mandibular há mais de cinco anos.

Ela descrevia choques, formigamento, sensação de alfinetadas e crises ao movimentar a mandíbula. Sua dor no início do estudo era máxima: VAS 10.

Mesmo utilizando altas doses de carbamazepina, os sintomas permaneciam.

Ajuste até 12 gotas

A segunda paciente seguiu o mesmo protocolo de aumento gradual da dose, iniciando com uma gota diária e aumentando progressivamente até chegar ao máximo de 12 gotas por dia.

A dose ficou estabelecida em:

  • • 6 gotas pela manhã;
  • • 6 gotas à noite.

O principal efeito adverso relatado foi sonolência, considerado tolerável.

Segundo os pesquisadores, uma das mudanças mais relevantes foi a alteração na forma como a paciente sentia a dor. Os choques deram lugar a uma dor mais contínua e menos incapacitante.

Sua pontuação de dor caiu de 10 para 2.

Imagem 3D mostrou redução da hipersensibilidade

Uma inovação do estudo foi o uso de uma técnica chamada estereofotogrametria facial 3D. A tecnologia permitiu mapear a hipersensibilidade da face e as áreas onde havia mais dor.

Na segunda paciente a área de hipersensibilidade no início do estudo era de 113,72 cm² e caiu para 27,54 cm² após oito semanas.

A paciente relatou que voltou a:

  • • Abrir a boca sem desencadear choques;
  • • Mastigar com mais conforto;
  • • Escovar os dentes com menos dor.

Como os canabinoides podem atuar na dor

Os autores explicam que os benefícios observados provavelmente envolvem múltiplos mecanismos.

O THC atua principalmente nos receptores CB1 do sistema endocanabinoide. Essa interação diminuiria a transmissão de sinais dolorosos associados às crises de choque.

Já o CBD interage indiretamente com o CB1 e com outras estruturas, como canais de cálcio, receptores serotoninérgicos e TRPV.

De acordo com os pesquisadores, a combinação de THC e CBD pode produzir efeitos complementares:

  • • O THC contribui para analgesia;
  • • O CBD ajuda a regular a inflamação e a sensibilidade dos nervos;
  • • O CBD também pode amenizar os efeitos psicoativos do THC.

O que aconteceu após o fim do tratamento

Após oito semanas de acompanhamento, as duas pacientes passaram por retirada gradual da medicação à base de Cannabis. A suspensão foi feita lentamente, com redução aproximada de 25 mg a cada cinco dias até a interrupção completa.

Nenhuma delas apresentou sintomas de abstinência. Mesmo após a suspensão, a primeira paciente manteve melhora clínica e estabilidade da qualidade de vida. A segunda permaneceu sem dor por cerca de 15 dias e, posteriormente, apresentou crises esporádicas em uma região do lábio.

Uso seguro de medicamentos à base de Cannabis

Apesar dos resultados promissores, os autores reforçam que o estudo foi apenas em duas pacientes. Novas análises são necessárias para confirmar esses benefícios em grupos maiores e controlados por placebo.

Ainda assim, os casos reforçam o potencial terapêutico dos compostos da Cannabis em pacientes com dores severas, inclusive naqueles resistentes aos tratamentos convencionais.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis sob prescrição médica.

Se você ou alguém próximo deseja iniciar um tratamento com derivados da planta, busque orientação profissional.

Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.

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