Pacientes com síndrome de Ehlers-Danlos e condições relacionadas à hipermobilidade apresentaram melhora sustentada da dor, do sono e da qualidade de vida após dois anos de tratamento com medicamentos à base de Cannabis.
Os dados são de um estudo publicado na revista Clinical Rheumatology, baseado em informações do UK Medical Cannabis Registry, um dos maiores bancos de dados sobre Cannabis medicinal do Reino Unido.
A pesquisa acompanhou 240 pacientes com dor crônica associada à hipermobilidade e encontrou resultados significativos. Além disso, os pesquisadores observaram uma redução no uso de opioides ao longo do acompanhamento.
De acordo com os autores, este é o maior e mais longo estudo já realizado sobre o uso de derivados da Cannabis em pessoas com síndrome de Ehlers-Danlos e outras condições em que as articulações têm amplitude maior que a média.
Condições genéticas marcadas por hipermobilidade e dor
A síndrome de Ehlers-Danlos é um grupo de doenças hereditárias que afetam o tecido que dá sustentação à pele, articulações, vasos sanguíneos e diversos órgãos.
Entre os sintomas mais comuns estão articulações excessivamente flexíveis, luxações frequentes e fadiga. A dor crônica generalizada também é frequente e afeta cerca de 90% dos pacientes, segundo os autores do estudo.
Em muitos casos, os tratamentos convencionais não oferecem alívio suficiente, o que leva pesquisadores e médicos a buscarem novas alternativas terapêuticas.

60% dos participantes relatou melhora da dor
O principal objetivo do estudo foi avaliar se o tratamento com medicamentos à base de Cannabis poderia influenciar a dor e a qualidade de vida desses pacientes ao longo do tempo.
Para isso, os participantes responderam questionários padronizados antes do início do tratamento e novamente após 1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses.
Os resultados mostraram melhora significativa em todas as principais escalas de dor avaliadas.
Após dois anos de acompanhamento:
- • 61% dos pacientes apresentaram melhora clinicamente relevante no impacto da dor sobre as atividades diárias;
- • 56% tiveram redução clinicamente importante na intensidade da dor;
- • 60% alcançaram melhora significativa na escala visual de dor;
- • 47% apresentaram melhora relevante em uma escala que avalia diferentes características da dor, incluindo componentes neuropáticos e emocionais.
Na prática, mostra que mais da metade dos participantes relatou uma redução da dor suficientemente grande para ser percebida no dia a dia.
Os resultados também mostraram melhora da qualidade do sono durante o acompanhamento. Houve ainda melhora nos indicadores gerais de qualidade de vida relacionados à saúde.
Os pacientes também relataram melhora na ansiedade, especialmente durante os primeiros meses de tratamento.
Os autores sugerem que os efeitos do uso medicinal da Cannabis sobre a dor, sono e ansiedade podem atuar de forma conjunta, contribuindo para uma melhora global do bem-estar.
Uso de opioides diminuiu durante o acompanhamento
Outro resultado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a diminuição das doses de opioides prescritos aos pacientes.
Os opioides são frequentemente utilizados para tratar dor intensa. No entanto, o uso prolongado pode estar associado a efeitos colaterais importantes e ao risco de dependência.
No estudo, foram observadas reduções das doses prescritas após 12, 18 e 24 meses de acompanhamento.
Os resultados reforçam a necessidade de investigar melhor o potencial dos derivados da Cannabis como estratégia complementar para reduzir a dependência de opioides em pacientes com dor crônica.
Como os pacientes utilizaram os medicamentos à base de Cannabis
Os participantes receberam diferentes medicamentos à base de Cannabis prescritos por médicos. A maioria utilizou óleos de uso oral.
As formulações continham diferentes concentrações de canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC). Durante o acompanhamento, as doses foram ajustadas individualmente de acordo com a resposta clínica e a capacidade de cada paciente de tolerar o tratamento.

Efeitos colaterais leves
Ao longo do estudo, 25% dos participantes relataram algum efeito colateral. Segundo os autores, a maioria dos eventos foi classificada como leve ou moderada. As queixas mais frequentes foram dor de cabeça, fadiga, sonolência e boca seca.
Pacientes com mais de 50 anos tinham maior probabilidade de relatar efeitos colaterais durante o acompanhamento.
Evidências do mundo real reforçam potencial terapêutico
Os resultados oferecem evidências do mundo real sobre o uso de medicamentos à base de Cannabis em pacientes com síndrome de Ehlers-Danlos e condições relacionadas à hipermobilidade.
De acordo com os pesquisadores, as melhorias observadas na dor, sono, ansiedade e qualidade de vida sugerem que os produtos derivados da Cannabis podem representar uma opção terapêutica promissora para essa população.
Como acessar o tratamento no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica.
Portanto, se você ou alguém próximo deseja incluir derivados da planta na sua rotina de cuidado, busque orientação profissional.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de tratamento.