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Pacientes relatam benefícios da Cannabis no tratamento de TDAH

Pesquisadores canadenses acompanharam três pacientes que utilizavam Cannabis no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade

São muitas as indicações existentes para o tratamento com Cannabis medicinal. Para algumas patologias, como epilepsia e Parkinson, existem mais evidências científicas dos benefícios proporcionados pelos fitocanabinoides. Em outras, principalmente na psiquiatria, ainda faltam evidências que ajudem a dar segurança aos médicos prescritores. Como em casos de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Em países em que o uso da Cannabis foi legalizado, como o Canadá, as  informações baseadas em evidências não acompanharam a legislação e muitos médicos permanecem relutantes em autorizar a Cannabis até que evidências robustas estejam disponíveis para orientar o tratamento. Infelizmente, a base de evidências limitada pode persistir devido a desafios importantes, como a dificuldade na realização de ensaios randomizados e controlados por placebo com Cannabis.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma dessas condições em que poucos médicos autorizam a Cannabis, mas o interesse pela automedicação é alto. O TDAH é um transtorno neurocomportamental crônico caracterizado por desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade com prevalência de aproximadamente 7% em crianças e 2,5% em adultos. 

Mais da metade das crianças e adultos com TDAH têm condições psiquiátricas comórbidas, como distúrbios do sono, transtornos de humor e ansiedade e transtorno desafiador de oposição. Além da farmacoterapia de primeira linha com estimulantes, discussões na internet frequentemente indicam e defendem o uso de Cannabis para alívio dos sintomas de TDAH.

Na ausência de dados científicos, os relatos de caso são valiosos para apresentar novas observações, gerar hipóteses e fornecer análises aprofundadas de um assunto de estudo, bem como suas condições contextuais relacionadas. Um grupo de pesquisadores canadenses se apoiaram na experiência de três pacientes e avaliaram os benefícios vivenciados diante da automedicação com Cannabis medicinal.

Como não existe literatura para fornecer orientação para a dosagem de Cannabis em pacientes com TDAH, os pesquisadores também coletaram amostras de sangue de pacientes para determinar as concentrações plasmáticas dos canabinoides e metabólitos relevantes.

Os pacientes com TDAH

As apresentações de casos descritas nesta seção representam um relato dos depoimentos dos pacientes, com informações verificadas nos prontuários. Os pacientes tiveram a oportunidade de revisar essas descrições quanto à precisão antes da publicação.

Paciente 1

Um homem branco de 23 anos com TDAH e transtorno de ansiedade generalizada decidiu usar Cannabis depois de saber de sua eficácia para o TDAH online. Medicado com metilfenidato, pregabalina, fluoxetina e clonidina, ele experimentou Cannabis pela primeira vez na adolescência. Ele a usava periodicamente, pois a Cannabis melhorava seu foco. 

Consultou seu médico e recebeu uma autorização para Cannabis medicinal na proporção CBD:THC 20:1, duas vezes ao dia. Atualmente alterna entre tomar óleo de canabidiol por via oral ou fumar a flores. Embora perceba que o óleo é menos prejudicial para os pulmões e mais adequado em algumas situações, sente que fumar é mais relaxante. 

Ele descreve a Cannabis como uma “mão amiga muito boa” para complementar seus outros medicamentos e se percebeu mais aberto com os outros, menos ansioso e suas emoções são menos exageradas. A Cannabis melhorou sua capacidade de manter o foco. 

Sobre sua vida antes da Cannabis, ele diz: “Eu estava em todo lugar, quicando nas paredes. Realmente não podia ficar em uma tarefa por muito tempo. Eu fazia metade de três quartos de uma tarefa e depois seguia em frente e fazia uma tarefa completamente diferente.” 

A Cannabis, como ele descreve, “o nivela” e pode concluir tarefas com mais eficiência. Embora a reação dos membros de sua família à Cannabis tenha sido mista (com alguns indivíduos muito solidários e outros céticos), ele acredita que todos notaram um impacto positivo em seu comportamento. 

Desde que passou a tomar Cannabis regularmente, encontrou e manteve um emprego bem-sucedido. 

Paciente 2

Um homem caucasiano com TDAH faz uso de metilfenidato desde o ensino primário. Ele não gostava de ser medicado com estimulantes porque sentia que eles mudavam sua personalidade, e continuou a lutar com a regulação emocional. 

Aos 17 anos, recebeu prescrição de lítio e decidiu iniciar o óleo de canabidiol (CBD:THC na proporção de 20:1) uma vez ao dia (na hora de dormir) depois que um membro da família o recomendou. 

Tomar Cannabis, diz ele, faz com que se sinta mais relaxado e o ajuda a se concentrar e se sentir mais “ele mesmo”. A combinação de lítio (300 mg na hora de dormir), Cannabis (1 ml na hora de dormir) e um bom sistema de suporte, ele diz, mudou completamente sua vida.

Anteriormente, ele não tinha motivação, não se saía bem na escola e foi internado para tratamento psiquiátrico. Desde o início da Cannabis, foi desmamado com sucesso de seus outros medicamentos para TDAH (toma apenas lítio para depressão e Cannabis) e mudou completamente sua vida. 

“Eu definitivamente era muito mais nervoso quando estava na escola… Ela [a Cannabis] ajudou a me concentrar muito mais e a aliviar meus remédios para TDAH”. Ele trabalha em tempo integral e administra um negócio, estabelece metas de longo prazo para o futuro e fez muitos novos amigos, o que melhorou sua vida social.

Paciente 3

Um homem de 22 anos foi diagnosticado com TDAH quando tinha 20 anos e começou a se automedicar com Cannabis. Ele não tinha histórico prévio de uso de Cannabis, mas com dispensários abrindo no Canadá e um membro da família que estava considerando isso por ansiedade, ele decidiu experimentar também. 

Ele sente que a Cannabis o acalma, o ajuda a desacelerar, se concentrar e a dormir à noite. Ele acredita que os canabinoides funcionam sinergicamente com seus outros medicamentos (dextroanfetamina, amantadina e pregabalina) para melhorar sua concentração e controlar seus pensamentos acelerados, ansiedade e emoções.

 Antes do tratamento com essa combinação e quando criança, ele descreve, “Não ouvia aos adultos. Não tinha controle das emoções e vivia esquecendo onde coloquei as coisas. Perdi muito minha carteira e chaves enquanto crescia.” 

Tendo experimentado várias cepas, proporções, e métodos de consumo, ele prefere uma mistura de Indica com maior teor de THC e menor teor de CBD. A sativa o tornou um pouco mais hiperativo e aumentou sua ansiedade, enquanto uma mistura dominante de Indica o ajuda a se refrescar. 

Ele está fumando um produto que tem uma relação CBD:THC de 0:18 na hora de dormir e diz que essa formulação não o faz se sentir intoxicado. Ele tentou comestíveis e óleos, mas não sentiu melhora em seu sono.  Ele obtém seu suprimento de um dispensário recreativo de Cannabis, onde é mais acessível.

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Efeitos colaterais da Cannabis

Todos os pacientes relataram efeitos colaterais leves do uso de Cannabis. O paciente 2, que constantemente toma óleo por via oral, teve problemas de memória de curto prazo. Os pacientes 1 e 3, que alternam entre as vias oral e inalatória, relataram boca seca e sonolência. O paciente 1 relatou experiências ocasionais de desejo constante e mais esquecimento e apatia, e o paciente 3 relatou uma sensação alterada de tempo.

Os resultados do tratamento com Cannabis para TDAH

Os 3 pacientes com TDAH que adicionaram Cannabis ao seu regime de tratamento experimentaram efeitos terapêuticos positivos. As melhorias em seus sintomas e qualidade de vida foram substanciais, como a capacidade de manter as emoções sob controle (3 pacientes) ou obter e se destacar em um novo emprego com mais responsabilidade (2 pacientes). Medidas objetivas acompanharam essas narrativas com todos os 3 pacientes experimentando melhorias nas escalas de avaliação validadas para medidas de saúde mental.

Notavelmente, todos os três pacientes usaram Cannabis como adjuvante de seus outros medicamentos (por exemplo, estimulantes, antidepressivos ou estabilizadores de humor). O paciente 1 descreveu a Cannabis como “uma ajuda muito boa” para complementar seus outros medicamentos. O paciente 3 conseguiu interromper sua farmacoterapia estimulante, mas reconheceu que a “Cannabis, além de uma mudança nos medicamentos prescritos para o lítio, ajudou a mudar sua vida”. 

Os níveis plasmáticos dos canabinoides não foram detectados ​​em níveis mínimos, sugerindo que os efeitos da Cannabis podem não ser sustentados ao longo do dia. No entanto, para os pacientes, os efeitos duravam ao longo do dia. Isso evidencia a importância dos outros medicamentos para garantir o sucesso do tratamento.

Todos os 3 pacientes discutiram o uso de Cannabis com seu psiquiatra e foram autorizados o óleo de canabidiol oral CBD:THC (20:1) de uma fonte médica. Nossas entrevistas com os pacientes e os níveis sanguíneos de acompanhamento, no entanto, indicaram que essa via e formulação não eram consistentes e que os pacientes procuravam um produto e regime que funcionasse para eles. 

Uma limitação importante dos relatos de casos é sua incapacidade de generalizar para uma população mais ampla, devido ao viés de seleção, e há informações limitadas que podem ser obtidas desses relatos de alguns pacientes selecionados.

Embora sejam urgentemente necessários ensaios controlados randomizados para fornecer informações sobre a eficácia da Cannabis no tratamento do TDAH, esses estudos não são  realizados com flores de Cannabis fumadas, e resta confiar em dados observacionais para essas exposições.  Este relatório acrescenta à literatura, fornecendo relatos pessoais detalhados de três pacientes e evidências objetivas de melhora em medidas validadas para sintomas de TDAH. 

Os médicos que cuidam de pacientes que se automedicam com Cannabis devem procurar monitorar objetivamente os sintomas, usando escalas validadas para TDAH e outras comorbidades. Os pacientes apresentados neste relato de caso também faziam uso concomitante de medicamentos, portanto, os benefícios adicionais da Cannabis nos sintomas de TDAH não são claros. 

A variação significativa observada entre esses três indivíduos (por exemplo, produto, composição química, dose, via de administração e fornecedor) destaca os desafios do desenvolvimento e pesquisa de medicamentos à base de Cannabis.

Felipe Floresti

Editor, repórter e jornalista especializado em Cannabis Medicinal

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