O impacto não fica restrito ao boletim. Atravessa a autoestima, a relação com o saber, o prazer de aprender e, em muitos casos, a própria identidade.
Nos últimos anos, enquanto seguimos presos a modelos terapêuticos muitas vezes padronizados e pouco individualizados, a cannabis medicinal começa a aparecer no radar científico não como solução milagrosa, mas como ferramenta de modulação. E isso muda tudo. Não se trata de “tratar o aprendizado com maconha”, mas de entender se — e como — determinados fitocanabinoides podem reorganizar circuitos cerebrais envolvidos em atenção, memória, ansiedade e plasticidade neuronal. A pergunta correta nunca foi se funciona para todos, mas para quem, quando e de que forma.
Transtornos do aprendizado são condições persistentes do neurodesenvolvimento. Não surgem por falta de estímulo, má escola ou desinteresse. Surgem porque o cérebro aprende de outro jeito. A dislexia compromete leitura e decodificação; a discalculia, a compreensão numérica; a disgrafia, a expressão escrita. E aqui vale uma observação clínica importante: raramente essas condições vêm sozinhas. TDAH aparece como comorbidade em até metade dos casos, interferindo diretamente em atenção sustentada, memória de trabalho e controle inibitório — pilares centrais do aprendizado. Muitas vezes, o que bloqueia o aprender não é o conteúdo, mas o ruído interno.
Para entender onde a Cannabis entra nessa história, é impossível ignorar o Sistema Endocanabinoide
Ele não é um detalhe exótico da fisiologia. É um sistema regulador central, presente desde a embriogênese, atuando como um fino ajuste de volume do cérebro. Humor, sono, estresse, resposta emocional, plasticidade sináptica — tudo passa por ele. Receptores CB1 são densamente distribuídos em regiões como hipocampo e córtex pré-frontal, exatamente onde memória, aprendizagem e funções executivas acontecem.
Aprender é, em essência, plasticidade sináptica. É a capacidade de fortalecer conexões úteis e enfraquecer as inúteis. Quando esse mecanismo falha ou se torna ineficiente, o aprendizado vira esforço bruto. E aqui entra uma hipótese cada vez mais consistente: desregulações do Sistema Endocanabinoide podem comprometer essa plasticidade e amplificar dificuldades cognitivas já existentes.
O CBD, nesse contexto, chama atenção não por “estimular” o cérebro, mas por modulá-lo
Ele não age como um psicoestimulante nem como um sedativo clássico. Atua de forma indireta sobre o sistema endocanabinoide, aumenta níveis de anandamida, influencia receptores serotoninérgicos, reduz hiperativação do eixo do estresse e favorece ambientes neurobiológicos mais propícios ao aprendizado. Estudos apontam ainda sua relação com o aumento de BDNF — proteína-chave para sobrevivência neuronal, formação de novas conexões e memória.
Em linguagem simples: o cérebro fica mais plástico, menos defensivo
Outro ponto clínico que não pode ser ignorado é a ansiedade. Crianças e adultos com transtornos de aprendizado frequentemente vivem em estado de alerta constante. Medo de errar, de ser exposto, de “não dar conta”. Ansiedade não é apenas emocional; ela sequestra recursos cognitivos. O efeito ansiolítico do CBD, bem documentado, pode não “ensinar ninguém a ler”, mas pode devolver ao cérebro o silêncio necessário para aprender.
A evidência científica ainda está em construção — e precisa ser tratada com honestidade. Não há ensaios robustos dizendo que cannabis trata dislexia ou discalculia diretamente. O que existe são dados promissores em comorbidades como TDAH, ansiedade, alterações de sono e funções executivas. Há também estudos mostrando melhora de perfusão hipocampal, neuroproteção e reversão de déficits de memória em modelos experimentais. É pouco? Para quem espera solução pronta, sim. Para quem entende medicina como processo, é um começo relevante.
E aqui entra um ponto sensível: THC
Demonizado de um lado, romantizado de outro. A verdade clínica é menos ideológica. O THC tem efeito bifásico. Em doses altas, pode prejudicar memória e aprendizagem, especialmente em cérebros em desenvolvimento. Em microdoses, associado ao CBD, pode potencializar efeitos terapêuticos, reduzir ansiedade e, em contextos específicos, até favorecer cognição. O problema nunca foi a molécula em si, mas a dose, o contexto e a ausência de critério médico.
Há um momento, porém, em que a teoria termina e a clínica começa a falar mais alto. E foi exatamente aí que eu travei — no bom sentido. A primeira vez que vi, na prática, uma criança que não conseguia contar até 10 e que, alguns meses depois, já resolvia operações de subtração e multiplicação com autonomia, eu desconfiei. Quando acompanhei outra criança, em recuperação em português e matemática havia mais de dois anos, que pouco tempo após o início do tratamento conseguiu melhorar tanto as notas que passou por média, a inquietação aumentou. Não foi um caso isolado. Foram padrões que começaram a se repetir.
Como médico, fiz o movimento óbvio: fui direto aos artigos científicos em busca de respostas
Queria entender o mecanismo exato, o caminho molecular, o “porquê” fechado em evidência robusta. E aqui é preciso ser honesto: ainda não encontrei explicações definitivas que deem conta desse efeito específico no aprendizado formal. A ciência, nesse ponto, ainda caminha atrás da clínica.
Mas há algo que se impõe com força difícil de ignorar. A clínica não mente. O relato dos pais não mente. E, talvez mais importante, o relato das próprias crianças não mente. Ouvir frases como “agora parece que entra”, “não cansa tanto”, “não preciso me esforçar tanto pra não aprender nada” é algo que nenhum gráfico traduz por completo. A sensação subjetiva de finalmente começar a aprender sem exigir um esforço monumental e frustrante — esse alívio cognitivo — não tem química que pague.
E os dados objetivos acompanham essa percepção. Relatórios escolares mudam. Observações pedagógicas mudam. Professores percebem. As notas sobem. Não por milagre, não por mágica, mas porque algo no funcionamento cerebral se reorganiza. Ainda não sabemos tudo. E reconhecer isso não enfraquece a medicina — fortalece. Porque é exatamente nesse espaço entre o que já foi comprovado e o que a prática insiste em mostrar que a boa clínica continua fazendo perguntas melhores do que as respostas prontas.
Cannabis medicinal não substitui intervenção pedagógica, fonoaudiologia, psicoterapia ou adaptações escolares
Ela não corrige método de ensino ruim nem apaga lacunas pedagógicas. O que ela pode fazer — quando bem indicada — é reduzir ruído, modular sistemas, facilitar o terreno. Aprender continua sendo um processo ativo. O tratamento, aqui, é criar condições neurobiológicas mais justas para que esse processo aconteça.
Para famílias que cogitam esse caminho, o primeiro passo não é comprar óleo. É buscar informação séria e avaliação médica qualificada. Cannabis não é atalho. É ferramenta. E, como toda ferramenta potente, pode ajudar ou atrapalhar. A diferença está no critério.
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