O transporte é uma etapa crítica na vida de peixes ornamentais. Antes de chegarem aos aquários domésticos, esses animais passam por longos períodos em sacos plásticos, submetidos a vibrações, alterações na qualidade da água, variações de temperatura e restrição de espaço. Esse conjunto de fatores funciona como um gatilho de estresse, afetando o comportamento, a imunidade e a sobrevivência desses peixes após a viagem.
Reduzir os impactos do transporte é um desafio para o bem-estar animal e também para a sustentabilidade dessa cadeia produtiva. Um estudo avança nesse debate ao avaliar, pela primeira vez de forma sistemática, se a adição de canabidiol (CBD) à água de transporte pode reduzir comportamentos associados ao estresse em peixes ornamentais.
Os resultados trazem novas evidências sobre o potencial desse composto da Cannabis como ferramenta para melhorar o bem-estar em uma das etapas mais sensíveis do aquarismo.
Quando a viagem vira um fator de risco
As etapas de transporte de peixes ornamentais podem provocar estresse intenso, que se manifesta tanto no comportamento quanto na saúde dos animais. Peixes estressados tendem a nadar de forma desordenada, atacar outros indivíduos e apresentar agitação excessiva. Além disso, o estresse pode enfraquecer o sistema imunológico, aumentando o risco de doenças e mortalidade após o transporte.
Por isso, cresce a busca por soluções que tornem esse processo menos prejudicial para os animais.
O CBD é objeto de estudos em humanos e outros animais por suas propriedades ansiolíticas, anti-inflamatórias e moduladoras do sistema imunológico. Em mamíferos, o canabidiol atua em receptores do sistema endocanabinoide relacionados à regulação da ansiedade e das respostas ao estresse.
Como os peixes também possuem um sistema com receptores semelhantes, os pesquisadores levantaram a hipótese de que o canabidiol poderia ajudar esses animais a lidar melhor com o estresse do transporte.
Testando o canabidiol em peixes ornamentais

Para testar essa hipótese, os cientistas escolheram um peixe ornamental bastante comum em aquários, conhecido no Brasil como platy (Xiphophorus variatus). Os animais foram submetidos a um transporte simulado de 30 minutos em sacos plásticos semelhantes aos usados comercialmente.
A água desses sacos recebeu diferentes tratamentos:
- • Água pura (grupo controle)
- • Água com solvente
- • Água com diferentes concentrações de CBD (3,9; 7,8 e 15,6 mg/L)
Após o transporte, os peixes foram observados com câmeras, tanto em grupo quanto individualmente. Os pesquisadores analisaram comportamentos clássicos associados ao estresse, como mordidas, perseguições, nado errático, velocidade de movimento e tempo de imobilidade.
Menos agressividade e comportamento mais estável
Os peixes que tiveram contato com o canabidiol durante o transporte apresentaram menos comportamentos agressivos, como mordidas e perseguições. Também exibiram menos movimentos erráticos, um tipo de nado desorganizado geralmente associado a desconforto e ansiedade.
A concentração que apresentou os melhores resultados foi a intermediária (7,8 mg/L). Nessa dose, os peixes pareceram mais tranquilos após o transporte, tanto quando observados em grupo quanto individualmente.
Esses animais também passaram mais tempo imóveis, comportamento que, de acordo com os pesquisadores, indica redução da ansiedade, da agressividade e da agitação geral.
Ansiedade sob observação em um aquário
Na segunda parte do estudo, os peixes foram avaliados individualmente em um teste de campo aberto, utilizado para medir a ansiedade em um ambiente mais amplo do que os sacos plásticos de transporte.
Os peixes expostos ao CBD nadaram menos, percorreram distâncias menores e permaneceram mais tempo na região central do aquário, o que sugere maior sensação de segurança. Peixes mais ansiosos, por outro lado, tendem a se esconder nas bordas do ambiente, buscando proteção.
Como o canabidiol impactou a saúde do peixes
Além do comportamento, os pesquisadores analisaram dois indicadores fisiológicos importantes:
- • Quantidade de muco na pele, essencial para a defesa imunológica dos peixes;
- • Níveis de cortisol, o principal hormônio do estresse.
Nesse caso, não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos. O resultado sugere que o CBD não causou efeitos fisiológicos negativos detectáveis, nem aumentou o estresse biológico dos animais.
CBD: futuro promissor no aquarismo
Os autores destacam que o transporte simulado foi relativamente curto e suave. Em situações reais, com viagens mais longas e variações ambientais mais intensas, os efeitos do CBD podem ser ainda mais relevantes e precisam de mais investigações.
Ainda assim, os dados indicam que o canabidiol tem potencial para ser utilizado como ingrediente em condicionadores de água, ajudando a reduzir os impactos do transporte no bem-estar de peixes ornamentais. Antes disso, será necessário entender melhor a estabilidade do CBD na água e seus possíveis efeitos a longo prazo.
Por fim, os pesquisadores alertam que não se deve oferecer produtos à base de Cannabis por conta própria em peixes ou outros animais, sem a orientação de um médico-veterinário.
No Brasil, o uso de medicamentos com canabinoides para a saúde humana é legal pelas regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde que com prescrição médica. Então, se você deseja iniciar uma terapia com os derivados da planta, acesse a nossa plataforma de agendamento e marque já uma consulta. Com a orientação de profissionais experientes nesse tipo de abordagem, o tratamento será seguro e eficaz.














