Cultura

A vida do pioneiro cientista Franjo Grotenhermen virou filme

A trajetória do médico e cientista Franjo Grotenhermen vai para as telas de cinema no documentário The Doctor, que estreia no início do mês de junho. O filme narra a vida do médico alemão, fala da sua condição de saúde que o deixa acamado por boa parte do dia, e da sua precursora luta pela Cannabis na Europa.

Nesse tempo, o documentário já recebeu mais de 10 prêmios mundo afora em festivais de cinema na Europa, Ásia e EUA. As gravações foram feitas durante a Conferência sobre Canabinoides na Medicina, organizada pela IACM, em 2019. Lá, foram ouvidos diversos especialistas como Raphael Mechoulam, Manuel Guzman e Mark Ware e como disse o próprio Mechoulam no documentário: “Durante muitos anos a maioria do interesse na Cannabis medicinal estava nos EUA. Franjo foi uma das primeiras pessoas que viu o valor medicinal da Cannabis e começou a pressionar na Europa.”

Veja o trailer do documentário:

 

Confira a entrevista com Dr. Franjo com vídeos

Em entrevista exclusiva para o Cannabis & Saúde, o protagonista, Dr. Franjo Grotenhermen, falou sobre Cannabis, pacientes na Europa e, com a humildade das pessoas geniais, sobre a surpresa com a repercussão do filme.

“Achei que talvez essa pudesse ser outra possibilidade de divulgar o uso medicinal da Cannabis. O filme ajudou meu trabalho, estou tentando pregar a palavra sobre o uso medicinal da Cannabis há 30 anos e tento usar todos os meios possíveis.

E não acontece com muita frequência que façam um documentário sobre você e, assim, sou grato por isso. Foi uma coisa maravilhosa.”

“Todo paciente tem o direito de ter acesso à Cannabis se precisar”

Desde os anos 90 o médico alemão prega a palavra do uso medicinal da Cannabis, ele fundou a primeira associação para lutar pelo acesso à Cannabis na Alemanha em 1997, a ACM, onde foi o primeiro diretor. Três anos depois foi co-fundador da Associação Internacional para a Medicina Canabinoide a IACM (essa é a página que Dr. Franjo exibe no canto superior direito na entrevista), onde foi o diretor por três anos. Esses grupos de profissionais de saúde lutaram e seguem lutando pela regulamentação do uso medicinal da Cannabis e na difusão do conhecimento sobre o tema, foram necessários 20 anos de trabalho até uma lei ser promulgada na Alemanha permitindo o uso medicinal. Ele nos contou como relacionou Cannabis à Declaração Universal dos Direitos Humanos para defender o direito dos pacientes.

“Formamos duas frases. Somente duas:
“Todo paciente tem o direito de ter acesso à Cannabis se precisar.”
“Todo médico deve ter o direito de conversar com o paciente sobre esse assunto e prescrever para ele.”

Frases muito fáceis que são baseadas na Declaração dos Direitos Humanos.”

“Não havia nada na Alemanha ou em outros países europeus em relação ao uso medicinal da Cannabis”

Por anos, Grotenhermen sofreu de microangiopatia e um distúrbio que causava um mau funcionamento das células que revestem as paredes internas dos vasos sanguíneos. Como resultado, ele sofre de doenças no sistema cardiovascular, com problemas cardíacos e um distúrbio da ortostase, que o obriga a ficar praticamente acamado. Com isso, o médico precisou fazer uma mudança drástica na vida e se encontrou com a Cannabis, voltando a fazer algo pelos pacientes.

“Quando me senti doente em 1990, me aposentei em 1992, porque estava claro que nunca mais poderia ser um médico normal. Então eu tive que terminar minha carreira médica em 1992. Comecei a trabalhar com Cannabis medicinal em 1994 e naquela época não havia quase nada na Europa, ninguém sabia do uso medicinal da Cannabis.

A possibilidade de muitos e muitos pacientes, não algumas dezenas ou algumas centenas, mas para milhões. Vi a possibilidade e as possibilidades legais, não havia nada na Alemanha ou em outros países europeus em relação ao uso medicinal da Cannabis. Eu estava apenas procurando por algo que eu pudesse fazer com a minha vida, sempre fui politicamente muito ativo nos tempos de estudante, por exemplo, ou como um jovem médico e pensei: “Bem que isso poderia ser uma possibilidade de fazer algo pelos pacientes novamente.” E eu também estava muito interessado em ciência e então pensei: “Isso é uma coisa que tem que ser feita.””

“Você salvou minha vida”

Grotenhermen é autor de livros e capítulos para muitas publicações, sua obra mais famosa foi traduzida para o inglês com o título Cannabis Healing: A Guide to the Therapeutic Use of CBD, THC, and Other Cannabinoids. Seus textos foram traduzidos para diversos idiomas e chegou a diversas partes do mundo, o que gerou uma situação inusitada e emocionada que o médico nos contou. Era um homem que sofria com zumbido e encontrou na Cannabis o alívio.

“Vamos falar de zumbido, eu tive que escrever uma opinião de especialista sobre zumbido para que os pacientes recebessem uma isenção da Lei de Narcóticos na Alemanha. Então, eu tive que escrevê-lo e eu tive que argumentar por que isso pode ser verdade. Como pode ser que o THC possa ajudar alguém com zumbido? Eu fui ver o que era o motivo do zumbido e eu detectei que era algo semelhante à epilepsia, porque existe um desarranjo no cérebro que é muito semelhante à epilepsia. Sabendo que há semelhanças, eu digo: “Sim, pode ser um motivo.” E então mais tarde eu estava em uma conferência e um cara espanhol veio até mim e disse:
— Você salvou minha vida!
— Por que?
— Li um de seus livros em espanhol e você escreveu sobre zumbido. Tenho zumbido de 90dB. É um barulho muito forte na sua cabeça e eu estava pensando em suicídio, porque era demais. Então eu tentei strains de Cannabis ricas em THC, eu tentei o óleo de CBD e, finalmente, detectei que fumar flores de CBD era eficaz e agora eu fumo flores de CBD a cada 20 minutos e o barulho não é tão alto, mas… muito suave.

E ele foi o primeiro a me dizer que o CBD também pode ajudar e então pensei: “Sim, por que não? Há algumas pessoas com epilepsia que ficam melhores com THC e outras melhores com CBD, então por que não com zumbido?” Então é assim que eu recebo novos conhecimentos, isso é uma troca. Eu leio a ciência, mas também há uma troca abaixo desse nível. Onde eu simplesmente ouço as histórias dos pacientes.”

Em 1 década 3500 pacientes e mais de 50 enfermidades tratadas

Dr. Franjo voltou a atender pacientes em 2012, 20 anos depois de se afastar da prática médica em 1992, o médico resolveu abrir um consultório, principalmente pelos pacientes que o procuravam.

“E então, em 2012, eu abri novamente um consultório médico porque fui contatado por tantos pacientes que não encontraram um médico que pudesse conversar com eles. Precisavam de um médico para apoiá-los, que dissesse: “Sim, esse paciente precisa de Cannabis.” Isso era possível desde 2007. E, então, eu decidi: “Ok, esses pacientes não encontram médicos, então eu tenho que abrir novamente um consultório médico.” O que estou fazendo agora há 10 anos. E eu tive nesses 10 anos cerca de 3.500 pacientes com muitas doenças, mais de 50 doenças diferentes.”

Trocar medicamentos prescritos por Cannabis pode ser uma boa ideia

Boa parte dos pacientes atendidos pelo Dr. Franjo não encontrou alívio ou qualidade de vida na medicina convencional e busca melhor qualidade de vida e bem-estar com a Cannabis. O médico fez uma comparação entre medicamentos prescritos e com canabinoides no longo prazo, mostrando que a terapia canábica tende a ser bem menos nociva para o organismo.

“A cannabis geralmente causa efeitos colaterais agudos, efeitos colaterais psicoativos, sonolência ou algo assim, pode te deixar chapado e você pode não gostar. Frequentemente, provoca efeitos secundários agudos, mas se você tolerar e funcionar bem, pode tomá-lo por décadas sem machucar seu estômago, sem atacar seus rins, seu coração ou qualquer coisa. Não vai machucar nenhum dos seus órgãos internos e com muitos outros medicamentos é o contrário. Você toma ibuprofeno ou cortisona você toma e não sente nada, apenas se sente melhor, alivia sua dor e não há nada que você sinta diferente. Quando você toma por 10 ou 20 anos você tem alguns problemas com seu estômago. Com a Cannabis é diferente, se funciona com você, você tem algo que pode usar para o resto de sua vida.”

Cannabis como uma medicina acessível à população

Acima de tudo, Dr. Franjo trabalha para que a Cannabis deixe de ser um tabu e que mais e mais pessoas tenham acesso ao bem-estar e melhor qualidade de vida que os canabinoides podem oferecer. Ele concluiu fazendo um apelo para que encontremos um jeito de facilitarmos o acesso a essa planta.

“Aqui está uma planta simples, que cresce com muita facilidade, com um pouco de água, algo muito fácil. E essa planta simples pode ajudar milhões, bilhões de pessoas e vamos permitir que tenham acesso a ela. Encontre uma maneira de ter leis diferentes em seu país, mas políticos, cientistas, por favor, encontrem uma maneira de dar acesso a ela.”

A Cannabis pode trazer benefícios para milhares de pessoas e o caminho para isso passa por uma prescrição médica, que você pode pedir para um dos médicos na nossa plataforma de agendamentos.

Gregorio Ventura

Editor e jornalista especializado em Cannabis Medicinal

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