Do desencanto à medicina integrativa

Ailane Araújo se desiludiu definitivamente com a medicina tradicional poucos anos depois de se formar, descobrindo na Cannabis uma solução para seus pacientes

A carioca Ailane Araújo entrou em depressão poucos anos depois de concluir a faculdade de medicina. Foi quando, depois de muito sofrimento, dor e remédios, sua mãe faleceu de câncer. Ailane parou de trabalhar e saiu em sabático, em busca de rumo. Não conseguia conciliar sua perda e a fé na profissão que escolhera. A convicção só retornou ao descobrir a medicina integrativa e um mundo de possibilidades, o canabidiol entre elas.

Quando entrou na faculdade em 2001, logo depois de seu filho nascer, seu desejo era ser cirurgiã. Só conseguiu entrar graças a uma bolsa, mas a conquista só fez aumentar seus sonhos. Porém, assustou-se com os professores cirurgiões: “eram de uma soberba, frieza, se achavam acima dos outros”. Desistiu, não tinha esse perfil. Foi a primeira decepção com o curso. 

Foi se encontrar na pediatria, onde confirmou o gosto por trabalhar com crianças. “Você olha pra criança, ela sorri, dá risada, brinca. Eles são tão diferentes dos adultos”, ela comenta sorrindo também. Especialização escolhida, Ailane continuava abalada com a medicina tradicional e com a quantidade de remédios cheios de efeitos colaterais. 

Viagens de descoberta

Apesar do desconforto, Ailane seguiu montou uma clínica e seguiu a carreira tradicional. Convidou sua mãe para administrar a clínica, o que as mantinha próximas. Veio o câncer. Com ele, quimioterapia, radioterapia, a mastectomia e um novo câncer. Essa maratona de médicos e remédios confirmou o que sentia há muito tempo: os médicos tratavam apenas o corpo, nunca endereçaram as questões emocionais de sua mãe. 

Com a perda da mãe e a decepção final com a medicina tradicional, Ailane vendeu sua parte na clínica e saiu no sabático. Viajou ao Peru, à Amazônia, onde conheceu os índios e suas ervas medicinais. Buscava sentido à sua vida e à sua carreira, e encontrou a medicina integrativa em suas viagens. Virou vegetariana, depois vegana. Queria provar que se pode viver bem sem carne e queijo.

Quando voltou, fugia dos pacientes, porque ainda estava perdida, chegava a não retornar ligações. Não estava pronta para voltar a ser médica: “a medicina tradicional é frustrante, o médico é prostituto, o sistema é péssimo, o médico se vende por um trabalho que ganhe mais e só”. Ela conta que, quando atendia na clínica, tinha 12 minutos por paciente, como numa linha de produção. 

Voltou a viajar e, na Índia, descobriu a medicina ayurvédica, fez mestrado em reiki, estudou medicina quântica. Fez curso de psicologia positiva, estudou medicina antroposófica, florais e homeopatia.

Nessa busca por opções aos remédios e ao tratamento tradicional, há 5 anos, uma amiga pediu para que ela receitasse cannabis para o pai que tinha Parkinson. Nesse ponto Ailane já se definia como praticante de medicina integrativa, funcional.

A descoberta da Cannabis

Naquele ano de 2015, quando a amiga pediu a prescrição, a prescrição da cannabis era liberada no Brasil. Intrigada, Ailane foi aos Estados Unidos conhecer a  Medical Marijuana Inc., onde fez pesquisas para a empresa. De volta ao Brasil, ministrou o primeiro curso de medicina canabinoide em dezembro de 2018.

Sempre atenta aos movimentos do mercado de Cannabis no mundo, Ailane entrou no processo seletivo para gerenciar a Canopy Growth Brasil, empresa canadense com atuação no mercado canábico, mas o processo foi paralisado por problemas burocráticos de importação e licenças.

Entretanto, conheceu o Dr. Wellington Briques que a chamou para fazerem um curso juntos para ajudar a desenvolver médicos prescritores. Ela mesma já tinha desenvolvido um curso próprio, inclusive com patrocinadores. 

Uma nova clínica

O trabalho em equipe deu certo, e resolveram também montar uma clínica juntos. Criaram o CBRMC (Centro Brasileiro de Referência em Medicina Canabinoide), num espaço de 250m2  no Campo Belo em São Paulo, que deveria ter tido festa na inauguração em fevereiro deste ano. Apesar da pandemia, a clínica está funcionando.

No início, sentiram uma queda brusca de consultas presenciais. Agora os pacientes estão voltando com força devido à pandemia e seus efeitos colaterais: pessoas ansiosas, com medo de sair de casa, com depressão, dores gástricas, comendo muito, com compulsões diversas, obesidade, dores musculares.

A consulta de Ailane é meticulosa: já na primeira, ela aborda toda a vida do paciente, desde a barriga da mãe, o estado mental, físico, propósito de vida, religião, os motivos que o levaram a consultar com uma médica funcional.

Ailane explica que a negligência destes fatores leva à ansiedade, à depressão, a males psicossomáticos, que refletem na vida da pessoa. Influenciam na felicidade, nos relacionamentos, na capacidade de expressão. As pessoas sentem a vida tolhida, pânico, falta de controle sobre a própria vida. 

Depois, ela pede uma infinidade de exames e já começa prescrevendo Cannabis. Cerca de 98% de seus pacientes usam. 

Um modo diferente de prescrever Cannabis

A médica lembra que a prescrição de Cannabis está só no começo no Brasil, ainda não tem processo, e que médicos e pacientes focam na prescrição apenas. O resultado pode ser ruim.

“Tem paciente que recebe a receita e some”, diz. “Uma clínica séria precisa ter processo, dispensário, cadastro completo, exames, estrutura na parte medicinal”. Wellington e Ailane estão trabalhando para receber certificado canadense, o que vai dar parâmetros de qualidade para o CBRMC.

Ailane usa o CBD como base para os demais tratamentos que recomenda e performa na clínica, porque o sistema endocanabinóide modula todos os demais sistemas, e está presente no corpo todo, atuando na causa de vários males. Sabendo que fatores externos respondem por 80% das doenças, enquanto fatores genéticos apenas por 20%, a Cannabis ajuda muito. Diminui processos inflamatórios e a modulação imunológica, ligada diretamente a esses processos inflamatórios. 

Seu objetivo é tratar os pacientes de uma forma mais preventiva, como acontece em vários países no exterior. “Aqui no Brasil, a medicina trata a doença”. Como acredita que logo as pessoas vão viver 130 anos, ela sabe que a prevenção é o que vai garantir longevidade com saúde e equilíbrio.

Curiosamente, Ailane tem intolerância ao THC, portanto, não fuma nem nunca fumou. Por isso acha graça que sofra algum preconceito de outros médicos, que a imaginam maconheira por conta de sua defesa ao medicamento. 

Mas ela não liga. “Autoconhecimento é a base de tudo na vida”, diz, com relação a esse tipo de preconceito. “Precisamos conhecer nossos monstros”.

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