Uma revisão sistemática publicada na revista científica Molecules reuniu estudos sobre o uso do canabidiol (CBD), um composto da Cannabis, no tratamento da acne.
Os resultados indicam que o composto pode agir sobre processos envolvidos no desenvolvimento da doença, principalmente a inflamação e a produção excessiva de sebo.
No entanto, os dados mais consistentes vieram de experimentos realizados em células e tecidos. Por isso, os achados ainda não permitem afirmar que o CBD possa substituir os tratamentos já utilizados contra a acne.
Como o CBD pode atuar sobre a acne
Os pesquisadores sul-africanos analisaram estudos sobre o CBD isolado e sobre extratos de cânhamo ricos em CBD que também continham outros canabinoides. As análises deram atenção especial aos possíveis efeitos anti-inflamatórios e sebostáticos.
O efeito sebostático corresponde à capacidade de reduzir ou normalizar a produção de sebo pelas glândulas sebáceas. Em excesso, o sebo pode favorecer a obstrução dos poros e contribuir para a formação de lesões da acne.
Porque a acne vai além de um problema estético
A acne não é apenas um contratempo estético. Trata-se de uma doença inflamatória que afeta a unidade formada pelo folículo piloso e pela glândula responsável pela produção de sebo.
A oleosidade excessiva, a obstrução dos folículos e alterações na renovação das células da pele contribuem para o desenvolvimento da acne. A resposta imunológica e a bactéria Cutibacterium acnes também participam desse processo.
Além disso, a acne é uma condição extremamente comum. Uma revisão feita pelo projeto Global Burden of Disease estimou que a doença afeta cerca de 9% da população mundial, o que a coloca entre as condições mais prevalentes do mundo, na oitava posição.
Nesse contexto, substâncias capazes de atuar sobre mais de um mecanismo envolvido na acne despertam interesse científico. De acordo com a revisão, o CBD pode interferir tanto na resposta inflamatória quanto na produção de sebo.
Essa atuação em diferentes mecanismos ajuda a explicar por que o canabidiol vem sendo investigado como possível ingrediente de produtos dermatológicos.
O que os estudos encontraram
Após o processo de seleção, 13 estudos clínicos e pré-clínicos foram incluídos na análise.
Nos experimentos laboratoriais, o CBD reduziu a ação de substâncias associadas à inflamação e ajudou a normalizar o funcionamento dos sebócitos, as células responsáveis pela produção de sebo.
Alguns estudos clínicos também relataram diminuição das lesões inflamatórias, vermelhidão e oleosidade após o uso de produtos tópicos contendo CBD.
Um dos trabalhos mencionados na revisão observou uma redução de aproximadamente 40% no número de lesões após 12 semanas.
É importante destacar, porém, que muitas das formulações continham outros componentes que também podem atuar contra a acne. Por isso, não é possível atribuir exclusivamente ao CBD os benefícios observados.

O papel do sistema endocanabinoide na saúde da pele
Os efeitos observados do CBD sobre a pele podem estar relacionados à interação do canabinoide com o sistema endocanabinoide e com diferentes alvos associados a essa rede.
O sistema endocanabinoide ajuda o organismo a manter o equilíbrio de diferentes funções. Ele ficou conhecido principalmente por sua presença no sistema nervoso, mas também está presente na pele.
De acordo com o estudo, componentes desse sistema podem ser encontrados em células da epiderme, glândulas sebáceas, folículos pilosos, nervos sensoriais e glândulas sudoríparas.
Na pele, o sistema endocanabinoide participa de processos como:
- • Produção de lipídios;
- • Atividade de glândulas sebáceas;
- • Multiplicação das células;
- • Morte celular programada;
- • Resposta inflamatória;
- • Manutenção do equilíbrio da barreira cutânea.
O CBD pode interagir com diferentes alvos ligados a essa rede de sinalização. Entre eles estão os receptores CB1 e CB2, os canais TRPV1 e TRPV4 e o receptor PPAR gama.
De acordo com os mecanismos reunidos pela revisão, a atuação do CBD sobre esses alvos pode influenciar a produção de sebo, a multiplicação dos sebócitos e a liberação de substâncias inflamatórias.
O CBD pode reduzir inflamação e oleosidade?
Os estudos analisados indicam que o CBD pode reduzir a ação ou a produção de substâncias inflamatórias, como TNF-alfa, IL-1 beta, IL-6 e IL-8.
Essas substâncias são proteínas que permitem a comunicação entre as células durante a resposta imunológica. Quando produzidas em excesso, podem contribuir para a vermelhidão, o inchaço e a inflamação das lesões.
Os pesquisadores também observaram efeitos sobre as vias NF-kappa B e MAPK, sistemas internos de comunicação celular que ajudam a controlar a produção de substâncias inflamatórias.
Em modelos com sebócitos humanos, o CBD reduziu a produção de lipídios e a multiplicação dessas células. Com isso, o composto poderia atuar sobre um dos principais fatores associados à acne: o excesso de sebo.
O CBD age contra a bactéria associada à acne?
A Cutibacterium acnes faz parte do conjunto de microrganismos que vivem naturalmente na superfície da pele. Em algumas condições, ela pode participar da inflamação associada à acne.
Os estudos laboratoriais incluídos na revisão sugerem que o CBD pode diminuir a resposta inflamatória provocada pela bactéria e interferir na produção de biofilmes.
Os resultados laboratoriais são promissores, mas ainda são necessários mais estudos para comprovar a ação antimicrobiana do CBD contra a C. acnes.

A importância da formulação
Na revisão, os estudos clínicos analisados avaliaram produtos à base de CBD aplicados diretamente sobre a pele, em formulações como cremes, géis ou emulsões.
Uma vez na pele, o CBD pode interagir com células e alvos relacionados à inflamação, à produção de sebo e ao sistema endocanabinoide.
No entanto, a simples presença de canabidiol na fórmula não garante que ele alcance as camadas da pele na quantidade necessária.
O tipo de base usado na formulação pode alterar significativamente o resultado. Esse veículo é a base que transporta o ingrediente ativo e pode ser um creme, um gel ou outro sistema de aplicação. Sua composição influencia a eficácia do produto.
Pesquisadores vêm estudando tecnologias como nanoemulsões, carreadores lipídicos e adesivos transdérmicos para facilitar a chegada do CBD às camadas da pele.
Segundo a revisão, essas tecnologias podem favorecer uma ação local mais prolongada, com pouca absorção pelo restante do organismo.
Os resultados obtidos com formulações nanoencapsuladas foram promissores. No entanto, as pesquisas nessa área ainda estão em fase inicial.
CBD ainda não substitui tratamentos convencionais
Os resultados do estudo não justificam a interrupção dos tratamentos convencionais contra a acne para a utilização de produtos com CBD.
De acordo com a revisão, formulações tópicas com concentrações definidas do canabinoide podem ser investigadas como um possível recurso complementar para a acne inflamatória leve ou moderada.
Os autores defendem a realização de ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo. Outra prioridade seria comparar diferentes veículos, como géis, cremes, emulsões e sistemas com nanopartículas.
Produtos à base de CBD no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis mediante prescrição médica.
Em 2026, a Anvisa atualizou a regulamentação e passou a permitir a venda de produtos tópicos à base de CBD em drogarias. Porém, ainda não existem formulações específicas para o tratamento da acne disponíveis em território nacional.
Outra possibilidade é a importação regulamentada pela Anvisa, que oferece acesso a uma maior diversidade de produtos e vias de administração.
Em ambos os casos, a orientação profissional é essencial. A avaliação individual segue sendo uma etapa fundamental para garantir que o tratamento seja seguro e eficaz.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.