Quando se fala em canabidiol (CBD), as primeiras associações costumam ser com medicamentos e tratamentos de saúde. No entanto, o CBD também começa a aparecer em pesquisas de outras áreas.
Neste Dia Internacional da Fruta, celebrado em 1º de julho, apresentamos os resultados de uma pesquisa que utilizou extratos de Cannabis ricos em CBD na conservação de frutas.
Os resultados foram publicados na revista científica Molecules. Os cientistas desenvolveram embalagens biodegradáveis com extratos de Cannabis e as utilizaram para armazenar framboesas e mirtilos liofilizados.
Durante o armazenamento, as embalagens ajudaram a preservar compostos presentes nas frutas e a reduzir a presença de alguns microrganismos.
Como uma embalagem pode ajudar a proteger alimentos
O Dia Internacional da Fruta foi criado pela Organização Mundial da Saúde para incentivar uma alimentação balanceada e prevenir doenças crônicas.
A relação entre CBD e frutas está principalmente nas propriedades antioxidantes e antimicrobianas atribuídas aos compostos da Cannabis.
A oxidação pode provocar mudanças na cor, no sabor e na composição dos alimentos.
Ao mesmo tempo, fungos e bactérias podem comprometer a qualidade dos produtos e acelerar sua deterioração.
Por isso, pesquisadores têm investigado as chamadas embalagens ativas. Diferente de um invólucro convencional, que apenas separa o produto do ambiente externo, essas embalagens exercem uma função adicional. Elas recebem substâncias capazes de ajudar diretamente na proteção do alimento.

Imagens das framboesas (A, B) e mirtilos (C, D) armazenados a -17 °C após 8 semanas (A, C) e a -15 °C após 8 semanas (B, D)
No estudo com CBD e frutas, a proposta foi incorporar o extrato a um bioplástico. O material deveria, ao mesmo tempo, embalar as frutas e ajudar a limitar processos relacionados à oxidação e à multiplicação de microrganismos.
O CBD representava aproximadamente 86% dos compostos presentes no extrato acrescentado à embalagem. A formulação também continha pequenas quantidades de THC, outros canabinoides e terpenos.
Como foi produzida a embalagem com Cannabis
Os pesquisadores produziram uma película a partir de pectina cítrica e goma gelana.
A pectina é um composto encontrado naturalmente nas paredes celulares de frutas e vegetais. Já a goma gelana é um ingrediente obtido por meio de fermentação.
Ambos são utilizados na indústria alimentícia como espessante, ajudando a dar uma textura mais firme aos alimentos.
No estudo, esses componentes serviram como base para a estrutura da embalagem. Em seguida, os cientistas acrescentaram diferentes concentrações do extrato de Cannabis.
Eles produziram seis formulações: uma sem o extrato, utilizada como controle, e cinco com concentrações cada vez maiores. Depois, os filmes foram usados para embalar framboesas e mirtilos liofilizados.
Ao longo do experimento, os pesquisadores avaliaram características como resistência, elasticidade, absorção de água, atividade antioxidante e presença de microrganismos nas frutas.

Imagens de framboesas (A) embaladas e de mirtilos (B) embalados.
Por que os pesquisadores escolheram frutas liofilizadas
A liofilização é uma técnica de conservação na qual a fruta tem grande parte de sua água retirada sob baixa pressão e temperatura.
O processo ajuda a manter características como sabor, aroma, cor e parte dos nutrientes.
De acordo com os autores do estudo, frutas liofilizadas costumam ter baixa umidade e alta porosidade, muitos espaços vazios em sua estrutura. Essa estrutura facilitaria a oxidação.
Por isso, os pesquisadores analisaram se as framboesas e mirtilos liofilizados ficariam melhor conservados com o invólucro com extrato de Cannabis.
Menos fungos e maior preservação nas framboesas
Em todas as amostras de framboesas, os pesquisadores observaram uma redução na quantidade de fungos depois de duas e de oito semanas.
No filme com maior concentração do extrato, o resultado foi mais expressivo.
O material também ajudou a reduzir a perda de polifenóis e a preservar por mais tempo a capacidade antioxidante das frutas durante o armazenamento.
Redução de bactérias e fungos nos mirtilos
Nos mirtilos, foram observados resultados semelhantes. Na embalagem com maior quantidade de extrato, a contagem de bactérias e fungos diminuiu.
Outros estudos investigaram CBD e frutas

A possibilidade de utilizar CBD na conservação de frutas já havia aparecido em um estudo publicado em 2023.
Naquela pesquisa, cientistas tailandeses desenvolveram um revestimento transparente e comestível com CBD. Em vez de usar o material como uma embalagem separada, eles mergulharam morangos frescos na formulação, formando uma camada ao redor das frutas.
Depois de cerca de duas semanas, aqueles que receberam a formulação perderam menos peso, mantiveram melhor sua aparência e apresentaram menor presença ou multiplicação de microrganismos.
Apesar das diferenças entre os dois experimentos, ambos indicam a mesma linha de investigação: o possível uso de compostos da Cannabis em materiais destinados à conservação de alimentos.
Essas embalagens poderão chegar aos supermercados?
Ainda é cedo para afirmar isso. O estudo com framboesas e mirtilos ocorreu em condições controladas e avaliou apenas duas frutas liofilizadas.
Os próprios pesquisadores classificam o trabalho como um modelo experimental. Entre as próximas etapas, eles apontam a necessidade de avaliar a estabilidade e a segurança do material, além da compatibilidade às exigências regulatórias.
Os resultados também não significam que óleos ou medicamentos à base de Cannabis devam ser aplicados diretamente sobre alimentos em casa. Os produtos disponíveis para uso terapêutico não foram desenvolvidos nem avaliados para conservar alimentos.
Da pesquisa em laboratório às prateleiras
Ainda há um longo caminho entre um experimento de laboratório e uma embalagem disponível nas prateleiras. Mas, no Dia Internacional da Fruta, a pesquisa oferece uma conexão inesperada.
No futuro, compostos conhecidos pelo uso medicinal talvez também ajudem a proteger os alimentos antes que cheguem ao prato.
No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis mediante prescrição médica. Aqueles que desejam incluir esses compostos no tratamento devem buscar orientação especializada.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta com médicos experientes na prescrição de canabinoides. A avaliação individual segue sendo uma etapa essencial para garantir que a terapia seja segura e eficaz.