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“A Cannabis é diferente de tudo que já tinha visto”, diz ortopedista

O médico Jimmy Fardin foi para a Bahia em busca de surfe e qualidade de vida, encontrou a Cannabis medicinal e tratamento para si e diversos atletas como ele

O trabalho em um grande hospital do Rio de Janeiro estava difícil para o médico ortopedista Jimmy Fardin, que não conseguia agradar seus empregadores. “Acabavam exigindo um atendimento mais rápido, sempre prescrevendo anti-inflamatório”, lembra. “Era uma medicina mais comercial.”

A recíproca também era verdadeira, e o descontentamento também ocupava Fardin. “Poxa, toda vez passar anti-inflamatório ou opioide para dor. Será que não tem nada diferente? Sempre fui um pouco reticente quanto a isso”, conta o ortopedista.

“Me criticavam por isso. ‘Você é ortopedista e não passa anti-inflamatório?”. Eu sempre tentava fazer um tratamento mais leve, como pulsoterapia ou acupuntura. Alguma coisa mais natural.”

Até que a situação ficou insustentável. “Isso acarretou em uma desavença grande. No início de 2017, eles falaram que meu perfil não condiz com o do hospital”, diz. “Que eu demorava muito atendendo cada paciente, não passava as medicações que queriam. Que buscava um tratamento muito alternativo e não dava mais para trabalhar lá.”

Novos ares

Toda situação abalou o doutor Jimmy . Desencantado com a medicina, pensou que, pelo menos, poderia buscar uma qualidade de vida para si e sua família. Se mudou para o município de Uruçuca, no sul da Bahia, a poucos metros da praia, e ali, poderia se dedicar a outra de suas paixões: o surfe.

Apesar do desânimo, seguiu na profissão. Passou a trabalhar em um hospital público e atendendo pacientes em uma clínica particular. Logo de cara, percebeu que ali as coisas poderiam tomar outro rumo. “Aqui tem um tipo de paciente mais aberto a tratamentos alternativos.”

Conhecendo a Cannabis medicinal

Com o tempo, passou a conhecer mais colegas de profissão, inclusive uma psiquiatra prescritora de Cannabis medicinal. “Ela chegou e disse: ‘por que você não tenta?’ Eu já tinha ouvido falar, mas nunca pensei na possibilidade que eu pudesse prescrever.”

“Eu nem sabia que existia o sistema endocanabinoide. Na faculdade nunca ensinaram, sendo que foi descoberto há mais de 40 anos. Isso foi me despertando um novo olhar pela medicina. Comecei a descobrir uma nova medicina, que tinha muito mais a ver comigo.”

Este, no entanto, era só o começo de sua jornada. “Eu estava meio decepcionado e começou a voltar a vontade de estudar. Entender mais o sistema endocanabinoide”, relata o ortopedista. “Vi que tinha que estudar muita coisa de novo. Fui vendo quais as doenças que começaram a apresentar bons efeitos. Fui rever o sistema todo endócrino, como é que funcionava a metabolização da Cannabis no fígado. Tudo isso tive que estudar porque não tinha nos livros da faculdade.”

Médico prescritor de Cannabis

Até que chegou a pandemia. Atuando na linha de frente do combate à Covid-19, ficava cada vez mais preocupado com a possibilidade de contrair o vírus e contaminar sua família. Mal dormia e, até o surfe acabou prejudicado, com muitas dores no dia seguinte à prática e difícil recuperação muscular.

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Quadro perfeito para sua primeira prescrição de Cannabis medicinal. “Aí decidi testar. Já tinha visto que tem um efeito nisso, e queria ver o que ia rolar”, conta. “Foi muito bom. Eu usei CBD com um pouco de THC. Eu nunca tinha usado Cannabis, nem fumado, nem o óleo, e senti um benefício muito grande.”

“Primeiro por diminuir o estresse, a tensão do dia a dia. Meus filhos viram que meu comportamento ficou diferente. “Pai, você tá mais calmo, mais tranquilo”. Caramba, é a Cannabis. Não pode ser outra coisa”.

Voltou a dormir bem e se livrou das dores. A partir de então, o surfe pode fazer parte de sua rotina diária. “Consegui ficar mais disposto, empolgado para fazer as coisas. Um ânimo. É sensacional.”

Os primeiros pacientes

Passou para os amigos, só recebeu relatos positivos. Em sua família, sua mãe virou paciente, assim como sua avó, diagnosticada com Alzheimer. Uma enfermeira, colega no hospital, ficou sabendo e pediu para seu pai, e tempos depois retornou repleta de gratidão. “Realmente tem um efeito realmente diferente de tudo que já tinha visto.”

O passo seguinte foi começar a oferecer como alternativa para seus pacientes. “Muitas vezes eu propunha um tratamento diferenciado. ‘Eu posso te passar anti-inflamatório, opioide, mas também trabalho com a Cannabis medicinal. A gente pode tentar porque você vai se beneficiar não só na dor, mas em outros aspectos’. Eu explicava, e o paciente confiava e aderia ao tratamento.”

A notícia de que havia um médico na região que prescreve Cannabis correu de boca em boca. “Aumentou muito o número de pacientes com ansiedade e dor crônica. Comecei a prescrever e a receber mensagens falando que estava muito melhor. Estavam abandonando outras medicações para dor, pregabalina, coisas que tomavam há um tempão.”

Cannabis no esporte

Hoje, Jimmy já soma 50 pacientes em tratamento com Cannabis medicinal. Passou a atender em Ilhéus e Itacaré também e se diz muito satisfeito, principalmente por atender também surfistas como ele.

“Estou muito empolgado, ainda mais que em Tóquio já vai estar liberado o CBD. Dos atletas que eu trato aqui, se o cara tinha um receio em fazer uma manobra,  porque se machucou em uma outra tentativa e nessa vai tirar o pé, com a Cannabis, ele se arrisca mais. Consegue ter entusiasmo e vontade de tentar a manobra, a jogada. Levanta mais sua vontade e determinação. isso, no esporte de alta performance é muito importante”, diz o ortopedista.

“Fora o benefício pós-atividade. A recuperação é muito melhor. já fiz o teste algumas vezes de tirar a cannabis para ver como fica. O cara sente que piora muito o rendimento, as dores voltam.”

Agora, seu plano é se aprofundar ainda mais nos estudos da Cannabis medicinal, e analisa a possibilidade de dar início em um mestrado sobre o tema na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

“Eu quero fazer um estudo clínico, randomizado, duplo cego, para ter a comprovação científica e não só empírica das experiências. Estou entrando em contato com os professores da universidade para ver se tem condições de fazer isso. Como pegar os insumos e testar os óleos daqui da região, para fazer um produto legal. Meu sonho é fazer uma distribuição gratuita ou a baixo custo para pacientes que precisam.”

Felipe Floresti

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