Mãe busca a Cannabis para aliviar a dor e ansiedade do filho com câncer

Alexandre, de 9 anos, tem câncer nos ossos, sem cura. A mãe, Natália, busca os óleos de Cannabis para aliviar os sintomas da radio e quimioterapia

Quando ainda moravam no Grajaú, no extremo sul de São Paulo, Alexandre quebrou o braço na escola. No hospital, disseram que ele tinha um cisto benigno e deram alta. A dor não passou, o braço piorou, com mais dores e mais inchaço. A mãe, Natália Lima de Oliveira, voltou ao hospital e se recusou a ir embora enquanto não fizessem um raio-x. Só aí a encaminharam ao Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). Chegando, Natália levou um susto: “O que estou fazendo num hospital de câncer?”.

Foi quando ela recebeu o diagnóstico que mudaria suas vidas: Alexandre tinha câncer nos ossos, chamado osteossarcoma. Precisou fazer quimioterapia, mas o câncer no braço já estava avançado. O bracinho esquerdo que alertou para a doença teve que ser amputado. Depois apareceram nódulos no pulmão do pequeno. Fez uma cirurgia para a retirada dos nódulos, mas uma tomografia posterior mostrou que ainda tinham ficado alguns. Mais quimioterapia. 

Recentemente, apareceram novas lesões na região lombar de Alexandre, e uma nova rodada de radioterapia se fez necessária. Tantos tratamentos pesados e traumáticos reduziram a imunidade do garoto, o que tornou demasiado arriscado ir para a escola. Em casa, ele ainda sofre com dores, enjoos e falta de apetite. 

A chance de sorrir

Natália queria algo que pudesse restabelecer a qualidade de vida de Alexandre. Conversando com uma amiga do Graacc, outra mãe acompanhando o tratamento do filho, Natália recebeu a sugestão da Cannabis, com a promessa de que ela poderia melhorar seu bem-estar. Essa amiga tinha começado a tratar o filho, mas não teve tempo de verificar os resultados, porque o menino faleceu.

No hospital, Natália viu muitas crianças morrerem. Crianças que conhecia pela rotina de quimio e radioterapia. O próprio Alexandre não tem mais chance de cura por cirurgia e todos os tratamentos que faz são somente paliativos, tentativas de desacelerar o crescimento dos tumores. O que Natália busca na Cannabis é que ela seja um complemento aos tratamentos tradicionais do câncer. Um apoio que pode fazer a diferença em cada um dos dias da criança.

A mãe que Natália conheceu no Graac passou o link do documentário da Netflix “Maconha medicinal: uso ou crime?”, que relata pacientes com câncer que se tratam com Cannabis. Já tinha ouvido falar dos benefícios da planta, mas não sabia que ela podia ajudar a aliviar a vida de pacientes com câncer.

A amiga também indicou a fisioterapeuta Ana Gabriela Baptista, especialista em tratamentos com Cannabis, que costuma selecionar médicos parceiros de acordo com o perfil e necessidade de seus pacientes. O indicado foi o neurocirurgião Marcos Prandine, que fez a consulta particular com Alexandre, a prescrição e formulação do óleo. Com a receita em mãos, Natália seguiu o processo para adquirir o produto. Fez a requisição na Anvisa, aguardou a aprovação, fez uma vaquinha entre amigos e parentes e importou o primeiro frasco para Alexandre. O tratamento começou há 3 semanas, e já sentiu que ele está dormindo melhor. 

Os desafios financeiros e o valor do apoio

As visitas quinzenais ao Graacc, que fica na Vila Mariana, têm que ser feitas de Uber, porque Alexandre não pode pegar transporte público. São 25 quilômetros de distância. Ele não anda mais e tem que ficar no respirador. Sua imunidade também é muito baixa, por conta da quimio e da radioterapia. 

Quando vai ao Graacc, ele aproveita para assistir aulas em uma escola que existe dentro do grupo. Mas as aulas são poucas e esporádicas. Antes, quando a imunidade permitia, ele chegava a ir à escola duas vezes por semana. Natália quer que ele possa retomar os estudos e até ir à escola, porque o menino sente falta de interação, da inclusão, dos amigos, da namoradinha.

Natália divide a casa com os filhos, a mãe e o irmão. “Minha mãe é minha bênção”, diz ela, agradecida com o apoio da família. Quando aconteceu o diagnóstico, ela estava desempregada, e não pôde voltar a trabalhar desde então. Todos os custos que tem são bancados por familiares e amigos. O tratamento de Alexandre é todo feito no Graacc, que é uma entidade filantrópica que atende pelo SUS. Também pelo SUS, ele tem respiradores fixos e móveis, além das consultas, cirurgias e tratamentos. 

Além da quimio e radioterapia, Alexandre usa uma série de medicamentos, como a amitriptilina (um antidepressivo que ele usa para controlar dores neuropáticas), a dexametasona (um corticosteróide) e a morfina. Os efeitos colaterais são vários; por exemplo, a dexametasona inchou Alexandre, que antes era magro.

Natália aposta na Cannabis para trazer ao filho alívio para as dores e a ansiedade, além de aumentar o apetite e a qualidade de vida. Ela também gostaria de poder reduzir e até desmamar alguns desses medicamentos. Ainda em fase de ajuste de dose, Alexandre está tomando 4 gotas de manhã e 4 à noite, mas vai precisar fazer uso contínuo. Por isso Natália criou uma Vakinha para poder seguir o tratamento e melhorar a vida de Alexandre. Se conseguir o apoio, o tratamento poderá continuar. É a esperança para que o menino volte logo a sorrir e ver os amigos.

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