Nos últimos anos, cresce o número de evidências científicas que apoiam o uso de medicamentos à base de Cannabis no tratamento de condições ginecológicas. Estudos apontam benefícios no controle de sintomas relacionados à dor pélvica crônica, endometriose e menstruação. Agora, um ensaio clínico amplia esse debate ao investigar os efeitos do canabidiol (CBD) tópico no tratamento da vestibulodínia, a forma mais comum de vulvodínia.
A pesquisa, publicada na revista científica Biomedicines, avaliou a eficácia e a segurança de um gel com CBD a 5% associado ao mirceno, aplicado diretamente na região afetada. Os resultados indicam redução significativa dos sintomas, especialmente da dor, sem a ocorrência de efeitos adversos relevantes.
Por que a vulvodínia é tão difícil de tratar
A vulvodínia é uma condição caracterizada por dor crônica na genitália feminina, sem causa identificável, com duração mínima de três meses. A dor costuma ser descrita como ardor, queimação, irritação ou sensação de ferida aberta, impactando profundamente a qualidade de vida e a saúde sexual.
A forma mais comum é a vestibulodínia, em que a dor se concentra no vestíbulo vulvar, área ao redor da entrada da vagina. Os sintomas geralmente são desencadeados por estímulos simples, como toque, uso de absorventes internos, roupas apertadas ou relações sexuais.

Por envolver mecanismos de dor neuropática e inflamatória, a vulvodínia responde mal aos tratamentos convencionais, como anestésicos locais ou anti-inflamatórios. Esse desafio terapêutico ajuda a explicar o interesse por novas abordagens, como os medicamentos à base de Cannabis.
O estudo com CBD tópico
O estudo Efficacy and Safety of Topical 5% Cannabidiol Plus Myrcene for the Treatment of Vestibulodynia: A Multi-Centric Randomized Controlled Trial foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em dois centros hospitalares na Itália. Participaram 40 mulheres em idade reprodutiva, todas diagnosticadas com vestibulodínia há pelo menos seis meses.
As voluntárias foram divididas em dois grupos:
- • Um grupo recebeu um gel tópico com CBD a 5% associado ao terpeno mirceno;
- • O outro grupo recebeu um placebo.
Durante 60 dias, as participantes aplicaram o gel uma vez ao dia, sempre antes de dormir. A formulação testada foi um oleogel anidro, ou seja, sem água, sem pH e sem conservantes. Esse tipo de veículo foi desenvolvido especificamente para uso ginecológico, com alta capacidade de adesão à mucosa, o que prolonga o contato do CBD com o tecido e melhora sua absorção local.
Resultados: menos dor e mais qualidade de vida
Após 60 dias de tratamento, ambos os grupos apresentaram melhora dos sintomas. No entanto, o grupo tratado com CBD e mirceno apresentou resultados superiores, especialmente na redução da dor durante as relações sexuais.
Entre os principais achados do estudo clínico estão:
- • Redução da dor vulvar;
- • Diminuição da sensibilidade ao toque;
- • Melhora da dor durante a relação sexual.
Além disso, não houve efeitos colaterais relatados, e nenhuma participante abandonou o estudo ao longo do acompanhamento.
Mirceno: o terpeno que potencializa o CBD
O mirceno é um terpeno, composto aromático encontrado em diversas plantas, inclusive em algumas variedades de Cannabis. Ele é conhecido pelo aroma terroso, com notas adocicadas, e também está presente em alimentos e ervas bastantes comuns, como:
- • Manga
- • Tomilho
- • Manjericão
Estudos anteriores mostraram que o mirceno possui propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e relaxantes. No contexto do tratamento da vulvodínia, ele ajudaria a diminuir a resposta exagerada dos nervos à dor. De acordo com os pesquisadores, a associação entre CBD e mirceno pode gerar um efeito sinérgico, em que os compostos atuam de forma complementar.
Como o CBD e o mirceno atuam na vulvodínia

A dor associada à vulvodínia envolve alterações nos nervos locais, inflamação persistente e ativação excessiva de receptores sensoriais. Nesse sentido, o estudo descreve diferentes mecanismos que ajudam a explicar os efeitos terapêuticos do CBD e do mirceno.
O CBD possui propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e moduladoras da dor neuropática. Na vestibulodínia, o canabidiol atua principalmente sobre os canais TRPV1, receptores presentes nas fibras nervosas responsáveis pela percepção da dor e do calor. Ao dessensibilizar esses canais, o canabinoide reduz a intensidade dos estímulos dolorosos.
Além disso, o CBD influencia células inflamatórias locais, como os mastócitos, diminuindo a liberação de citocinas pró-inflamatórias e contribuindo para um ambiente mais equilibrado nos tecidos vulvares.
O mirceno, por sua vez, reduz a excitabilidade dos nervos periféricos, potencializa o efeito analgésico do CBD e auxilia no controle da inflamação local.
Essa combinação é especialmente promissora para o tratamento da vulvodínia, classificada como dor neuropática localizada, que tende a responder melhor a tratamentos tópicos do que a medicamentos de ação sistêmica.
Uso de medicamentos à base de Cannabis exige acompanhamento médico
Os resultados do estudo são promissores e abrem caminho para pesquisas maiores e com acompanhamento mais longo. Embora os dados indiquem segurança e eficácia, os pesquisadores reforçam que o uso de medicamentos à base de Cannabis deve sempre ocorrer com orientação médica.
Um tratamento adequado exige avaliação clínica individualizada, escolha correta da formulação e monitoramento contínuo da resposta terapêutica. Por isso, caso tenha interesse em incluir derivados da planta no tratamento de qualquer condição de saúde, acesse a nossa plataforma de agendamento e marque uma consulta. Lá, você tem acesso a profissionais experientes nesse tipo de abordagem, preparados para garantir segurança, eficácia e resultados terapêuticos.














