“Difícil não falar como se fosse mágica”, conta a médica e paciente Marina Rodrigues

Relembre último dia da terceira edição do Medical Cannabis Summit

A doutora Marina Rodrigues trabalha na linha de frente do combate à Covid-19, atuando no Centro de Tratamento Intensivo de um grande hospital. Lidar com uma realidade dura e inédita fez com que sua ansiedade, que há muito a acompanha, saísse de controle.

“Em meio a uma guerra com o vírus, sentia muitos sintomas físicos de palpitação, crise de pânico. Buscando melhorar minha qualidade de vida, por indicação do meu psiquiatra também, decidi procurar o dr. Pietro”, conta a médica sobre seu colega de profissão, o psiquiatra Pietro Vanni, ambos presentes no último dia do Medical Cannabis Summit.

“Difícil não falar como se fosse mágica. Me mudou como num passe de mágica. Em poucos dias, um bem-estar muito grande. Uma clareza de pensamento que não tinha há muito tempo”, continuou Marina. “Queria fazer atividade física, e não conseguia continuar. Desde que comecei o tratamento, estou indo bem nessas atividades, parei de procrastinar. É mais fácil tomar as decisões diárias.”

CBD no tratamento da ansiedade e dor

De acordo com o doutor Pietro Vanni, o canabidiol é eficiente no tratamento de ansiedade antecipatória, em que a pessoa está sempre preocupada com um acontecimento futuro e não consegue descansar. “Tratar dessa ansiedade traz um bem-estar associado. Geralmente, as medicações para ansiedade baixa o ritmo do paciente. Uma sedação, apatia”, explica. “O que a gente consegue com o CBD é cuidar sem essa apatia toda. Isso é precioso. Um instrumento na psiquiatria que não tinha antes.”

Já o problema da produtora de cinema e televisão, Gabriela Rosales, eram as dores. “Sempre senti dores no braço, mãos, pernas. Pensava que era questão de postura. Tenho hérnia de disco”, conta. “Como trabalho em televisão, na correria, sempre deixava a saúde para depois.”

Com a pandemia, e a possibilidade de trabalhar de casa, decidiu que estava na hora de se cuidar. Os medicamentos, no entanto, davam pouco resultado e muitos efeitos colaterais. A única coisa que ajudava era o Rivotril para dormir, mas a apatia também começou a interferir em sua rotina.

“Quando busquei a Cannabis, já não tinha nada a perder. estava fazendo tratamento para dor sem resultado”, lembra. “Encontrei o Pietro e foi transformador. No primeiro dia, eu já vi diferença. Não sei se é coisa da minha cabeça, mas de um dia para o outro eu dormi e acordei bem.”

Esse foi apenas o começo. “Fui por causa das dores, ajudou na tensão. Meu foco mudou. sempre tive déficit de atenção. Fiquei mais focada, disposta”, comemora.  “Minha vontade é gritar ao mundo sobre a Cannabis. As pessoas têm preconceito por falta de informação.”

Experiência internacional

O Medical Cannabis Summit também contou com a participação do médico alemão e Diretor Executivo da Associação Internacional de Medicina Canabinoide.

“A Declaração Internacional da Cannabis medicinal determina que os pacientes que precisam da Cannabis devem ter acesso, independente do status social, do país que vem, ou de quanto dinheiro tem”, afirma. “O segundo ponto é que todo médico tem o direito de prescrever e recomendar Cannabis medicinal se ele achar que seu paciente precisa.”

No entanto, mesmo em seu país natal, a Alemanha, esse objetivo foi inteiramente atingido. “Nós temos um sistema que, desde 2017, todo médico pode prescrever Cannabis desde que respeite a Lei de Narcóticos”, conta. “Ela determina que os narcóticos não devem ser a primeira opção de terapia. Se outros medicamentos não funcionarem, podem prescrever narcóticos, sejam opioides ou Cannabis. ”

“Infelizmente a Cannabis nas farmácias alemãs são muito caras”, prosseguiu. “Então não é um problema resolvido. Mas é um passo importante permitir que a Cannabis esteja na farmácia e os médicos poderem prescrever.”

Com mais de 20 anos de experiência em medicina canabinoide, o médico afirma que o tempo já o fez perceber que o futuro da Cannabis medicinal é imprevisível. “Minha experiência diz que as coisas nunca acontecem como pensamos hoje. Tem surpresas e não sabemos como vai ser. Seja na pesquisa, na legislação, no desenvolvimento da ingestão.”

Seu exemplo é a laranja. “É uma ótima forma de ingestão de vitamina C, utilizada a centenas de milhares de anos. Existem desenvolvimentos tecnológicos no tipo de ingestão de vitamina C, mas a laranja ainda tem suas vantagens”, faz um paralelo.

“O mesmo com a Cannabis. Hoje estão desenvolvendo um spray que é absorvido rapidamente pela mucosa, com efeitos rápidos. É o que há de mais tecnológico, com absorção semelhante à inalação. Ao mesmo tempo que muitos ficam pensando que a inalação é arcaica, é algo recreacional, eu vejo vários pacientes que se beneficiam diretamente da inalação.”

Visão estratégica e mercadológica

Em mais um painel realizado no Medical Cannabis Summit, o tema foi o mercado da Cannabis medicinal, com destaque para a falta de regulamentação que garanta segurança jurídica para um ambiente positivo de negócios, tanto no Brasil como no exterior.

“É o maior desafio. Saber que a qualquer momento pode ter uma reviravolta, mas não sabe quando. A gente procura o máximo possível de informação, mas é complicado pela falta de regulamentação. Não só local, mas global. O desafio é conseguir ser criativo e ingressar em um segmento que promete”, afirmou Marcelo de Vita Grecco, diretor da consultoria e aceleradora com foco específico no setor da Cannabis,  The Green Hub, que apresentou os resultados do relatório “Cannabis – Pesquisa, Inovação, e Tendências de Mercado”.

“Para 2024, o mercado global de cannabis legal está estimado em US$ 103,9 bilhões. Os EUA, Canadá e Europa deverão ter a maior parte desse bolo. Os países asiáticos ainda estarão para trás, dado que a cannabis continua sendo em grande parte uma mercadoria ilegal. Já a América Latina deve responder por US$ 9,1 bilhões em 2024. A indústria farmacêutica lidera o segmento”, diz o relatório.

Para a CEO da Kaya Mind, consultoria de dados e inteligência de mercado da Cannabis, Maria Eugênia Riscala, o Brasil pode perder uma oportunidade se não regulamentar a Cannabis, como em trâmite com a PL 399/2015. “Quando a  gente fala da planta, estamos falando de muitos setores. Sinto muito pelo Brasil se não regulamentar a Cannabis. Nada mais para esse movimento, então espero que a gente se anteceda e não precise cultivar no Uruguai e importar para o Brasil. Que a gente seja o polo agrícola e inovador que temos condição de ser com a Cannabis.”

Redação Cannabis & Saúde

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