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THC medicinal: o que dizem os estudos de especialistas

THC medicinal é o termo usado para se referir a um dos canabinoides mais abundantes nas plantas do gênero Cannabis.

Ele se difere do tetrahidrocanabinol absorvido pelo organismo quando ingerido recreativamente porque não deve exercer efeitos psicoativos.

São duas situações distintas e sem relação: o consumo da maconha e o seu uso medicinal para o tratamento de uma série de doenças.

Isso é possível graças a diferentes substâncias encontradas na planta, que não só se mostram eficazes para tratar enfermidades e sintomas, como também são seguras e apresentam poucos efeitos adversos.

Sendo assim, o THC pode ser um poderoso aliado à saúde, desde que administrado nas doses e concentrações corretas, por indicação médica.

Não por acaso, a Anvisa determina que medicamentos à base de canabinoides devam conter, no máximo, 0,2% dessa substância.

Outro aspecto a ser ressaltado é que óleos full spectrum, ou seja, que contêm todos os canabinoides e terpenos da planta, em geral são mais eficazes.

É sobre isso e com muito mais detalhes que vamos falar ao longo deste texto.

Vá em frente e conheça a verdade a respeito do THC medicinal.

O que é o THC?

O tetrahidrocanabinol, também conhecido cientificamente por Δ9-THC ou Δ9-tetrahidrocanabinol, é uma substância encontrada em plantas do gênero Cannabis.

Ao longo dos anos, a medicina tem se debruçado sobre as propriedades terapêuticas e curativas dessa planta, motivo pelo qual o THC vem sendo intensamente estudado.

A primeira vez que esse composto foi isolado em laboratório (levando à sua identificação) foi em 1964, pelo pesquisador Raphael Mechoulam.

Vale destacar que ele é também o responsável pela descoberta do sistema endocanabinoide, por meio do qual o THC e o CBD (canabidiol) promovem benefícios à saúde.

Por isso, desde 1981 a Federal Drug Administration (FDA), a Anvisa norte-americana, aprova o seu uso medicinal na forma sintética, conhecida como dronabinol.

Tal como outros canabinoides, o THC age no organismo ao se ligar aos receptores CB1, que compõem o sistema endocanabinoide.

A principal diferença em relação ao CBD é que o THC é, essencialmente, um estimulante do sistema nervoso central (SNC), enquanto o seu “irmão” atua como depressor.

Para que serve o THC?

As pesquisas sobre o THC apontam para um futuro em que ele terá um papel dos mais relevantes para a saúde humana.

Se, por um lado, ainda não há estudos conclusivos, boa parte deles apresenta evidências sólidas da sua eficácia.

Para condições como glaucoma e asma, parecem restar muito poucas dúvidas a respeito da sua ação terapêutica.

Estudos também sugerem que ele pode ser uma solução para portadores de enfermidades como esclerose múltipla e outras que afetam o SNC, incluindo a misteriosa síndrome de Tourette.

Portanto, a lista de doenças que podem ser tratadas com o THC só tem aumentado com o passar do tempo.

Ele pode ajudar, por exemplo, no cuidado de distúrbios de coordenação motora, como a distonia, que leva o paciente a ter contrações involuntárias e problemas posturais.

Como veremos com mais detalhes alguns tópicos à frente, o THC tem uma série de propriedades medicinais que o torna indicado em diversos tratamentos.

Veremos ainda como ele tem sido eficaz para inibir os sintomas da fibromialgia, uma doença que atinge músculos e articulações.

Também vamos conhecer os benefícios que ele traz para pessoas que sofrem de AIDS e a sua ação antiemética em pacientes com câncer.

Veja, na sequência, o que alguns dos principais especialistas dizem a respeito dessa substância.

THC medicinal: o que dizem os especialistas?

Um aspecto importante a salientar é que, ao se referirem à Cannabis, os especialistas também estão falando do THC medicinal.

Não há porque destacá-lo dos outros canabinoides presentes na planta, já que ele também promove benefícios à saúde e pode potencializar a atuação do CBD graças ao efeito entourage.

No entanto, é consenso entre os especialistas que ainda há muito o que fazer para comprovar definitivamente a efetividade e a segurança da Cannabis medicinal.

Isso porque os seus benefícios à saúde são conhecidos, mas falta compreensão no sentido de estipular dosagens precisas e métodos de controle de qualidade.

É esse o centro da discussão sobre os canabinoides nos Estados Unidos.

Por lá, nomes como o Dr. Mark Steven Wallace, da Universidade de San Diego, defendem a criação de leis federais que aprimorem os processos de fabricação e venda, tornando-os mais seguros.

No Brasil, um dos principais defensores da Cannabis medicinal é o professor Antônio Waldo Zuardi, da USP.

Ele endossa a eficácia dos canabinoides em geral no tratamento de doenças, enfatizando os perigos do consumo recreativo pela falta de controle e a sua imprevisibilidade.

Quais são as propriedades THC medicinal

Como esclarece o professor Antônio Zuardi em entrevista para o portal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a ação do THC depende da concentração relativa desse canabinoide.

Ele destaca, ainda, o seu efeito oposto ao do CBD.

Ou seja, para certos tipos de tratamento, podem ser prescritas concentrações maiores, enquanto em outros elas devem ser reduzidas.

Mais um aspecto importante frisado pelo especialista é que as propriedades medicinais também estão relacionadas à forma de cultivo, ao solo e outros fatores exógenos.

Sendo assim, em países como o Brasil, onde é proibido cultivar maconha, há uma dificuldade a ser superada.

Afinal, por aqui é mais difícil obter a matéria-prima para produzir medicamentos à base de canabinoides.

No entanto, essas ressalvas não tornam o THC menos eficaz, muito pelo contrário.

Com o que a ciência já sabe hoje, ele pode ser indicado em virtude de diversas propriedades medicinais, como veremos a seguir.

Auxilia no tratamento de dor crônica

Já que estamos abordando a visão dos especialistas, um deles, o doutor Cristiano Fernandes, é um dos mais engajados defensores do THC para tratar da dor.

Para isso, como ele diz em uma entrevista para o Portal Cannabis & Saúde, o THC: 

“(…) é o canabinoide menos usual pela dificuldade para prescrever para os pacientes (…). Dentro do contexto geral, é uma medicação bastante segura do ponto de vista clínico. A gente prescreve com tranquilidade opioides para dor. Morfina, oxicodona, que podem levar ao óbito se mal usadas. Uma overdose de opioide pode ser fatal, enquanto não tem relato nenhum de overdose fatal de THC.”

O especialista enfatiza, ainda, o importante papel da substância nos cuidados paliativos dos sintomas associados ao tratamento contra o câncer:

“Ele [o THC] não tem nenhum papel oncológico. Não reduz tumor, mas ajuda o paciente naquilo que não tem medicação. Não existe medicação para o bem-estar. A Cannabis entra nesse cenário. [O THC integra] Um conjunto de drogas que auxilia na qualidade de vida do paciente. Hoje, a gente não tem nenhuma medicação que, sozinha ou em combinação, faça isso tão bem quanto o THC e CBD.

Reduz náusea e vômitos devido ao tratamento de quimioterapia

Náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia (NVIQ) são muito comuns em pessoas submetidas a esse tipo de abordagem visando inibir a proliferação de células cancerígenas.

Estima-se que pelo menos metade dos pacientes oncológicos sofram desses efeitos colaterais do tratamento, que podem se manifestar até mesmo antes das sessões de quimioterapia, na chamada NVIQ antecipatória.

Em alguns casos, são prescritos antieméticos e antinauseantes, como o dramin. No entanto, nem sempre eles têm o resultado esperado.

Uma curiosidade é que, desde a descoberta do THC, o primeiro tratamento de que se tem registro da sua utilização é contra as NVIQ, como documentado neste estudo.

Nele, fica comprovada a eficácia da substância no controle da êmese em roedores, efeito creditado à inibição da reação à cisplatina, um tipo de antineoplásico.

Alinhado ao que diz o Dr. Fernandes, além da redução dos vômitos, o THC também promove outros benefícios, como a melhora do sono, sendo cada vez mais prescrito até mesmo em detrimento de fármacos convencionais.

Diminui os espasmos musculares causados pela esclerose múltipla

Doença do tipo autoimune, na esclerose múltipla, o sistema imunológico se volta contra o próprio organismo.

Em pessoas com essa condição, os anticorpos atacam especificamente o sistema nervoso central (SNC), ao esfacelar a bainha de mielina protetora dos neurônios.

As causas da EM ainda não são totalmente compreendidas, mas a ciência credita o surgimento da enfermidade a certos fatores de risco.

Entre os mais comuns, estão a genética, alguns tipos de vírus e a falta de exposição ao sol.

Esse último aspecto, a propósito, parece fazer sentido, já que nos países do Hemisfério Norte a prevalência da esclerose múltipla é bem maior.

Um bom exemplo disso é a Suécia, que, segundo o atlas mundial da MSIF, registra 218 casos por 100 mil habitantes.

No tratamento contra essa doença, o THC vem mostrando que pode ser um poderoso composto para aliviar problemas relacionados, como o mau humor, as dores e a falta de sono.

É o que sugere uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Catania, na Itália, da qual participaram 1.615 pessoas com esclerose múltipla.

Age como antidepressivo e ansiolítico

Estudos também apontam para a eficácia dos canabinoides, inclusive o THC, no combate à depressão e à ansiedade.

Um deles, liderado pelo professor Antônio Zuardi, destaca o papel da substância para reduzir a agitação em tratamentos contra a dependência química.

De acordo com o grupo de pesquisa:

“Em relação ao Δ9-THC e seus análogos, há muito tempo tem sido relatado que esses compostos apresentam efeitos sedativos e hipnóticos em várias condições clínicas, como esclerose múltipla. Uma das indicações mais promissoras desses compostos parece ser para o tratamento da síndrome de abstinência à Cannabis.”

Além disso, a ciência e a medicina já sabem que o THC pode interagir com os antidepressivos convencionais, por meio das enzimas P450 (CYP).

Elas atuam no metabolismo da maioria dos medicamentos e, na presença do THC, têm os seus efeitos acelerados, aumentando a absorção dos fármacos ingeridos.

Em contrapartida, pouco se sabe sobre as interações entre os canabinoides e os inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS), muito usados como antidepressivos.

Estimula o apetite

Não chega a ser uma novidade que fumantes de maconha sentem um aumento no apetite depois de consumir a erva.

O que talvez não seja tão conhecido é que esse efeito pode ser obtido de forma mais controlada, sem as reações indesejadas do uso recreacional.

Há, ainda, uma vantagem extra: os canabinoides podem levar a um aumento do apetite sem que isso implique no aumento de peso.

É o que aponta o estudo Prevention of Diet-Induced Obesity Effects on Body Weight and Gut Microbiota in Mice Treated Chronically with Δ9-Tetrahydrocannabinol.

Nele, os autores concluem que:

“(…) apresentamos dados que mostram que o agonista parcial do receptor CB1 / CB2, THC, induz hipofagia e previne o ganho de peso e a obesidade. Sugerimos que essas ações podem ser mediadas em parte por modificações da microbiota intestinal.”

O THC vem sendo também prescrito com frequência para portadores de HIV que sofrem de perda de peso acentuada.

Portanto, na mesma linha da sua aplicação em pacientes com câncer, ele ajuda a restabelecer importantes funções orgânicas e a devolver o bem-estar.

O conservadorismo em relação ao uso THC medicinal

Embora já se conheçam muitos dos benefícios do THC à saúde, para parte da sociedade brasileira prevalece a ideia de que essa é apenas uma substância entorpecente.

Essa é uma construção social, na qual estão misturados fatores como falta de conhecimento e uma visão preconceituosa de que a maconha é destinada para pessoas de baixa renda.

Isso explica em parte a resistência dos governos em regulamentar o cultivo da Cannabis, o que, de acordo com a ala mais conservadora, fomentaria o tráfico ilegal e o crime.

Seja como for, a experiência de países como Uruguai e, principalmente, Colômbia (que por anos tratou a Cannabis como caso de polícia) mostra que é possível legalizar o plantio sem que isso signifique o aumento nos índices de criminalidade.

THC medicinal: o uso da substância no tratamento de fibromialgia

Como você pôde ver até agora, não há nenhum motivo que justifique o preconceito em relação ao THC e à Cannabis medicinal.

Outra evidência a indicar que vale a pena avançar nas pesquisas e considerar a autorização do seu cultivo é um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre fibromialgia.

Nele, constatou-se que extratos de Cannabis contendo THC em maiores concentrações diminuem a dor e a fadiga causadas pela doença.

Além disso, observou-se uma evolução significativa na qualidade de vida dos pacientes, que relataram sentir-se melhor depois de utilizar medicamentos à base do composto.

Quais resultados positivos os estudos apontaram para o uso do THC na fibromialgia?

Tendo em vista os resultados positivos, os estudos para comprovar a eficácia do THC no tratamento da fibromialgia têm avançado.

Um deles, conduzido por pesquisadores israelenses, traz evidências sobre a segurança e a eficácia da substância no tratamento contra essa condição.

Eles concluem:

“O presente estudo observacional inova ao mostrar que a Cannabis medicinal pode ser um tratamento eficaz e seguro (…). Nossos dados indicam que a Cannabis medicinal pode ser uma opção terapêutica promissora para o tratamento da fibromialgia, especialmente para aqueles que falharam nas terapias farmacológicas padrão.”

Efeitos colaterais do uso do THC medicinal no organismo?

Um aspecto importante a destacar sobre o THC é que, embora seja psicoativo, jamais houve sequer um relato de alguém que tenha morrido por overdose dessa substância.

No entanto, há, sim, reações adversas documentadas em testes de laboratório em seres humanos quando administrado como medicamento.

Entre esses efeitos, os mais recorrentes são a taquicardia e o aumento da pressão arterial, o que pode exigir bastante cuidado por parte do médico ao prescrevê-lo para pacientes com cardiopatias.

Há, ainda, relatos de hipotensão ortostática, conhecida popularmente como “teto preto”, causada por mudanças súbitas na postura.

Apesar disso, todos os efeitos relatados são temporários e facilmente controlados, bastando, em geral, apenas ajustes na dosagem.

Onde encontrar médicos que prescrevem remédios à base de THC?

Tendo em vista as limitações do mercado brasileiro e as regras da Anvisa para importação de medicamentos contendo canabinoides, pode não ser fácil encontrar um médico adepto a esse tipo de tratamento.

Por isso, o portal Cannabis & Saúde disponibiliza uma linha direta online, pela qual pacientes ou seus representantes podem agendar consultas com um profissional prescritor de Cannabis medicinal.

Acesse o link, confira as especialidades disponíveis e marque uma consulta com o médico mais perto de você.

Ou, se preferir, agende uma consulta a distância dentro dos protocolos de telemedicina vigentes.

Conclusão

Pelo que vimos ao longo deste conteúdo, fica evidente que o THC medicinal só pode trazer ganhos para a saúde.

Ainda que a Anvisa limite as concentrações por frasco de medicamento, a importação de fármacos com níveis mais altos de THC também pode ser feita dentro da lei.

Logo, não há o que temer ao administrar remédios que contenham esse poderoso composto, que vem salvando vidas e devolvendo a alegria de viver às pessoas.

Este artigo foi produzido pela equipe de especialistas do portal Cannabis & Saúde, a sua fonte de informação confiável e segura sobre Cannabis medicinal.

Leia os nossos conteúdos, divulgue em suas redes e fique sempre por dentro dos mais recentes avanços da ciência no tratamento de doenças diversas.

Redação Cannabis & Saúde

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